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    Fora do Armário: "O preconceito passa pela falta de conhecimento", afirma os diretores e o produtor da série da HBO (Exclusivo)

    Histórias sobre gênero e sexualidade.

    Gustavo Nasr

    Estreou esta semana na HBO uma ousada série nacional: Fora do Armário, dirigida por Tatiana Issa e Guto Barra. O projeto retrata a vida de jovens LGBT em várias regiões do Brasil, aproveitando para conversar também com as famílias deles, para entender como ocorreu o processo de aceitação e transição.

    Depois de assistir ao primeiro episódio, focado na experiência de jovens transexuais, o AdoroCinema conversou com Issa, Barra e o produtor Roberto Rios:

    O termo "sair do armário" costuma se referir à sexualidade, mas vocês abordam principalmente a identidade de gênero, certo?

    Tatiana Issa: Na verdade, a série fala tanto de orientação sexual quanto de identidade de gênero. A ideia é que as pessoas sejam capazes de entender que são coisas diferentes. O termo é adequado para falar tanto de quem você é, ou seja, a sua aceitação, e depois quem você ama. Ele se adequa aos dois casos.

    Guto Barra: Também tem a questão da família. Não falamos apenas de jovens gays e trans, mas também da família deles. Quando os garotos e garotas passam pela transição, a família também vivencia isso de certa maneira. Fora do Armário mostra a família se posicionando, sendo colocada para fora do armário. É um processo, são fatos dolorosos para todos os envolvidos. Mas no final eles acabam entendendo que é necessário falar sobre isso.

    Como definiram os personagens? Todos aceitaram falar abertamente de suas experiências? 

    Tatiana Issa: A gente fez uma primeira triagem, com um número bem grande de famílias. Conversamos com eles num longo processo, por telefone e mensagens. Sentimos quem se sentia mais à vontade de falar a respeito, assumir publicamente. Selecionamos dessa maneira para não forçar ninguém a dizer nada que não quisesse. Às vezes os pais queriam falar, mas o irmão não queria, por exemplo, então este ficava de fora. Sempre respeitamos a vontade deles. Em alguns casos, vimos que a pessoa concordou, mas ficou um pouco apreensiva. Tivemos um caso em que a pessoa começou a gravar, mas se sentiu desconfortável e depois retiramos a história. Tomamos bastante cuidado.

    Guto Barra: Mas estes casos foram muito raros. A grande maioria aceitou fazer, eles queriam ser ouvidos. Tem a história linda da mãe de uma drag queen na Bahia. Elas queriam se comunicar outras mães, elas sabiam que essas histórias precisavam ser ouvidas. Os pais surpreenderam, falaram de modo sincero, sem vergonha, de coração mesmo. As pessoas têm vontade de falar sobre sexualidade e gênero mais do que imaginamos.

    A série divide a atenção entre os personagens trans e os pais deles. Acreditam que a experiência de ambos seja comparável?

    Tatiana Issa: É comparável porque tanto o fato de sair do armário quanto o fato de passar por isso é muito difícil para os pais. Então dá para comparar sim. Existe um processo interno de aceitar, entender, e estar disposto a falar a respeito. Os pais começam a pensar: "Como eu vou me portar? Como vou falar para a sociedade, para os outros? Como dizer que meu filho agora é uma filha?". Os laços se fortalecem quando tem amor e aceitação. Depois todos ficam mais fortes, incluindo avós, tios, irmãos...

    Roberto Rios: É muito importante a gente trazer estas questões e aprofundar o diálogo. O preconceito passa muito pela falta de conhecimento. Se você começa a expor estas questões, as pessoas vão poder identificar, se colocar no lugar do outro. Isso é capaz de gerar empatia: quando mostramos todo o amor que existe nestas relações, a noção de família é redefinida. O objetivo é trazer estes pensamentos.

    Guto Barra: Neste momento complexo em que vivemos agora, com as redes sociais tão violentas, com todo mundo se atacando, trazer uma série que debate estas questões de maneira delicada é muito importante. Quanto mais você assiste, mais você se emociona. Às vésperas de uma eleição complicada, espero que a série traga um pouco mais de tolerância em meio aos ataques.

    A questão de mostrar o "antes", com os corpos biológicos e nomes de batismo, sempre foi controversa no retrato de pessoas transexuais. Como lidaram com isso?

    Tatiana Issa: A questão principal foi respeitar as identidades trans deles hoje. Alguns deles não queriam mostrar fotos de antes, o que respeitamos. Mas a história passada serve de fio condutor para que quem está assistindo possa entender. Estamos tratando de recomeços, então faz sentido apenas mencionar o que a pessoa era para depois dar prioridade ao tempo de hoje. Não queremos reforçar o estereótipo de alguém que “virou mulher”, porque a pessoa sempre foi mulher. Às vezes, desde 4 anos de idade, já sentiam algo diferente, não adequado ao que a sociedade queria. Precisamos mostrar isso.

    No primeiro episódio, o principal conflito é a aceitação familiar, enquanto o preconceito social fica em segundo plano. A série vai continuar neste foco?

    Guto Barra: Nos próximos episódios, temos histórias muito fortes. Viajamos muito pelo Brasil, para sair do eixo Rio-São Paulo. Encontramos histórias na Bahia e em Pernambuco, o que trouxe questões de todos os tipos. Algumas histórias retratam muito o preconceito, e outras, menos. Gosto que a gente consiga fazer um apanhado de como essas questões são vistas em diferentes regiões do Brasil. Na Bahia, por exemplo, percebemos uma violência muito maior do que em outras partes do país. Então tentamos fazer um apanhado completo.

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