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    Sobreviver a R. Kelly: Crítica da 1ª temporada
    Por Katiúscia Vianna — 23/03/2019 às 09:03
    Atualizado 25/03/2019 às 02:15
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    Disponível na programação do Lifetime Brasil, a série é focada nas mulheres que declaram ter sofrido abuso nas mãos do rapper.

    Nota: 3,5/5/0

    O poder da mídia é algo impressionante. O rapper R. Kelly se envolve em escândalos sobre abuso sexual, envolvendo menores de idade, desde 1997, mas parece que, só agora, o artista realmente sofre as consequências de tais acusações. Boa parte do mérito é do documentário Sobreviver a R. Kelly, que chega ao Brasil dois meses após sua exibição nos Estados Unidos. Desde o início do ano, o cantor foi demitido de sua gravadora; entrou e saiu da cadeia algumas vezes; e se tornou nome maldito em Hollywood. Mas ao assistir a série, o sentimento que fica é como tal decadência demorou a chegar.

    Dividido em seis episódios, a obra reconta a carreira de Robert Kelly, traçando paralelos com diversas mulheres recontando abusos que sofreram, ao longo do caminho. Os dois primeiros capítulos abordam sua infância conturbada, além do polêmico (e ilegal) casamento com a cantora Aaliyah — que tinha apenas 15 anos de idade, na época. Partes 3 e 4 retratam o início do abalo de sua figura pública, com por conta de processos judiciais sobre pornografia infantil, após o vazamento de uma fita onde ele (supostamente, já que foi inocentado) aparece fazendo sexo com uma garota de 14 anos. Por sua vez, os episódios finais são centrados nos recentes anos de sua vida, onde é acusado de ter criado um culto sexual, controlando e isolando várias jovens em sua casa.

    Construindo essa linha do tempo, o grande trunfo da série é, finalmente, dar voz e visibilidade para as sobreviventes que acusam Robert. Na hora de apresentá-las, um texto na tela ressalta a idade que cada uma tinha ao conhecer o artista. Um belo toque para conduzir a narrativa e causar maior impacto no espectador. Em cada episódio, os produtores deixam claro como o rapper nega cada acusação, mas que confiam nessas mulheres. Dessa vez, não são simples números em estatísticas. Elas têm rostos, nomes e se emocionam; de forma que é difícil não acreditar em suas palavras. 

    Para contextualizar cada relato, surgem imagens e documentos que reforçam os argumentos. Para explicar cada ação absurda que R. Kelly tomou, surgem depoimentos de jornalistas que acompanham sua carreira, especialistas em traumas e ativistas da defesa contra a mulher — com destaques para as fundadoras dos movimentos #MeToo e #MuteRKelly, que já lutava pela maior visibilidade dos crimes anos antes da "moda atual". Também são entrevistadas grandes figuras da indústria musical, onde o nome de maior fama é do cantor/compositor John Legend. Surpreendente mesmo são as participações de pessoas diretamente conectadas com o astro; como antigos empregados, dois de seus irmãos (apenas um o defende, necessário ressaltar) e sua ex-esposa, Andrea Kelly, que também afirma ter sido abusada pelo pai de seus filhos.

    O resultado final de Surviving R. Kelly (no original) é a construção de uma obra que parece revoltante demais para ser verdade. Como alguém poderia fazer coisas tão repugnantes (como abuso sexual de menores e agressão física, dentre outros), mas sair impune? Quem o ajudou durante tanto tempo? Se tais vítimas foram ignoradas pela grande mídia no passado, aqui elas têm espaço para contarem suas verdades. Não é algo fácil de assistir, mas a dor do espectador nem se compara com o tamanho da coragem dessas mulheres, ao se posicionarem diante das câmeras.

