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    House of Cards: Crítica da sexta (e última) temporada
    Por Renato Furtado — 03/11/2018 às 09:29
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    Lady Macbeth de Dallas, Texas.

    Nota: 3,5/5

    Foi um dia longo e complexo. Mais um dia duro, como foram os outros 99 dias anteriores, marcado por uma escalada de ameaças de morte, compromissos tensos, interesses escusos, a recente morte do marido e aquela sensação, entranhada no fundo da mente, de que suas costas estão sendo esfaqueadas: Claire Underwood (Robin Wright) jamais esteve tão isolada, praticamente naufragando em meio às ondas das pressões internacionais, do lobby dos grandes empresários e da memória dos atos de Frank Underwood (Kevin Spacey). Mas a impiedosa presidente, como bem sabemos, jamais foi uma donzela em perigo.

    Se esta sexta e última temporada de House of Cards funciona, equilibrando tantas impossibilidades de uma só vez, grande parte da "culpa" pelo êxito da arriscada empreitada só pode mesmo recair sobre os ombros da produtora e nova estrela máxima da companhia: Wright. Meio reboot e meio sequência dos cinco anos anteriores do drama político da Netflix, esta derradeira leva de capítulos de House of Cards é — para o bem e para o mal — quase inteiramente assombrada pelo fantasma de Frank Underwood, morto entre-temporadas por causa do escândalo de abusos sexuais que culminou na demissão de Spacey da Netflix.

    Robin Wright é mais protagonista do que nunca.

    É impossível debater a conclusão da série criada por Beau Willimon em 2013 sem mencionar os aspectos exteriores à narrativa e, portanto, é melhor que estes sejam tratados antes de mais nada. Como Claire afirma continuamente, a História não pode ser modificada e é um alívio o fato de que os showrunners de House of CardsMelissa James Gibson e Frank Pugliese, também tenham plena consciência disso. Assim, sem poder nos fazer esquecer de Frank Underwood — um personagem habilmente construído por um ator que, apesar de seus perturbadores crimes, é inegavelmente talentoso —, os dois roteiristas transformam seu abrupto falecimento em um dos motores narrativos deste desfecho: "quem matou Frank?"

    Com o ex-presidente quase tão vivo quando ainda não estava morto, fazendo-se presente em todos os capítulos, frequentemente através de símbolos como pássaros e anéis, Claire atravessa porções significativas da temporada tentando desvencilhar-se da figura do marido para poder agir livremente. Extremamente presa à presença fantasmagórica do personagem de Spacey, os primeiros quatro episódios são, em grande parte do tempo, estáticos e confusos, como se tentassem estabelecer um novo seriado, mas precedido por 65 episódios. Falta à primeira metade desta temporada a elegância e a vivacidade características de House of Cards, herança da direção do produtor David Fincher (Garota Exemplar).

    Diane Lane e Greg Kinnear como os irmãos Shepherd.

    Prova desse emaranhado nem sempre eficiente de tramas é a introdução de dois inéditos e interessantes personagens: Annette (Diane Lane) e Bill Shepherd (Greg Kinnear), membros de uma tradicional oligarquia estadunidense, os líderes de um clã de empresários cujos tentáculos tocam todos os âmbitos da sociedade, da área química à comunicação. Ambos são apresentados como velhos conhecidos de Claire, Frank, do agora vice-presidente Mark Usher (Campbell Scott) e de toda a "realeza" política de Washington; no entanto, quando se trata de uma série que preza tanto o ritmo, afirmar não é tão eficiente quanto mostrar.

    A redução de cinco horas da duração tradicional das temporadas de House of Cards para esta última — apenas oito episódios versus os 13 dos anos anteriores — foi provavelmente necessária para conter o incêndio causado pela saída repentina de Spacey, mas esse tempo "descartado" poderia ter sido utilizado para realmente aprofundar os novos arcos do drama político. Vazamento em uma indústria química, um aplicativo de celular que rouba dados de seus usuários para grandes empresas, doenças terminais: todos estes pratos compõem o desconexo e frustrante cardápio de tramas da metade inicial desta temporada final.

    Campbell Scott é o vice-presidente Mark Usher.

