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    Grace and Frankie: Encontros e despedidas (Crítica da quarta temporada)
    Por Laysa Zanetti — 22/01/2018 às 21:05
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    O quarto ano da comédia da Netflix traz Lisa Kudrow e várias reflexões interessantes.

    Nota: 4,0 / 5,0

    Assistir a Grace and Frankie é como receber um abraço. É uma série confortável, com personagens congruentes e adoráveis mesmo quando são irritantes. Nesta nova onda de comédias autobiográficas que rompem barreiras e muitas vezes encontram assuntos muito mais sérios que os autodenominados dramas, a série criada por Marta KauffmanHoward J. Morris navega quase na contramão. Não que abandone os tais ‘assuntos sérios’ — muito pelo contrário, aliás. Mas ela rompe seus tabus com um texto tão divertido em sua simplicidade que nem parece ser tão bem trabalhada como é.

    No quarto ano, a série continua abordando a questão do envelhecimento através do olhar daquelas que o vivem, mas traz um elemento novo. A preocupação de Bud (Baron Vaughn), Coyote (Ethan Embry), Mallory (Brooklyn Decker) e Brianna (June Diane Raphael) com suas mães abre uma reflexão sobre condescendência que está nas entrelinhas ao longo dos episódios, uma velha questão sobre os filhos tornarem-se responsáveis pelos pais, invertendo os papéis tradicionais.

    A temporada acaba lembrando de um texto que escreveu a jornalista Eliane Brum em sua antiga coluna na revista Época, lá em 2012:Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, mas uma vida inteira, temos convivido com essas tentativas de tungar a velhice também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se isso mudasse o significado do que é estar apartado do mundo. Velhice virou terceira idade e, a pior de todas, “melhor idade”. Tenho anunciado a amigos e familiares que, se alguém me disser, em um futuro não tão distante, que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal de não violência. O mesmo vale para o primeiro que ousar falar comigo no diminutivo, como se eu tivesse voltado a ser criança. Insuportável.”

    A discussão passa exatamente por isso quando os filhos tentam decidir sozinhos o que é melhor para suas mães, mas também envereda por outros subtemas. Quando o envelhecimento se torna uma questão para Grace (Jane Fonda) e Frankie (Lily Tomlin), mas não para Robert (Martin Sheen) e Sol (Sam Waterston), a série está fazendo uma constatação de que as mulheres são enxergadas como seres fragilizados. Ao seu próprio modo, sem ser óbvia ao ponto de fazer os personagens secundários darem voz às questões (o que muitas vezes soa artificial), Grace and Frankie exalta a fortaleza destas mulheres que encontraram o próprio conforto através da adversidade. O que de fora soa como teimosia para elas é na verdade um ato de resistência, no melhor sentido da palavra.

    Enquanto seres sociais, nós somos ensinados a temer a velhice quase como se fosse uma moléstia. Daí os eufemismos, que tentam enganar a mente e passar uma ideia confortável, ou até ilusória. Ao trazer para o centro da trama duas senhoras independentes, as temporadas anteriores de Grace and Frankie mostraram que a idade não precisa parar ninguém. Elas construíram um novo negócio justamente por admitirem e enxergarem que as mulheres mais velhas também têm seus desejos sexuais (e por que não teriam?). Agora, o que ela faz é dar um passo além. Talvez (só talvez) elas realmente precisem de ajuda física uma vez ou outra. E que mal há nisso? Isso faz com que sejam menos capazes de tomar suas decisões?

    É quase sombrio, por exemplo, o episódio em que Grace e Robert vão a um velório, e Grace admite no carro que havia ficado mais emotiva quando o Hamster de Brianna morreu durante a infância da filha do que ali, presenciando a morte de uma de suas grandes amigas. É uma confissão que ela faz quase silenciosa, numa tentativa de se redimir da possível falta de afeto antes mesmo de a explanar. Mas talvez a chegada da idade transforme a morte em um assunto banal de um almoço de segunda-feira. Uma hora ou outra precisaremos lidar com a morte como algo natural. Portanto, não deveria ser esperado que em algum momento isso acontecesse? Deveríamos ter medo de algo que inevitavelmente vai acontecer a nós mesmos e a todos ao nosso redor?

