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    Killing Eve: Crítica da 2ª temporada
    Por Laysa Zanetti — 03/06/2019 às 11:38
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    Sandra Oh e Jodie Comer seguem brilhando em seus papéis, mas a história derrapa onde a primeira se excedeu.

    Nota: 3,0 / 5,0

    Quando a primeira temporada de Killing Eve estreou, tinha dois grandes trunfos: a popularidade de Sandra Oh e a excelência de Phoebe Waller-Bridge, fundamentada com a irretocável Fleabag. Logo a série encontrou outros pontos fortes: Jodie Comer é uma força a ser reconhecida, a dinâmica entre as duas protagonistas exala química e a forma distorcida com que a relação atraente e repulsiva entre ambas foi se desenrolando gerou todo tipo de sentimento. O drama se transformou na série que deu a verdadeira guinada feminina no arquétipo dos Homens Difíceis da terceira Era de Ouro da TV, utilizando com muita sabedoria seu teor irônico e cínico, sem perder de vista que aquilo era, no fim das contas, uma história sobre um sentimento conflitante e um drama de ação e investigação.

    Mas isso é a primeira temporada. A segunda derrapa nas bases e entrega um resultado fraco e dissonante.

    Novamente com oito episódios, a segunda temporada de Killing Eve começa exatos 30 segundos após o fim da primeira, e promete dar continuidade à história com um novo olhar. Waller-Bridge entrega a produção a Emerald Fennell que assume como a nova showrunner do segundo ano. É um tipo de transição que sempre causa ruptura, que pode ou não ser prejudicial. Neste caso, as consequências são negativas. Estamos diante de uma temporada que entende apenas parcialmente o que tornou a anterior tão encantadora.

    Parisa Taghizadeh/BBCAmerica

    Isso porque parte daquele DNA ainda está presente. Comer e Oh continuam entregando atuações brilhantes, e o conflito psicológico de Eve a respeito de Villanelle é visível em seus olhos. A personagem está constantemente exausta de tudo e todos à sua volta, irritada com aquilo que não entende exatamente o que é, confusa em relação aos próprios sentimentos e temerosa a respeito das suas próprias ações.

    Villanelle, por outro lado, está confusa. Ela está machucada tanto no sentido físico quanto no psicológico, e ver uma personagem psicopata sendo obrigada a lidar com um sentimento tão delicado e tão estrangeiro para ela é algo de que a temporada poderia se beneficiar para fazer aquilo que é tradicionalmente o objetivo de um segundo ano: aprofundar o que se sabe a respeito dos protagonistas e da história, apresentando, basicamente, um motivo: por que precisamos saber mais sobre aquilo?

    Mas a segunda temporada de Killing Eve parece querer contar unicamente com a boa química entre Sandra Oh e Jodie Comer para manter o público interessado na história. E enquanto este é de fato um elemento importante na mitologia da história, passa longe de ser suficiente.

    Há muitas variáveis com as quais a segunda temporada de Killing Eve lida com dificuldade. A primeira delas é a permanente distância física entre as duas protagonistas na primeira metade dos episódios. Isso deixa claro o quanto a série se escora com força na atração que uma sente pela outra para criar interesse, e também o quão falha é em estabelecer que o ambiente no entorno delas é tão fascinante quanto. Isso é algo com que a primeira temporada lidou de forma consideravelmente mais leve, justamente porque apostou na energia vibrante de Villanelle em cada cena, e na força racional de Eve para criar uma linha de pensamento e um caminho até sua nêmesis. Aqui, os pontos fracos e fortes de cada uma delas se entrelaçam, uma decisão lógica levando em consideração que, após o turbulento final da primeira temporada, é perfeitamente entendível que uma tenha “contaminado” a outra.

    Parisa Taghizadeh/BBCAmerica

    Mas isso também torna a temporada algo bastante confuso, porque nada é exatamente distinguível entre uma e outra. Ambas tomam péssimas decisões e agem de forma completamente irracional, como se o abandono da lógica fosse a consequência do fervor dos sentimentos. O resultado disso são episódios completamente genéricos e sem identidade, que demoram demais para encontrar o compasso. Metade da temporada vai embora sem que o público saiba exatamente o que há de novo, porque três episódios são gastos basicamente limpando a bagunça do final da primeira, sem que haja uma justificativa para a mera existência de uma continuação. Quando a temporada enfim encontra o seu próprio motor — a operação contra Aaron Peel (Henry Lloyd-Hughes) —, tudo no entorno do caso soa forçado e propositalmente idiota. Este era de fato o objetivo, como o episódio final esclarece, mas é um objetivo preguiçoso e mal desenvolvido, sobretudo levando em consideração que isso basicamente deixa de lado a inteligência estratégica que Eve e Villanelle apresentaram na primeira temporada quando estavam em rota de colisão.