    Contudo, quando todas as linhas narrativas se entrelaçam na inteligente arquitetura do quarto episódio, que confina todos os importantes jogadores do tabuleiro da série da Netflix em uma só casa por ocasião de um funeral (falso), o drama político retorna finalmente à sua zona de conforto: o de uma novela empolgante que tem, sim, um pé na realidade, mas que também mantém um outro pé extremamente fincado no entretenimento. E, como anteriormente neste seriado, as reviravoltas quase mirabolantes com mortos que não estão mortos — Frank não é um deles —, ilusionismos russos, filhos bastardos e as trapaças armadas por Claire são muito mais relevantes do que a credibilidade das conspirações políticas apresentadas aqui.

    Não é coincidência alguma que a sexta temporada entre nos trilhos no momento exato em que Claire toma as rédeas de sua vida e de sua presidência. Após viver cinco anos à sombra de Frank, a ex-primeira-dama encontra espaço para florescer mesmo quando os roteristas precisam se esforçar para atar as pontas soltas deixadas no passado. Tão impiedosa quanto seu papel, Wright assume o posto principal e entrega os clássicos monólogos de House of Cards tão bem quanto Spacey fazia. Ela é charmosa, violenta, sedutora, perigosa, aterrorizante e ameaçadora nas mais ínfimas nuances de sua performance, indo da viúva inconsolável à conquistadora implacável que é em questão de milissegundos.

    Não é mero acaso, igualmente, a constante alusão à mais misteriosa e fascinante das mulheres de William Shakespeare: Lady Macbeth. Entretanto, agora que tem o poder de quebrar a quarta parede e vasculhar as profundezas das almas dos espectadores, Claire não é a Lady Macbeth tradicional, aquela que incentiva seu marido a cometer os mais hediondos crimes pelo poder e que, posteriormente, perde a razão e se recrimina por não conseguir enxaguar o "sangue" que mancha suas mãos. Não. A Claire de Wright é a Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk — ou, melhor dizendo, é a Lady Macbeth de Dallas, Texas.

    Do mesmo modo como a criação do russo Nikolai Leskov, a protagonista desta série torna-se o símbolo do empoderamento feminino e das consequências sangrentas impostas pela milenar opressão masculina sobre as mulheres. O que Claire faz é deixar claro que seu destino não será mais controlado por homem algum, custe o que custar e doa a quem doer. É um conto de liberação narrado em um momento mais do que apropriado e significativo — após uma série de escândalos de abusos sexuais em Hollywood, para começo de conversa — e que entrega cenas tocantes e inspiradoras, tais como o gabinete presidencial inteiramente composto por mulheres e a resistência de Claire no Salão Oval.

    O "ladrão dos holofotes", Michael Kelly.

    Mas apesar disso, não podemos esquecer que Claire tampouco é uma heroína: os bons ou não fazem parte do universo de House of Cards ou são eliminados rapidamente. Por isso, no final da temporada, o fiel Doug Stamper (o sempre ótimo Michael Kelly, que quase ganhou seu próprio spin-off) ressurge das cinzas para se posicionar como o principal oponente da presidente. Se há alguém que conhece todos os segredos e podres da família Underwood, este alguém é o leal assessor de Frank, que irá até os mais profundos círculos do inferno para vingar a morte de seu patrão, chefe e "pai".

    Assistir ao embate entre os dois, uma guerra em que a Annette de Lane desempenha um papel fundamental, é testemunhar uma tensa briga pelo controle da narrativa, pela verdade e pela memória e legado de Frank Underwood. É um acerto de contas com o passado e com o futuro que coloca Claire e Doug em campos opostos: uma déspota esclarecida versus um lobo solitário. E no oitavo capítulo de House of Cards — brilhantemente dirigido pela própria Wright —, o 73º episódio, o castelo de cartas cuidadosamente montado há cinco anos vem abaixo com um só golpe, contundente e chocante.

    Assim, em meio a temáticas que são cruciais para compreender o atual contexto político-social do mundo ocidental como um todo — a descrença popular nas instituições democráticas, corrupção, movimentos por direitos sendo cooptados pela publicidade política, governos feitos por reféns pelos interesses de megaempresários, questões de gênero e de etnia, a problemática da Síria, o perigo do big data e das grandes corporações tecnológicas, etc. —, a última temporada de House of Cards tenta desvendar o íntimo de sua mais enigmática criação para encontrar um desfecho satisfatório.

    E após uma estrada tumultuada, algumas pontas soltas e de uma certa multiplicidade prejudicial de tramas, Wright e cia. conseguem concluir, com dignidade e eficiência, a série que ajudou a consolidar a Netflix como a gigante do streaming que hoje é.

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