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    The Act: Uma história de obsessão e grandes atuações (Primeiras impressões)
    Por Laysa Zanetti — 20/03/2019 às 19:50
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    Já assistimos aos primeiros episódios da nova série com Joey King e Patricia Arquette.

    “Dee Dee queria que sua filha fosse doente, Gypsy queria a sua mãe morta.”

    Se o título acima lhe é familiar, é porque você já cruzou em algum lugar com o artigo do BuzzFeed que conta a história de Dee Dee e Gypsy Rose, mãe e filha que viviam em codependência em uma relação que, acredita-se, era baseada em Síndrome de Munchausen por Procuração. A história, apresentada também no documentário Mamãe Morta e Querida (2017), é a base para a primeira temporada de The Act, nova série antológica do Hulu protagonizada por Joey King e Patricia Arquette.

    O drama parte do ponto de vista da filha, Gypsy (King), e começa com uma equipe de policiais atendendo a uma ligação e a uma denúncia. O time entra em uma casa escura, com ares de abandono, e encontra o corpo esfaqueado de Dee Dee (Arquette), enquanto os vizinhos se chocam com o ocorrido: por que alguém faria mal a uma pessoa que dedicou a vida inteira para cuidar da filha debilitada?

    Sete anos antes, somos apresentados a mãe e filha chegando à nova residência após terem perdido tudo no Furacão Katrina. Gypsy é apresentada como uma adolescente com a idade mental de uma criança de sete anos, doente terminal paraplégica e que precisa ser alimentada através de uma sonda. Sua mãe, a heroína desta versão da história, abdicou de tudo para cuidar de Gypsy e dar a ela o melhor. É uma relação de dar inveja, uma vez que tudo o que as duas demonstram uma pela outra é um amor imensurável.

    Mas por baixo da fachada, a história de Dee Dee e Gypsy não é nenhum conto de fadas, algo que vai sendo desvelado aos poucos na trama que se aproxima cada vez mais de um conto de terror. Primeiro, descobrimos que Gypsy não tinha doença alguma, e ao longo da trama, a garota vai entendendo cada vez mais todas as mentiras da qual foi alvo. A prisão velada em que vive.

    Brownie Harris/Hulu

    Nos cinco primeiros episódios, aos quais o AdoroCinema obteve acesso com antecedência, a trama se empenha em ser um estudo de personagem, travando um distanciamento claro das histórias de American Crime Story, com as quais a comparação seria mais óbvia graças às premissas semelhantes. Enquanto as tramas das duas temporadas da série de Ryan Murphy estão preocupadas em travar uma reflexão ampla do contexto político e social em questão (seja o racismo institucionalizado na primeira temporada ou a homofobia na segunda), The Act quer "simplesmente" apresentar ao mundo a história surreal de mãe e filha, tão absurda que mesmo os pontos mais inacreditáveis da trama não podem exatamente ser criticados — as reviravoltas mais insanas não são criações fictícias, são adaptações diretas do caso real.

    Enquanto a trama acompanha o ponto de vista de Gypsy, também cresce a atenção no quanto Dee Dee sabe (ou não) que a filha está alerta, com o nível de dependência emocional de uma pela outra oscila de acordo com os desenvolvimentos externos. Trata-se de um jogo de gato e rato em que o maior desafio é determinar quem é o gato e quem é o rato. A dominação corre solta para os dois lados, e a série trabalha muito bem o quanto a dependência é mútua: Dee Dee quer que sua filha seja dependente dela, e Gypsy aceita alimentar essa necessidade doentia, mesmo sabendo que não tem nenhuma doença.

    Por isso, mesmo quando o roteiro se prende a exageros e manipulações que são visíveis a olho nu (em sequências bruscas de corridas contra o tempo todas as vezes em que Gypsy tenta fazer algo antes de ser descoberta pela mãe, por exemplo), The Act contagia o espectador porque está ancorada em atuações absurdamente competentes. Patricia Arquette não deveria mais surpreender, se não após seu Oscar por Boyhood - Da Infância à Juventude em 2015, então por sua recente atuação impecável na minissérie Escape at Dannemora, em que a atriz passou por uma transformação completa. Aqui, ela passa por outra e entrega uma Dee Dee complexa e difícil de se decifrar. Há muitas nuances que a tiram do lugar-comum de uma vilã, uma vez que é possível observar o quanto ela acredita no que está dizendo e fazendo pela filha.

    Joey King, por outro lado, surpreende quem não esperava nada além de uma promessa esquecível da atriz que estourou com A Barraca do Beijo. Após a transformação física com direito ao cabelo raspado, a atriz está tão assustadoramente parecida com Gypsy Rose Blanchard e tão entregue ao papel que não seria nem um pouco surpreendente ver seu nome pipocando entre os indicados a um Emmy ou Globo de Ouro na próxima temporada de premiações. Da voz aos trejeitos, Joey King desponta neste papel quando mescla com muita destreza o ar inocente da sua personagem com os conflitos internos e a vontade de se libertar da mãe, ainda que não saiba exatamente como. 

    CZ Post/Hulu

    Nos cinco primeiros episódios, The Act destoa quando perde a mão e se transforma em um conto de terror completamente desconexo da realidade e tão mergulhado em si que nem mesmo a própria trama consegue discernir onde termina Dee Dee e onde começa Gypsy. Mas, embora esse desvio de rota seja problemático e escancare a visão restrita da dramatização desta história, despreocupada com os reflexos que poderia fazer sobre maternidade, dependência e questões psicológicas, e exagerada no espelho que coloca nas mãos das vizinhas — vividas por Chloë SevignyAnnaSophia Robb —, a série é um retrato poderoso e fascinante da autodestruição, impossível de não ser devorado porque absolutamente todos os detalhes deste caso beiram o surreal e pedem para ser consumidos. Mesmo quando se transforma em um horror não-requisitado, The Act continua sendo impossível de largar, porque dá ampla margem de argumentação e debate para aqueles ávidos por entender o que se passa na mente das duas protagonistas. Se um dia iremos compreender a fundo esta história, aí já é papo para outra hora.

    Criada pela jornalista Michelle Dean (autora do artigo e produtora do documentário Mamãe Morta e Querida) e por Nick Antosca (Hannibal, Channel Zero), The Act curiosamente aproveita um bom momento para a trama no pós Sharp Objects, e tem nas mãos todos os instrumentos para se tornar a próxima obsessão dos apaixonados por casos criminais. Ela nem sempre é perfeita, e muitas vezes passa longe disso, mas é excepcional em entregar aquilo que a TV mais quer: uma história viciante.

    The Act é exibida no Hulu nos Estados Unidos. Ainda não há previsão de estreia no Brasil.

     
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    Comentários
    • Taty Nunes
      Assisti o primeiro episódio e fiquei impressionada com a série e com a atuação brilhante das atrizes Patricia e Joey ! Esperando ansiosa pelos demais episódios!
    • Danilo
      Não sei se tenho estomago para assistir, pois da um mal estar só de pensar nessa situação.
    • Vidamell Vida R.
      nussaaaa
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