    É claro que a temporada dispõe de muitas passagens marcantes, seja o momento em que Villanelle confessa o seu tédio na sessão do grupo de apoio ou o seu olhar visceral quando Eve, em desespero, se vê forçada a matar Raymond a machadadas. Essas são inegavelmente personagens interessantes e que têm muito a apresentar e muitas provações a fazer, mas raramente os episódios se dispõem a mergulharem nisso sem medo. Individualmente, portanto, Killing Eve continua sendo uma série memorável e divertida de se assistir, mas parte do que a colocou entre as melhores de 2018 se foi.

    Pouco ajuda o fato de a temporada andar em círculos. Talvez o segundo episódio, em que Villanelle acaba presa na casa do bizarro e assustador Julian (Julian Barratt) e depois retorna às garras da organização The Twelve através de Raymond, tivesse algo a dizer ou a antecipar sobre o que viria a seguir com Aaron Peel. Enclausurado, é um episódio que reúne perfeitamente os elementos kitsch da série (com um tipo de homenagem a clássicos do terror camp como O Que Terá Acontecido a Baby Jane?) e dá o espaço necessário para Jodie Comer brilhar. Ela está presa por um homem controlador que acha que a entende, mas é ele quem acaba sendo sua vítima depois que ela consegue bolar seu plano. O mesmo acontece com Peel no fim da temporada, quando toda a potencial curiosidade que ela sentia por ele se esvai no momento em que ela descobre que ele é um serial killer de mulheres. É perceptível que a temporada está tentando passar uma mensagem a respeito dos princípios de Villanelle e cumplicidade feminina — uma outra evidência é a cena em que ela persegue duas garotas mas acaba perdendo qualquer ímpeto quando as duas oferecem companhia por ser perigoso para uma mulher caminhar sozinha à noite. Mas o que exatamente ela está tentando dizer jamais é dito.

    Parisa Taghizadeh/BBCAmerica

    Talvez o grande problema seja medo, mas o que causa a visível queda na qualidade de Killing Eve é um problema que persegue qualquer série com um conceito elaborado demais. Em algum momento, simplesmente será difícil demais justificar o fato de aqueles personagens continuarem naquele ambiente tão perigoso sem que tudo pareça forçado demais. Eventualmente, isso se traduz na tela como algo demasiado novelesco, como aconteceu nas temporadas finais do outro hit da BBC America, Orphan Black. Mas é difícil manter a empolgação quando o ato final da temporada volta ao exato mesmo lugar que o da primeira temporada, mas com os papéis invertidos. Lá, Eve esfaqueou Villanelle. Aqui, Villanelle atirou em Eve.

    Se o objetivo deste fim de temporada era mostrar o encerramento de um ciclo vicioso entre as duas, é reducionista porque ignora qualquer alternativa de que Villanelle seja alguém com mais nuances entre a atração que sente por Eve e o seu próprio instinto sanguinário e violento. Ignora também tudo por que Eve passou na segunda metade da temporada quando ativamente instigou (ainda que manipulada) a contratação dos serviços de Villanelle para o caso contra Peel. Se o objetivo era mostrar que Villanelle jamais deixou de ser uma serial killer e que Eve, no fim das contas, ainda é uma agente do governo cuja reação primária é agir de acordo com as ordens, então é um final de temporada que não tem absolutamente nada a dizer e que apenas regride tudo o que havia sido dito até então.

    Parisa Taghizadeh/BBCAmerica

    Killing Eve é uma série com muito a dizer, mas cuja mensagem ficou visivelmente distorcida com a troca de showrunner da primeira temporada para a segunda. Fennell tinha um grande desafio em mãos, e essa ruptura na continuidade tornou o que já era difícil — manter a qualidade em um drama de conceito tão elaborado — ainda mais desafiador. Para a terceira temporada, a missão ficará a cargo de Suzanne Heathcote, que terá que entender que, para manter a série no ar, é preciso ter coragem.

    Esta história se tornou fascinante porque rompeu com algo pré-existente e provocou o público (e uma agente do governo) a simpatizar com uma assassina cativante e que não pede redenção. Para continuar a ser atraente, a série não pode continuar dizendo a mesma coisa que já entendemos. Precisa dizer mais. Precisa arriscar. Precisa deixar Eve aceitar a proposta de Villanelle e apresentar um novo capítulo, mergulhar de cabeça no que ambas têm de semelhante ao invés de ficar apenas reafirmando incontáveis vezes que a atração que elas têm uma pela outra é mais do que apenas mental. Precisa deixar que isso provoque o espectador da mesma forma que Villanelle provoca Eve. Ou algo assim.

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