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    Cine Holliúdy: Adaptação pela Globo é um misto de O Auto da Compadecida com Os Trapalhões (Visita a set)
    Por Renato Hermsdorff — 27 de jan. de 2018 às 07:24
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    Quem garante é Matheus Nachtergaele, que entra para o ‘Universo Cinematográfico Halder Gomes de Fuleragem’ como uma espécie de novo Odorico Paraguaçu.

    TV Globo

    Depois que um extraterrestre desembarca numa cidadezinha nos rincões do Nordeste, um militar intervém e toma o comando local das mãos do prefeito. Inconformado, o político - de fala pomposa e errônea - sai aos berros pelas ruas da cidade, dedo em riste, bradando um sonoro grito de "não vai ter golpe!" (Odorico Paraguaçu, é você?)

    Parece um Guel Arraes: Uma versão 2018 do alcaide de Dias Gomes? Não deixa de ser. Mas trata-se de Cine Holliúdy, a série da TV Globo baseada na obra homônima de Halder Gomes, cujo set o AdoroCinema visitou no último dia 18, na pequena (pequena mesmo) cidade de Areias (menos de quatro mil habitantes), no interior de São Paulo.

    INSPIRAÇÃO 'HOMENAGEOSA'

    Numa madrugada de 2015, Cine Holliúdy (o filme de 2013) foi exibido na emissora com pico de audiência. Foi então que o diretor da Globo Filmes à época sondou Halder sobre uma possível adaptação para a TV. O projeto foi parar nas mãos do diretor de dramaturgia semanal do canal, Guel Arraes, que convocou o parceiro Claudio Paiva para supervisionar o roteiro, assinado por Marcio Wilson. O resto é história - que a gente conta aqui.

    TV Globo
    Matheus Nachtergaele é Olegário.

    O novo Odorico se chama Olegário e é interpretado por Matheus Nachtergaele. Além do vocábulo particular (e da letra inicial do nome), ele compartilha com o prefeito de Sucupira um atrapalhado assistente a tiracolo. Jujuba (Gustavo Falcão) é o equivalente de Dirceu Borboleta, que Matheus encarnou em O Bem Amado de Guel Arraes (está acompanhando o inception?)

    O ator não nega: "A inspiração me parece é evidentemente essa [O Bem Amado] e é homenageosa". Mas faz questão de acrescentar: "Nós procuramos traçar um caminho novo dentro do arquétipo conhecido do prefeito corrupto”. O resultado é um “playboy” disfarçado. “Ele quer estar perto do povo, como se ele fosse o povo, mas faz questão de deixar alguns sinais de que ele não é povo”, como o Rolex e as pratas ostentadas. E resume: Auto da Compadecida [olha o Guel aí de novo!] com Os Trapalhões. É farsesco".

    É COMO SE FOSSE O COMEÇO DE TUDO. MAS NÃO É.

    TV Globo/ Marcos Rosa
    Marylin (Letícia Colin) é o interesse amoroso de Francis (Edmilson Filho).

    A versão para a TV exigiu algumas mudanças no “Universo Cinematográfico Halder Gomes de Fuleragem" (UCHGF). Na tela menor, Francisgleydisson (Edmilson Filho) deixou de ter mulher (era Miriam Freeland) e filho. "Aqui, ele é um cara solteiro e, digamos assim, dentro do spin-off da história, é como se fosse o começo de tudo, mas também não quer dizer isso", explica (explica mesmo?) o sempre bem-humorado intérprete do protagonista. (O arco da série não vai bater com a narrativa dos filmes - vale lembrar que Cine Holliúdy 2: A Chibata Sideral está previsto para estrear em 18 de junho próximo).

    Junto com o prefeito “inimista” de “Francis” estreiam mais dois personagens centrais: Socorro (Heloísa Perissé), como a mulher de Olegário; e a filha dela, a “ispilicute” Marylin (Letícia Colin), novo interesse amoroso do rapaz - ambas “importadas de São Paulo”.

    A dondoca exige do marido uma TV em Pitombas (o fictício município do Ceará onde se passa a nova história) e, para justificar o investimento público com o aparelho, o político organiza sessões em praça aberta que, assim como no filme, diminuem a frequência na sala de cinema que dá nome a tudo.

    TV Globo
    Em cartaz no Cine Holliúdy...

    'O LABIRINTO DO FAUNO DO CEARÁ'.

    Cearense (mais do que brasileiro) que não desiste nunca, Francis passa a recriar os próprios filmes com a ajuda de Marylin (fala-se "Marilín"). A mocinha chega odiando aquele fim de mundo mas, à medida em que passa a ajudar Francis, vai descobrindo uma nova paixão (ou seriam duas?). “Ela é salva pelo cinema”, garante Colin, que considera os responsáveis pelo UCHGF (Universo Cinematográfico Halder…) verdadeiros “bandeirantes” das artes cearenses. Não à toa, a atriz atesta, metade dos números de sua agenda telefônica atualmente começam com o código 85 (do Ceará) - assim como 50% da equipe da série é de “imigrantes” do estado nordestino.

    O esforço criativo de Francisgleydisson será o mote para a série brincar com diversos gêneros do cinema (do horror ao western spaghetti, passando pela ação), com participações do casting da Globo, como Ingrid Guimarães, Miguel Falabella, Chico Diaz, Bruno GarciaNey Latorraca (que reencarna o saudoso Vlad da novela Vamp). A ficção científica, por exemplo, é o foco do episódio do E.T. descrito no início desse texto.

