Notas dos Filmes
Meu AdoroCinema
    Years and Years: HBO pega pesado com sua própria distopia à la Black Mirror (Primeiras impressões)
    Por Bruno Carmelo — 28 de jun. de 2019 às 09:35
    facebook Tweet

    O mundo vai dar errado.

    Se você acredita que o mundo está ruim agora, espere para ver o que nos espera dentro de duas décadas.

    Os Estados Unidos lançam um míssil na China, a Irlanda do Norte aprofunda os conflitos com a Grã-Bretanha, a Rússia lança uma nova ofensiva contra a Ucrânia, as tensões entre Israel e Palestina se acentuam, a crise de refugiados adquire proporções catastróficas. As pessoas fazem sexos com robôs, usam máscaras de hologramas e sonham em se tornarem "transumanas", descartando seus corpos para levar uma existência puramente virtual (mas as conversas por Skype ainda têm problemas de conexão). A natureza está desaparecendo - as borboletas, por exemplo, estão extintas. Os discursos de ódio aumentam, e a revolta contra o conhecimento também: cada vez mais pessoas acreditam que a Terra é plana.

    Pelo menos este é o futuro imaginado pela minissérie Years and Years, da HBO. O diretor Russell T. Davies combina os piores pesadelos da tecnologia, em estilo Black Mirror, com as perspectivas mais sombrias da política nacional e estrangeira. Para representar a ascensão da extrema-direita, cria a personagem Vivienne Rook (Emma Thompson), uma mistura indigesta das lideranças populistas e raivosas de países como França, Estados Unidos, Hungria, Filipinas e Brasil. Ela detesta estrangeiros, detesta negros, detesta a cultura e as artes, mas seduz as pessoas por "dizer o que pensa", por parecer diferente dos políticos tradicionais. Pensou em alguns nomes em particular?

    O primeiro episódio é o mais próximo de uma série de terror que a emissora consegue chegar sem o uso de casas assombradas nem garotas possuídas. A narrativa se situa dentro de uma família tão diversificada quanto um clipe de Michael Jackson: existe o jovem gay apaixonado por um refugiado ucraniano, o irmão branco casado com a esposa negra, com uma filha "transumana", a irmã cadeirante, criando sozinha o filho do pai chinês, a irmã que vive efetuando trabalho social no Vietnã...

    Mas durante os primeiros sessenta minutos, o mundo se transforma. A narrativa avança rápido entre os anos, apropriando-se de pessoas reais e fatos recentes para imaginar um futuro fictício em que as coisas só tendem a piorar. Mais chocante do que imaginar uma Terceira Guerra Mundial envolvendo os Estados Unidos e a China é descobrir a naturalidade com que o roteiro mata Angela Merkel e reelege Trump - ou seja, sua alusão direta à geopolítica contemporânea. 

    A família principal, atravessada por estes conflitos, começa a comprar as ideias radicais de Vivienne, naturalizando a barbárie lá fora. "Fo**-se Israel e Palestina", grita Vivienne em rede nacional, para os aplausos do público. É evidente que este núcleo exemplar dialoga com os problemas atuais, muito diretamente representados pela narrativa. O episódio se torna ainda mais perturbador por tentar condensar, numa velocidade espantosa e com um teor gravíssimo, os maiores problemas do século XXI em um único episódio.

    O diretor apela para o rock pesado na trilha sonora (a típica escolha para ilustrar a violência e as rebeliões) além da saturação de telas para retratar nossa atenção dispersa e a sedução pelas imagens fáceis e efêmeras, enquanto emprega uma câmera na mão destinada a reforçar o realismo. A intenção é claramente provocar, causar indignação.

    Mas qual é a função deste choque extremo? Existe distanciamento em relação aos fatos narrados? A crítica a tudo e todos conduz imediatamente à reflexão, ou apenas apela aos sentidos e sensações? A sucessão de catástrofes não seria literal demais, ou ainda dispersa em excesso?

    Após o começo bombástico de Euphoria, a HBO repete a vontade de colocar os dedos na ferida com Years and Years. A capacidade de abordar estes temas sem tabus é louvável - poucas produtoras e emissoras possuem a mesma coragem - mas é preciso tomar cuidado para não se contentar com o valor retórico do choque pelo choque. Resta torcer para que a minissérie encontre seu foco e passe a analisar as causas, consequências e circunstâncias do cenário atual, ao invés de apenas efetuar uma alarmante constatação do caos em que nos encontramos.

    facebook Tweet
    Pela web
    Comentários
    • Eduardo Giudice
      Maravilhosa essa minissérie.
    • Leo Mendes
      Sim, o que pode ser feito é debater, expor, clarificar e (talvez) desprogramar um ou outro. Eu mesmo via muito filme de ação / tiro / distopia made USA. Mas venho me limpando disso faz um tempo. Há esperança rssss
    • Leo Mendes
      Totalmente! Receita de bolo que foram achando, mundo cão, e vão nesse trilho . . .
    • Leo Mendes
      Meu comentário é sobre o modus operandi da HBO e que vem se confirmando a cada novo produto lançado . . .
    • Leo Mendes
      This is Us é incrível. Unbreakable Kimmy eu nem sei como classificar mas é muito bom de tão surreal rssss
    • Leo Mendes
      Não tenho como concordar nem discordar da crítica da Folha porque não vi o produto como eles viram. Mas faz sentido pra mim que hoje em dia os programas (jornais, séries, filmes, HQs, etc) retratem problemas e mais problemas e quase zero de soluções.Basta ver o melhor programa da Globo: Como Será, totalmente focado em soluções mas é exibido num horário esdrúxulo do fim de semana e não ganha nenhum destaque. Enquanto que os jornais mostram o apocalipse misturado com o Ragnarok todo dia, 24h direto, em todos os canais. O medo atrai, convence e vende . . .Mas não acho que o mundo seja isso aí e só nos reste criticar ou remoer o inevitável. Tudo é evitável se fizermos algo sobre. O niilismo definitivamente não é a minha ferramenta. Prefiro selecionar outras atrações e, em fóruns como esse, expor as questões que considero problemáticas. Vai que outras pessoas também enxergam algo e mudam suas escolhas? Audiência é assim: se ninguém assiste um programa, ele muda de pauta ou acaba. Hackear as ferramentas que usam para nos hackear, esse é o plano rssss
    • Daniel Silva Mathias Junior
      eu assisti até o episodio 5 que foi o ultimo lançado, meu serie sensacional dizendo o que seriamos no futuro, achei muito interessante a implementação de chips no corpo para controlar as coisas ahahah
    • Leandro S.
      Vi o episódio 1: Tenso/Insano
    • Tim Meme
      Impactada ! episódio 01 ⭐⭐⭐⭐⭐
    • Berguinho Freitas
      Gostei pelo que li e tomara que não tenha um final feliz pois sabemos que não teremos.
    • Leandro Silva
      Falou bonito. Uma Palma de salvas pra vc.
    • Leo Mendes
      HBO se notabilizou pela qualidade das suas produções e pela utilização apelativa de sexo-violência-tabu. E essa é mais uma produção nesse sentido. Num mundo em que podemos ter Touch e This is Us (e talvez até Unbreakble Kimmy) em destaque, na verdade temos uma sucessão de fetiches e problematização sem solução, para banalizar o que deveria ser ultrajante e nos manter sempre na mesma posição: atônitos e/ou letárgicos . . .
    • maiaromis
      HBO a melhor
    Mostrar comentários
    Back to Top