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    Supergirl: Crítica da 4ª temporada
    Por Katiúscia Vianna — 3 de jun. de 2019 às 00:01
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    A recente aventura da heroína de Melissa Benoist ensina como "menos é mais".

    Nota: 3,0/5,0

    Coragem. Essa palavra define a quarta temporada de Supergirl. Não é somente um dos atributos mais famosos de Kara Danvers (Melissa Benoist), mas também pode ser aplicado a mensagem que a série transmitiu em seus últimos 22 episódios. Nem sempre a prática acompanhou a teoria, mas é preciso deixar clara a gratidão pela proposta da série.

    Basicamente, a recente aventura da Garota de Aço teve a xenofobia como tema central, abordando o preconceito contra alienígenas, numa direta referência ao sofrimento atual de diversos imigrantes nos Estados Unidos, diante da presidência de Donald Trump. Na trama da CW, surge Ben Lockwood/Agente Liberdade (Sam Witwer, bem ameaçador) convocando uma campanha de ódio contra os seres estrangeiros, que cresce de maneira rápida e espantosa pelo país. Tal jornada seria uma forma criativa e diferente de encarar o gênero do super-herói, porém a execução acabou se perdendo ao longo do ano.

    Da mesma forma que o caos se espalhou entre os habitantes de Central City, o eixo narrativo também ficou caótico. Existia a ameaça de Lockwood, ai adicionaram os problemas de Manchester Black (David Ajala), enquanto tinham episódios onde Coronel Hayley (April Parker Jones) e o presidente Baxer (Bruce Boxleitner) eram aqueles que causavam dor de cabeça. Sem falar na clone da Supergirl jogada sem utilidade... Tais histórias se conectavam, mas não eram desenvolvidas, culminando em vários problemas repetitivos. A situação só muda a partir do episódio 14, quando a temporada realmente engrena.

    Surge então a aguardada escalação de Lex Luthor, um dos maiores vilões da DC Comics. O nome de Jon Cryer foi uma decisão inusitada. Mas, se for por isso, já é excêntrico colocar Lex numa trama sem Clark Kent (Tyler Hoechlin) — já que Superman só apareceu no ótimo crossover 'Elseworlds'. Claramente, o ator está animado com o papel e se dedica a ele, porém não é capaz de fugir dos estigmas que carrega por seus outros trabalhos famosos, como Two and a Half Men e A Garota de Rosa Shocking. Felizmente, não é nenhum desastre no nível Jesse Eisenberg em Batman Vs Superman, além de construir uma boa dinâmica com a Lena Luthor de Katie McGrath. Inclusive, a atriz trouxe suas melhores performances até então, devido aos problemas (e traumas) provocados pelo irmão.

    Por outro lado, é inegável que a presença do psicopata transforma completamente a trama, finalmente encaixando tudo. A traição de Eve (Andrea Brooks) e a forma como ele manipula Lockwood centralizam tudo numa ameaça só, como deveria ter sido feito desde o início. A explicação surge em 'The House of L', ótimo episódio focado na Red Daughter, quebrando o ritmo cansativo da série até então. É nesse momento que o público também vê como Melissa Benoist consegue segurar o desafio de interpretar duas personagens.

    Curiosamente, Supergirl comete o mesmo erro que The Flash, onde as grandes reviravoltas envolvendo vilões clássicos — Lex Luthor e Flash Reverso (Tom Cavanagh) — deviam ter sido temas centrais de suas respectivas temporadas. Ao invés disso, os produtores decidem manter isso como uma surpresa, para tentar prender o interesse do espectador por 22 episódios. Só que ambos demoraram muito para chegar a esse ponto, sendo explorados de maneira superficial em capítulos finais. É um desperdício da ideia que mais tem história para contar. A série do Velocista Escarlate de Grant Gustin, pelo menos, teve vantagem de lidar com um tema mais fácil de identificação, a família. A ousadia de Supergirl em abordar um assunto político acabou gerando diferentes problemas, por mais inspirador que seja.

    Nessa confusão de subtramas, quem acabou se tornando o destaque foi Nicole Maines. Sua Nia Nal foi cercada por grande expectativa, então a chegada discreta foi um pouco fraca. Porém, quando a personagem passa a lidar com seus poderes, a performance da jovem floresce junto com a confiança da jornalista. Foi bom ver como Dreamer/Sonhadora abordou a transexualidade de forma natural, focando mesmo em sua transformação em heroína, investindo na representatividade. Sem falar que sua parceria com Brainy (Jesse Rath, divertidamente caricato) foi um ponto alto. Ambos conseguiram suprir o vazio deixado por Winn (Jeremy Jordan), Cat (Calista Flockhart) e Mon-El (Chris Wood).

    Outro momento bem-sucedido foi a jornada de Kara apostando em seu lado jornalista. É bom ressaltar como a protagonista também é uma heroína em sua "versão humana", não apenas por seus poderes, e passa uma mensagem bacana sobre a influência positiva que a mídia pode ter nas mãos corretas. O restante do elenco também trabalha de maneira eficiente, mesmo perdidos em arcos desnecessários, como os poderes de James (Mehcad Brooks) ou a indecisão de J'honn (David Harewood). Por sua vez, Chyler Leigh conseguiu se beneficiar nos momentos dramáticos entre Alex e Kara, um relacionamento que passou por problemas nos últimos episódios, mas foi resolvido de maneira bela e rápida, felizmente. Aliás, fica a torcida para não esquecerem novamente a vontade da agente de ser mãe, algo desperdiçado durante o ano.

    O saldo da quarta temporada de Supergirl é positivo, pois grandes momentos surgiam dentre os trancos e barrancos, como a impactante briga entre alíens e humanos ao som de "Mad World" em 'Stand and Deliver'. Só incomoda perceber que os aspectos responsáveis pelo auge da série são relacionados ao primo mais famoso da protagonista. A esperança é que todo o arco de Lex tenha sido apenas uma catapulta para a jornada de Lena. Apesar de terem indicado qual será o vilão do próximo ano, o grande suspense da finale fica com a genial cientista. Ela irá perdoar Kara ou seguirá os passos maléficos do irmão? De qualquer forma, a narrativa terá a chance de construir uma personagem ainda mais complexa que já é — além de, consequentemente, gerar mais desafios humanos para heroína de Benoist.

    Personagens bons, desafios com grande potencial e coragem para falar daquilo que importa. Todos os elementos para uma história de qualidade estão em Supergirl. Só falta saber encaixar.

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