    “Ao mesmo tempo em que a gente fala de um lado lúdico, de uma cidade fictícia, é uma cidade com todas as questões da nossa cidade real”, conceitua Perissê. “Eu comparo com O Labirinto do Fauno: ao mesmo tempo em que se fala de um assunto pesado, que é a ditadura na Espanha, quando o Fauno entra, você entra naquele mundo com leveza”.

    PESSOAL MAIS 'BEM ACABADO'.

    TV Globo/ Marcos Rosa
    Heloísa Perissê é Socorro, esposa de Olegário, importada de São Paulo!

    Areias foi escolhida não só pelo clima senegalesco (ou cearense mesmo), mas também porque parece uma cidade cenográfica pronta, com uma série de prédios históricos bem preservados, a caminho da Serra da Bocaina. Lá, foram modificadas seis fachadas ao redor da praça principal, além de construída a entrada do cinema, erguida do zero, desde novembro, quando as gravações tiveram início.

    “É como se fosse uma cidade do Nordeste”, garante Edimilson. “A única diferença é que, como todo mundo aqui é paulista, o pessoal é mais ‘bem acabado’, se fosse no Ceará era diferente, o pessoal de lá não tem dente”, brinca. “Isso aqui não é uma afirmação, é uma piada!”, alerta!

    DOMA DA LINGUAGEM.

    Na transposição de tela, Cine Holliúdy perdeu uma de suas marcas registradas - e mais charmosas: o "cearensês raiz". “Na série a gente tem que ter mais cuidado para que tenha um entendimento no Brasil todo, é a questão da TV”, explica Edmilson, lembrando que o primeiro filme foi lançado com legenda. “Então, tem uma doma da linguagem sim”, admite Matheus Nachtergaele.

    TV Globo
    A cidade de Areias é Pitombas.

    Mesmo amanciado, o “cearencês”, com maior poder de alcance, pode se tornar a língua oficial do Brasil (ou quase), Edmilson acredita: “Nós temos uma influência muito grande principalmente do Rio, de palavras que são gírias cariocas e que viram gírias nacionais. Então estamos trazendo umas coisas nordestinas e, quem sabe, elas viram gírias nacionais, que existiram no Nordeste desde sempre?

    ZONA DE CONFORTO VS. ZONA DE DISPERSÃO.

    "Se, por um lado, você tem a dificuldade de tirar o cara da zona de conforto, para ele pagar um ingresso e ir ver um filme, por outro lado, você tem a dificuldade de tirar o cara da zona de dispersão que é casa, para ele focar na tela de TV", filosofa Halder. Pai do filho bem-sucedido, ele acompanha de perto o crescimento da cria, sempre ao lado da diretora-geral, Patricia Pedrosa (Mister Brau, Chapa Quente, A Grande Família).

    Ele divide com ela a direção dos episódios, assumindo, inclusive, nos momentos em que a parceira, grávida de oito meses, precisa se ausentar (o calor que faz em Areias deve aumentar em uns oito graus a temperatura ambiente para quem está prestes a dar a luz).

    TV Globo
    Um padre (Cacá Carvalho), o rei da fuleragem, a mocinha e Jujuba (Gustavo Falcão) entram numa sala...

    A chibata na dispersão, segundo Pedrosa, mora no ritmo: "No cinema você pode ter um tempo um pouco diferente, porque mal ou bem você pagou o ingresso, sentou e vai assistir aquela história. Então eu acho que você pode se dar ao luxo de ter um tempo a mais aqui e um tempo a mais ali. Claro que muito bem escolhido. Na televisão, a gente não pode deixar o cara mudar de canal".

    RAIO 'CEARENSIZADOR'.

    Halder não escreveu o roteiro da série. Ele sugeriu a brincadeira com os gêneros do cinema e passou uma espécie de “raio cearencizador” nos diálogos, uma vez o texto pronto. Mas profetiza: “Minha principal intuição de que vai ser um sucesso é que eu me pego rindo. Meu irmão, se o cabra me fizer rir, bote no ar que vai ser um sucesso. Pro cara me contar uma piada que eu não conheço, menino, tem que dar dez voltas no mundo e voltar”, aposta, indicando que o Universo Cinematográfico Halder Gomes de Fuleragem se rendeu ao Universo Estendido Guel Arraes.

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    Interior do Hotel Sant'Ana, transformado na casa do prefeito.

    Com dez episódios de meia hora de duração, cada, Cine Holliúdy, a série, ainda não tem previsão de estreia na grade da TV Globo.

    Contribuíram: Ana Beatriz Lavagnino, Manuella Xavier e Louise Franca.

    O AdoroCinema viajou a Pitombas, ou melhor, Areias, a convite da TV Globo.

     

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    Comentários
    • Jc V.
      Pelo visto pegaram um filme bom e transformaram em algo ruim. Parabéns rede globo
    • Vidamell Vida R.
      Nunca assistir!!
    • Wendeer M.
      Olá adoro cinema. Estou torcendo pra essa serie ser legal. E muito obrigado pela visita a minha cidade. Valeu até a estreia.
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