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    Too Old to Die Young: Estreando série, Nicolas Winding Refn, de Drive, dispara contra a TV (Entrevista)
    Por Renato Hermsdorff (Tradução de Maria Clara Guedes) — 21 de jun. de 2019 às 08:53
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    Miles Teller, de Whiplash, é o protagonista da violenta história que lida com o “tempo” de forma não-convencional.

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    Conhecido pela direção de filmes como Drive e Demônio de Neon, o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn agora concentra seus esforços na TV, com a estreia de Too Old to Die Young, série protagonizada por Miles Teller (Whiplash/ Quarteto Fantástico), original do Prime Video, já disponível na plataforma da Amazon.

    Caso soubesse ler em português, no entanto, o cineasta faria uma correção na introdução acima. “Eu não tenho nenhum interesse na narrativa episódica”, ele diz, ao lado do ator principal, em uma mesa-redonda de conversa com jornalistas na última edição do Festival de Cannes, onde dois episódios (curiosamente o 4 e 5 - e não os dois primeiros, como de costume) foram exibidos para a imprensa.

    Sim, Refn considera ter feito um longa de mais de dez horas. “Foi como fazer um filme por bastante tempo”, ele assume, com seu ar blasé de costume.

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    Teller em cena.

    Tempo, tempo…

    O resultado é um produto (filme ou série) dividido em dez partes, com mais de uma hora de duração cada - com exceção do episódio final, que tem cerca de meia hora, um deles chega a bater 1h37, tempo usual de um longa-metragem.

    Na trama, Martin (Teller) é um policial difícil de ser “lido” - e o os dois capítulos mostrados não facilitam em nada essa leitura. “O rosto humano é a parte mais interessante do corpo. Quanto mais você consegue objetificar, mais interessante fica. Quanto menos você revela, mais ele vai te surpreender”, Teller procurou justificar a “poker face” de seu personagem.

    Filmada ao longo de dez semanas (quatro a mais do que habitualmente o diretor costuma trabalhar em seus filmes), a “série” lida de forma não-convencional com os tempos, como é de se supor. Refn garante que, para isso, teve toda liberdade por parte da Amazon.

    … tempo, tempo.

    “Eu acredito que nós vivemos em um mundo muito estressante e parte do que a arte faz é desestressar. Então, tem um sentido em entrar em um tipo de ritmo diferente, com o qual não estamos acostumados, seja ao seu redor, seja no entretenimento”, contextualiza o cineasta.

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    Winding Refn em Cannes.

    Na prática, funciona mais ou menos assim: o personagem faz uma pergunta; o tempo de reação da resposta do interlocutor pode demorar minutos.

    “Eu acho que a quietude é parte do ofício, que você quase nunca tem a oportunidade de exercer. É um pouco como teatro [japonês] kabuki, que é muito desconfortável porque passa tão devagar”, explica Miles Teller, que ainda exemplifica: “Eu fiz uma cena de 12 minutos e meio em que eu só fico olhando um cara cavar uma vala, sem piscar na maior parte do tempo”.

    “A quietude, estranhamente, é algo que muitas pessoas acham desconfortável, tanto em fazer parte disso ou até mesmo olhar. Então, todo a concepção era ter uma série que tivesse um outro ritmo da vida”, complementa o diretor, que por duas vezes reiterou estar caminhando na contramão do que vem sendo feito na TV.

    It´s not TV.

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    Cartaz da "série".

    Neste sentido, Winding Refn critica o ato de maratonar, que define como “irônico” e “surreal”. “Se você consegue consumir aquele tanto de informação [em tão pouco tempo], certamente você não absorve muita coisa”, acredita.

    Ele compara a experiência do seu cinema, ou melhor, “da sua TV” à experiência proporcionada pelas artes plásticas: “Se você vai a um museu, ou a uma galeria, você pode olhar e ver tudo muito rápido, ou você pode ver tudo lentamente e, na maioria das vezes, se você vê tudo lentamente, aproveita muito mais. Então, para mim, era muito importante que o fosse ritmo fosse desarticulado”.

    Em suma, Nicolas Winding Refn volta a disparar: “A TV é quase como uma fábrica. Eu não quero passar três anos da minha vida trabalhando em uma fábrica. Por que alguém gostaria de assistir algo feito em uma fábrica?”, provoca.

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    O "neon" característico.

    “O melhor tipo de fantasia é a mais perversa”.

    Infiltrado no submundo do crime de Los Angeles, o personagem de Teller tem contato com os mais repugnantes seres fora da lei, exploradores de mulheres e pornógrafos incluídos, como os dois episódios deram a entender.

    Com classificação indicativa de 18 anos, Too Old to Die Young (algo como “velho demais para morrer jovem”) tem a violência como um de seus pilares. “Todos nós temos perversão dentro de nós, gostemos ou não. Eu sinto um enorme prazer [em expressar a violência], é como um exorcismo, é como Shakespeare, quanto mais obscuro é o drama, melhor o valor de entretenimento”, explica Refn. A metralhadora de frases de efeito segue apontada: “O melhor tipo de fantasia é sempre a mais perversa”.

    Com John Hawkes (Inverno da Alma), Jena Malone (Jogos Vorazes), Augusto Aguilera (O Predador), entre outros, os dez episódios de Too Old to Die Young estão disponíveis na íntegra para os assinantes do Prime Video.

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    Jena Malone.
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    John Hawkes.

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