    Detalhes gráficos de tais encontros são revelados e podem incomodar, mas é bom perceber como a narrativa de Nigel Bellis e Astral Finnie sabe definir o que é realmente necessário. Por exemplo, muito é dito sobre a suposta fita que traz a gravação de um relacionamento sexual entre R. Kelly com uma garota de 14 anos, mas nenhum trecho explícito do vídeo aparece em tela (o que seria fácil, já que ele ainda está disponível pela internet afora). Apenas mostram uma cena introdutória, onde o rosto da jovem é, obviamente, distorcido. 

    Tal iniciativa também surge no aspecto estético do documentário, basicamente formado por depoimentos diante de um fundo neutro, intercalados entre arquivos públicos sobre cada momento da carreira de R. Kelly. A obra só foge do estúdio por duas vezes, em momentos importantes das sobreviventes: a busca de uma mãe para localizar a jovem filha que desapareceu ao se relacionar com o rapper; e a visita numa antiga casa de Kelly, onde ele mantinha suas diversas namoradas em condições totalitárias. O foco em sua importante mensagem permite que certos defeitos da série sejam perdoados, como o uso exagerado de ferramentas dramáticas na trilha sonora e na criação de "ganchos" para manter a audiência dentre intervalos e capítulos. A história é impactante por si só. Não precisa de firulas.

    Nas últimas semanas, foram feitas diversas comparações entre Sobreviver a R. Kelly e Deixando Neverland, documentário focado em dois homens que afirmam ter sofrido abuso sexual por Michael Jackson (leia a crítica do AdoroCinema aqui). Porém, o filme de Dan Reed é um mergulho mais individualista que a série, não somente pelo menor número de sobreviventes centrais na narrativa. A obra do Lifetime abandona a ideia do mergulho psicológico, a fim de dar espaço para uma crítica social.

    Durante todos os episódios, os depoimentos de jornalistas ajudam a perceber como a figura pública de R. Kelly está manchada desde os anos 90, quando surgiram as primeiras acusações. Porém, isso foi ignorado perto da música de qualidade que ele produzia — além da habilidade de se transformar entre o rapper sedutor e o cantor com pegada gospel, capaz de criar hits emocionais como "I Believe I Can Fly", por exemplo. Embarcando numa análise mais profunda, o documentário ajuda a perceber como essa não foi uma decisão tomada apenas por questões lucrativas. Público e imprensa decidiram ignorar a tragédia para manter o entretenimento que trazia alegria. Lembra do poder da mídia citado na primeira frase? Ele também pode ser tóxico, se for direcionado para o lado errado.

    O ditado "inocente até que se prove o contrário" não deve ignorado, porém a obra não tem medo de explicitar como o sofrimento de duas décadas de vítimas poderia ser evitado, caso o rapper fosse responsabilizado, quando os primeiros crimes se tornaram públicos. E representar como tal situação ainda segue impune, diante dos depoimentos de pais que não têm contato com suas filhas durante anos, desde que as jovens começaram a se relacionar com Robert Kelly. Uma conclusão que se torna ainda mais trágica ao notar como a maior parte das mulheres que o acusam são negras, envolvendo questões raciais nos problemas do sistema judicial e na falta de representatividade na mídia.

    No final das contas, o debate promovido por Surviving R. Kelly é maior do que a dúvida "inocente ou culpado?". É entender como tantas vítimas foram silenciadas, promovendo um debate onde cada indivíduo deve entender a responsabilidade de seus atos e julgamentos. Mas, principalmente, deixar bem claro que nenhuma voz irá ser calada. Todo sobrevivente de violência tem o direito de contar a sua história. Isso pode inspirar pessoas em situações semelhantes a buscar sua liberdade. E, finalmente, encontrar justiça.

    Se entreter com uma música é fácil. Olha por debaixo dos panos é difícil, porém mais do que necessário. 

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    Comentários
    • Esdras G.
      Vocês só erraram na parte do casamento do rapper. Ele não casou com a Ashanti, mas sim com a cantora Aaliyah, que faleceu numa tragédia de avião.
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