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    Grace and Frankie: Encontros e despedidas (Crítica da quarta temporada)

    O quarto ano da comédia da Netflix traz Lisa Kudrow e várias reflexões interessantes.

    Nota: 4,0 / 5,0

    Assistir a Grace and Frankie é como receber um abraço. É uma série confortável, com personagens congruentes e adoráveis mesmo quando são irritantes. Nesta nova onda de comédias autobiográficas que rompem barreiras e muitas vezes encontram assuntos muito mais sérios que os autodenominados dramas, a série criada por Marta KauffmanHoward J. Morris navega quase na contramão. Não que abandone os tais ‘assuntos sérios’ — muito pelo contrário, aliás. Mas ela rompe seus tabus com um texto tão divertido em sua simplicidade que nem parece ser tão bem trabalhada como é.

    No quarto ano, a série continua abordando a questão do envelhecimento através do olhar daquelas que o vivem, mas traz um elemento novo. A preocupação de Bud (Baron Vaughn), Coyote (Ethan Embry), Mallory (Brooklyn Decker) e Brianna (June Diane Raphael) com suas mães abre uma reflexão sobre condescendência que está nas entrelinhas ao longo dos episódios, uma velha questão sobre os filhos tornarem-se responsáveis pelos pais, invertendo os papéis tradicionais.

    A temporada acaba lembrando de um texto que escreveu a jornalista Eliane Brum em sua antiga coluna na revista Época, lá em 2012: “Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, mas uma vida inteira, temos convivido com essas tentativas de tungar a velhice também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se isso mudasse o significado do que é estar apartado do mundo. Velhice virou terceira idade e, a pior de todas, “melhor idade”. Tenho anunciado a amigos e familiares que, se alguém me disser, em um futuro não tão distante, que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal de não violência. O mesmo vale para o primeiro que ousar falar comigo no diminutivo, como se eu tivesse voltado a ser criança. Insuportável.”

    A discussão passa exatamente por isso quando os filhos tentam decidir sozinhos o que é melhor para suas mães, mas também envereda por outros subtemas. Quando o envelhecimento se torna uma questão para Grace (Jane Fonda) e Frankie (Lily Tomlin), mas não para Robert (Martin Sheen) e Sol (Sam Waterston), a série está fazendo uma constatação de que as mulheres são enxergadas como seres fragilizados. Ao seu próprio modo, sem ser óbvia ao ponto de fazer os personagens secundários darem voz às questões (o que muitas vezes soa artificial), Grace and Frankie exalta a fortaleza destas mulheres que encontraram o próprio conforto através da adversidade. O que de fora soa como teimosia para elas é na verdade um ato de resistência, no melhor sentido da palavra.

    Enquanto seres sociais, nós somos ensinados a temer a velhice quase como se fosse uma moléstia. Daí os eufemismos, que tentam enganar a mente e passar uma ideia confortável, ou até ilusória. Ao trazer para o centro da trama duas senhoras independentes, as temporadas anteriores de Grace and Frankie mostraram que a idade não precisa parar ninguém. Elas construíram um novo negócio justamente por admitirem e enxergarem que as mulheres mais velhas também têm seus desejos sexuais (e por que não teriam?). Agora, o que ela faz é dar um passo além. Talvez (só talvez) elas realmente precisem de ajuda física uma vez ou outra. E que mal há nisso? Isso faz com que sejam menos capazes de tomar suas decisões?

    É quase sombrio, por exemplo, o episódio em que Grace e Robert vão a um velório, e Grace admite no carro que havia ficado mais emotiva quando o Hamster de Brianna morreu durante a infância da filha do que ali, presenciando a morte de uma de suas grandes amigas. É uma confissão que ela faz quase silenciosa, numa tentativa de se redimir da possível falta de afeto antes mesmo de a explanar. Mas talvez a chegada da idade transforme a morte em um assunto banal de um almoço de segunda-feira. Uma hora ou outra precisaremos lidar com a morte como algo natural. Portanto, não deveria ser esperado que em algum momento isso acontecesse? Deveríamos ter medo de algo que inevitavelmente vai acontecer a nós mesmos e a todos ao nosso redor?

    Por mais obscuro que este texto esteja ficando, Grace and Frankie não está tentando fazer com que a sociedade repense a percepção da morte, mas sim mostrar que pessoas continuam sendo quem sempre foram, mesmo com as rugas e os joelhos doloridos. Pode soar bobo, mas é algo incrivelmente revigorante. A própria participação de Lisa Kudrow, atualmente em seus 54 anos, acaba trazendo uma comparação imediata à sua figura mais jovem, eternizada nas cabeças dos fãs de Friends. E pode ser ligeiramente assustador no início, mas é uma provocação pensada. O tempo passa, viu? Para todo mundo.

    Talvez este medo da idade não seja necessariamente um medo de envelhecer, mas de não alcançar os planos que desejava ter cumprido. Mas os planos estão mesmo em constante mudança, e a forma mais singela que a temporada usa para abordar isso é justamente a contraposição entre vida e morte. Se de um lado temos Grace apática após tantos velórios, de outro temos Frankie extasiada com a perspectiva de viver algo inteiramente novo: a experiência de ser avó. E se estas duas personagens estão encontrando motivos para sorrir e fortaleza para seguirem em frente mesmo sem casa e sem a confiança dos filhos… o que poderia dar errado? Elas têm tudo o que precisam.

     

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