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    The Good Place: Crítica da 3ª temporada
    Por Katiúscia Vianna — 26 de jan. de 2019 às 09:15
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    O que acontece quando uma boa ideia começa a cansar.

    Nota: 3,5/5,0

    Não é segredo nenhum que Mike Schur é um mestre das comédias contemporâneas. Com The OfficeParks and Recreation e Brooklyn Nine-Nine, ele provou como é possível fazer séries divertidas, sem perder (grande parte) de sua qualidade ao longo dos anos. Porém, o produtor e roteirista encontra seu maior desafio em The Good Place.

    A primeira temporada trouxe uma das maiores reviravoltas da TV. A segunda abriu a porta para diversas possibilidades. Mas a terceira prova que nem todos esses caminhos podem ser tão bons. Em sua defesa, é preciso observar como a trama protagonizada por Kristen Bell segue um formato diferente das anteriormente citadas e almeja uma trama bem mais ousada.

    Novamente reiniciando tudo, a terceira temporada começa acompanhando as vidas de Eleanor (Bell), Chidi (William Jackson Harper), Tahani (Jameela Jamil) e Jason (Manny Jacinto) na Terra. O quarteto não lembra dos acontecimentos na vida pós-morte, mas ganham uma nova chance para ganhar sua vaga no Lugar Bom. Percebendo que eles podem ter problemas, Michael (Ted Danson) e Janet (D'Arcy Carden) decidem ajudá-los, indo contra as ordens da Juíza (Maya Rudolph) e despertando (mais) ódio dos demônios do Lugar Ruim.

    Mesmo com o charme dos protagonistas, é inegável que a nova fase não apresenta a mesma empolgação de antes. A narrativa investe em reviravoltas, mas tais surpresas parecem ser mais importantes que o aprofundamento de certos personagens. Principalmente diante dessa mania (já desnecessária) de reiniciar a história. Apesar de ainda construir um universo caprichado em detalhes, somente Tahani ganha arcos divertidos inicialmente — o irmão rejeitado dos Hemsworth (Ben Lawson) é algo maravilhoso, por exemplo.

    Se o retorno começa decepcionante, a metade final da temporada começa a recuperar um pouco daquilo que torna The Good Place tão especial. Basta ver a investigação de Michael, percebendo como o ser humano transformou a sociedade em algo complexo, tóxico, bagunçado e emocional. É um retrato interessante nos dias atuais, questionando a base da existência. Uma mensagem que pode ficar perdida quando jogam os protagonistas em situações bem simplórias.

    Por sua vez, o último episódio retoma o equilíbrio entre humor e o questionamento filosófico. Nele, a única reviravolta que surge até afeta a narrativa, mas se destaca mesmo pelo quesito emocional. Já uma conversa entre Eleanor e Janet em "Pandemônio" demonstra como é importante abraçar a imperfeição que cada dia nos proporciona. E é cativante a escolha de ambas as personagens para tal tarefa.

    A loira ainda carrega um pouco da superficialidade da primeira temporada, mas assumiu a liderança na luta pela sobrevivência do grupo e, consequentemente, do destino da humanidade. Ela é quem mais desenvolveu, se tornou o centro emocional da trama, oscilando entre qualidades e falhas do ser humano, e, paradoxalmente, combinando-as. Já Janet — que não é robô, nem garota, sempre bom ressaltar — deixa de ser um gigante banco de dados para encontrar alegria, ao se jogar no inesperado. Duas grandes personagens, caminhando em direções opostas, para se encontrarem no meio do caminho.

    Mesmo com irregularidades, seria injusto não ressaltar como a série apresentou grandes episódios. "Jeremy Bearimy" é criativo ao traduzir como cada um dos personagens se porta diante de tal mudança em suas perspectivas. Já "Janet(s)" discute identidade a partir de incríveis performances de D'arcy Carden — injustamente esnobada nas premiações, pois é responsável por criar a melhor personagem cômica da TV dos últimos anos. E isso ainda acontece uma semana após ela entregar uma sequência de ação hilária.

    Inclusive, tal quesito não tem defeitos. A química entre o elenco segue afiada, criando personagens amáveis, com os quais o público realmente se importa. Se Kristen Bell consegue oscilar entre os confusos sentimentos de Eleanor com carisma, Ted Danson continua construindo uma figura excêntrica em Michael. E é incrível ver o crescimento de Jameela Jamil diante das telinhas, sempre roubando mais cenas. Sem falar nas participações de Maya Rudolph e Maribeth Monroe (Mindy St. Claire), só acrescentando para a história.

    Goste das diversas reviravoltas ou não, The Good Place nunca se torna tediosa. E o elenco impecável consegue enfrentar cada novo desafio, por mais absurdo que seja. Os defeitos podem transparecer mais, porém a série brilha quando usar o humor para defender uma visão otimista sobre a humanidade. Como a Juíza diz, "o mundo é um saco", mas cada um de nós pode fazer a diferença. Basta acreditar. 

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