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    Alias Grace utiliza o passado para compreender o presente (Crítica)
    Por Laysa Zanetti — 8 de nov. de 2017 às 16:30
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    A nova minissérie da Netflix bate o martelo e consagra 2017 como o Ano de Atwood.

    Nota: 4,5 / 5,0

    É quase impossível olhar para Alias Grace e não pensar imediatamente em The Handmaid’s Tale, a outra série produzida por um canal de streaming que adapta uma obra de Margaret Atwood. Apesar da associação imediata, as duas tramas são bastante distintas. Uma é uma ficção distópica situada no futuro, a outra, uma história de época que se baseia em fatos reais para imaginar outros fictícios. Mesmo assim, elas encontram território em comum quando discutem o lugar e o papel da mulher na sociedade, evidenciando como os padrões naturalizados podem facilmente passar despercebidos.

    Alias Grace revela toda a sua fortaleza em um roteiro extremamente elaborado. O texto é montado quase como uma colcha de retalhos, e a referência dentro da própria série não está perdida — é uma analogia proposital. Enquanto vai e volta no tempo, a temporada compara de forma indireta a Grace Marks (Sarah Gadon) que vive a história com a que a conta; duas versões da mesma pessoa, numa contraposição entre o que é mostrado e o que fica transparente em suas palavras. A visão da jovem garota recém-chegada ao Canadá é uma de crença e gentileza; a da mulher condenada, oprimida e vista como celebridade, é de uma pessoa endurecida que aprendeu a observar de longe e usa esta tática como a sua melhor arma.

    O formato epistolar, por vezes utilizado como uma muleta, aqui faz justamente o oposto. Os deslocamentos temporais não se tratam exatamente de condutores da história, mas de auxílios à voz principal, utilizados juntos à narrativa em primeira pessoa para mostrar os diferentes estados de compreensão de Grace. A composição é entregue de forma inteligente e visceral, prendendo o espectador do início ao fim como se seis episódios fossem apenas dois ou três. A história é hipnotizante; os personagens são ao mesmo tempo misteriosos e atraentes, seja pela gama de bons atores reunidos ou pela própria condução dos episódios — que pede sempre mais, independente do que aconteça.

    Sabrina Lantos/Netflix

    Pode-se dizer que Alias Grace seja uma ficção pós-moderna. A história se baseia em acontecimentos e personagens reais — Grace Marks e a acusação de assassinato são eventos verdadeiros, por exemplo — para criar uma segunda parte composta por personagens puramente fictícios. Ao misturar os conceitos de ficção e realidade, Alias Grace acaba não sendo especificamente uma ou outra. Seu grande objetivo, no entanto, não é se dedicar ao que é ou não factual a respeito de Grace Marks, tampouco responder se ela foi ou não responsável pelos crimes de que foi acusada, mas mostrar tudo o que existia ao seu redor e as influências diretas ou indiretas que sua criação, sua família e conhecidos imprimiram nela.

    No fim das contas, justamente porque os fatos completos sobre os assassinatos de Thomas Kinnear (Paul Gross) e Nancy Montgomery (Anna Paquin), bem como a vida de Marks, são desconhecidos até hoje, a série mais levanta perguntas do que fornece respostas.  Há algo ao mesmo tempo corajoso e provocante em histórias que se dispõem a incomodar o público sem entregar a chave do mistério, a não solucionar tudo o que propõem e fazê-lo de maneira convincente. É o mais próximo da vida real que qualquer narrativa será capaz de chegar.

    Navegando por essas águas, Alias Grace é um olhar para dentro da psique humana, e sendo a narradora uma personagem não inteiramente confiável, tudo acaba sendo um jogo em que cada espectador é capaz de escolher a ótica por que deseja enxergar. O ceticismo e a crença estão igualmente expostos. Basta escolher.

    Sabrina Lantos/Netflix

    Alias Grace não incorpora nem de longe a mesma ousadia cinematográfica de The Handmaid’s Tale — a câmera de Mary Harron (Psicopata Americano, Um Tiro Para Andy Warhol) é simplista, mas dinâmica e competente. Apesar disso, a série acaba se destacando em outros campos; vai longe com a interpretação excepcional de Sarah Gadon, completamente à vontade na personagem em todas as suas nuances, e com o roteiro adaptado por Sarah Polley que captura o ar bucólico do Canadá na Era Vitoriana com uma sutileza quase violenta.

    O que o livro de Atwood estende longamente em sequências introspectivas, Polley transforma em uma contraposição que depende muito do talento de Gadon e daqueles em seu entorno. Cada gesto, cada olhar, cada pausa para respiração conta. Ao mesmo tempo que retrata uma simplicidade encantadora na convivência e na rotina dos personagens, impõe um contraste perturbador através dos costumes e da dominação masculina, da política conservadora e do ambiente de opressão a ideias libertárias, ao corpo feminino e à sexualidade.

    Por isso, olhar para Alias Grace não é especificamente olhar para o passado, mas utilizá-lo para compreender o presente, sobretudo um presente em que o uso do poder para abafar casos de assédio e violência sexual é pauta diária. Duas décadas se passaram da publicação do livro, e desde então Sarah Polley veio tentando fazer uma adaptação audiovisual. A série chega às telinhas mais atual do que jamais esteve, para consagrar 2017 como o ‘Ano de Atwood’. Parece que aquele seu professor de História do colégio estava certo. A evolução humana anda em círculos.

     

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