    Por mais obscuro que este texto esteja ficando, Grace and Frankie não está tentando fazer com que a sociedade repense a percepção da morte, mas sim mostrar que pessoas continuam sendo quem sempre foram, mesmo com as rugas e os joelhos doloridos. Pode soar bobo, mas é algo incrivelmente revigorante. A própria participação de Lisa Kudrow, atualmente em seus 54 anos, acaba trazendo uma comparação imediata à sua figura mais jovem, eternizada nas cabeças dos fãs de Friends. E pode ser ligeiramente assustador no início, mas é uma provocação pensada. O tempo passa, viu? Para todo mundo.

    Talvez este medo da idade não seja necessariamente um medo de envelhecer, mas de não alcançar os planos que desejava ter cumprido. Mas os planos estão mesmo em constante mudança, e a forma mais singela que a temporada usa para abordar isso é justamente a contraposição entre vida e morte. Se de um lado temos Grace apática após tantos velórios, de outro temos Frankie extasiada com a perspectiva de viver algo inteiramente novo: a experiência de ser avó. E se estas duas personagens estão encontrando motivos para sorrir e fortaleza para seguirem em frente mesmo sem casa e sem a confiança dos filhos… o que poderia dar errado? Elas têm tudo o que precisam.

     
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    Comentários
    • Jéssica Nascimento
      Série maravilhosa demais, com todas as sutilezas ao tratar assuntos pesados sem por isso deixar de dar a eles a devida importância. Nesse dia dos velórios, uma coisa que achei super bonita e a cara das lições que a série nos ensina é que em determinado momento, a Grace diz que elas mantém o telefone fixo apenas para receber as informações de quem morreu dessa vez e o episódio termina com a notícia do neto da Frankie chegando ao mundo, notícia recebida através desse mesmo telefone <3
    • Lucy Mara
      Exatamente!!!!
    • Lucy Mara
      Adorei essa série! Muito bacana como as coisas vão acontecendo e como as pessoas vão reagindo de diferentes formas a cada situação, e principalmente o fato de não ser uma série de jovens com lindos corpos e histórias de amor perfeitas... a abordagem da vida de pessoas mais velhas, com suas alegrias e frustrações foi uma excelente sacada! Só no final da quarta temporada fiquei decepcionada que elas se deram mal, tiveram suas vidas direcionadas pelos filhos e ainda perderam seus amores e sua casa! E os homens, que foram os sacanas da história, que traíram e mentiram por 20 anos, permaneceram em sua casa e ainda arrumaram um plus para seu relacionamento! Sacanagem isso!
    • Carla
      Que texto bom! Amei a abordagem e a compreensão mais profunda do que a temporada mostrou e, principalmente, do que deixou nas entrelinhas. Parabéns pela sensibilidade e clareza.
    • DEISE CALIXTO
      Adorei essa temporada!! deveria ter mais séries voltadas para o povo velho, aos que eu me incluo. Vê-las namorando, construindo um negócio, sendo independentes, sempre foi um incentivo pra mim. Mas ver Grace com os joelhos doloridos e ficando limitada a uma bengala e Frankie cada vez mais esquecida, foi fantástico, pq nos mostrou que sim, elas estão velhas, estão se limitando, mas não entregaram os pontos, Sal e Robert realmente estão muito chatos. Sal cada vez mais infantil e cheios de trejeitos, voltou a infância e ninguém está percebendo que o velho gagá é ele. Nenhum advogado de sucesso, por mais hippie que tenha sido na juventude se transforma nessa criatura tão caricata, sem estar com seu miolos comprometidos. Amei!!! ...
    • Dheo C.
      Esperava mais da participação da Lisa Kudrow. Pensei q viria com uma personagem nova, mas entregou uma Phebee velha e irritante. Poderiam descarta-la, pq nd acrescentou à trama desta quarta temporada.
    • Slavesofpop
      ótima síntese dessa temporada, realmente de um jeito leve a série fala de assuntos relevantes que os idosos passam, o final da temporada me deixou enfurecido da diferença de posicionamento dos filhos entre as mães e os país e como nós como telespectadores vendo a evolução dos personagens vemos o qto foi machista e sexista.
    • Shaniqua
      Fiquei com muita raiva pelos problemas que apenas a Grace e Frankie passaram nessa temporada. Enquanto isso, os insuportáveies do Sal e Robert apenas discutiam sobre musicais e cruzeiros, parecia que eles tinham apenas 30 anos cada. Preciso da próxima temporada para tirar o gosto amargo que essa season finale me deixou.
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