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After Life: Crítica da 1ª temporada
Por Bruno Carmelo — 14/04/2019 às 08:45
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Entre o carinho e a porrada.

Nota: 4,0/5,0

Ricky Gervais tem apresentado uma carreira curiosa como humorista. Filósofo de formação, ateu convicto e assumidamente progressista, ele sempre construiu seu material na observação do dia a dia - ao estilo de cronistas como Jerry Seinfeld - mas também nos ataques frontais aos pilares da sociedade conservadora.

Ele sempre tentou equilibrar ternura e crítica social, ora conseguindo bons resultados - o humanismo de Derek -, ora partindo para a comédia grosseira e vulgar - vide o stand up show Humanidade, recheado de piadas transfóbicas. Gervais busca se situar no meio do caminho entre a empatia pelo outro e a vontade meio egocêntrica de não dar satisfação a quem quer se seja.

Talvez o melhor equilíbrio entre essas ambições antagônicas se encontre em After Life, série da Netflix estrelada, dirigida e roteirizada por Gervais. Desta vez, ele não interpreta nenhum "tipo" social específico - nada do deficiente mental de Derek, o patrão alienado de The Office nem o músico de David Brent. No papel de um jornalista, o ator-autor nunca esteve tão próximo de si mesmo, interpretando um sujeito igualmente rabugento, sarcástico, ateu e progressista.

O protagonista é Tony, um homem atravessando o luto pela morte da esposa (Kerry Godliman). Sem enxergar uma razão para viver, ele cogita o suicídio enquanto se pergunta: por que eu deveria ser simpático com as pessoas, se não me importo comigo mesmo? Tony começa então a dizer tudo o que pensa, insultando a todos, criticando desde a corpulência do colega Lenny (Tony Way) até a paixão descontrolada da amiga Kath (Diane Morgan) pelo ator Kevin Hart. Ele chega ao cúmulo de ameaçar uma criancinha com um martelo e encorajar dois ladrões a matá-lo de fato. 

A série poderia se limitar a um espetáculo de grosserias, se não fossem por alguns aspectos: primeiro, o equilíbrio obtido através dos personagens coadjuvantes. Esta talvez seja a série com o melhor elenco secundário em muito tempo - é difícil pensar em figuras tão comoventes quanto a viúva Anne (Penelope Wilton), o dependente químico Julien (Tim Plester) e a prostituta Roxy (Roisin Conaty) - ou melhor, "trabalhadora do sexo", como ela prefere. Eles correspondem a formas muito diferentes de lidar com a revolta em relação à sociedade, impondo-se diante da agressividade de Tony.

Além disso, o protagonista começa a enxergar, ao longo de seis episódios, os limites de sua abordagem vingativa. Ele tenta provar brigas a qualquer instante, mas a placidez com que muitos colegas acatam esse temperamento (Sandy e Kath, em particular) desestabiliza o homem furioso. "Algumas pessoas são apenas boas", ele é obrigado a consentir.

Para completar, nós somos constantemente lembrados de que o sentimento (auto)destrutivo é motivado pela perda recente, através de vídeos que a esposa doente gravou antes de falecer. Esta ferramenta poderia ser bastante lacrimosa, porém Gervais cria uma esposa tão brincalhona e irônica quanto o marido. Ao invés da figura da vítima, ela se transforma numa pessoa que completava perfeitamente a personalidade de Tony.

O melhor aspecto do roteiro se encontra na transformação sutil, e bastante plausível, de cada personagem. Tony é confrontado a cada instante - inclusive por desconcertantes demonstrações de altruísmo e por um suicídio real -, mas mesmo a doce Sandy (Mandeep Dhillon) se impõe quando necessário, o pai senil de Tony (David Bradley) tem um importante momento de sanidade, e a enfermeira do homem idoso (Ashley Jensen) passa da profissional a possível amiga. De modo geral, nenhum personagem é bom ou ruim, totalmente pessimista ou otimista. A série permite variações sutis de humor e temperamento, muito próximas da realidade.

After Life termina por conquistar uma rara mistura entre tragédia cotidiana e comédia patética, algo que Transparent efetuou muito bem recentemente. Tony está sempre a dois passos de se tornar intragável demais (com os colegas) ou romântico demais (com a imagem da esposa), mas navega firmemente entre extremos. As cenas são filmadas à altura dos personagens, sem grandes arroubos estéticos, mas permitindo notáveis momentos de poesia (o uso da praia, da cadela, a viagem alucinógena).

O resultado transparece uma estrutura bastante simples de produção e roteiro, em oposição à complexidade dos personagens. O jornal absurdo onde trabalham os protagonistas não se desenvolve, e tampouco possui um grande potencial narrativo - nós sequer vemos os jornalistas escrevendo, e fica difícil imaginar como o empreendimento se sustentaria. Mas estas são algumas licenças lúdicas para permitir a convivência entre tantas pessoas carinhosamente patéticas, entre o excesso de cinismo ou a ausência completa do mesmo.

Pela rica interação entre os personagens, After Life possui material de sobre para uma segunda temporada, já confirmada pela Netflix. Vai ser muito divertido continuar vendo essas versões ligeiramente acentuadas de pessoas comuns, tão fracassadas e falhas quanto qualquer um de nós.

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