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    The Girlfriend Experience: Criadores falam do formato da segunda temporada, política e tabus do sexo (Entrevista)

    Conversamos com Amy Seimetz e Lodge Kerrigan sobre a nova temporada da ousada série.

    Não é uma tarefa fácil tratar de sexo despido de tabus na televisão — ou em qualquer meio artístico, na verdade. Em tempo de reprimendas, então, nem se fala. Uma vírgula fora de lugar, uma frase mal interpretada e tudo vai pelos ares. O quadro se complica ainda mais quando trata-se de Hollywood, e se os recentes casos de assédio vindo à tona após o escândalo Harvey Weinstein provam uma coisa, é que há uma dificuldade enorme na classe em separar o artista de sua própria arte.

    A grande questão, então, é uma só: como tratar o sexo de forma real sem que transpareça de forma apelativa? Este é o desafio que Lodge KerriganAmy Seimetz tomaram para si com a série The Girlfriend Experience. Em sua segunda temporada, que estreia nesta segunda-feira no FOX Premium, o duo traz não uma, mas duas novas histórias.

    Getty Images

    A série trata-se de uma adaptação para a TV do filme homônimo de Steven Soderbergh de 2009, e enquanto a primeira temporada trouxe a história de Christine (novamente, mas de forma distinta e inserida no próprio tempo), a segunda mergulha no formato antológico, mas com uma novidade: as duas histórias que aborda são completamente paralelas, e a única ligação que têm é o próprio tema que compartilham. A relação entre sexo e manutenção de poder.

    “Lodge e eu queríamos fazer algo diferente do que havíamos visto na televisão até então. Sendo esta uma série limitada, e com a liberdade criativa que [Steven Soderbergh] nos deu, sentimos que era o nosso dever movimentar as coisas e a visão que temos de uma série limitada na TV”, comenta Amy Seimetz em entrevista concedida ao AdoroCinema.

    E se movimentar o formato é o objetivo, o potencial é enorme. Uma das histórias, comandada por Kerrigan, é ambientada em Washington DC, durante as eleições de 2018, e acompanha a diretora financeira Erica Myles (Anna Friel), e a garota de programa Anna Garner (Louisa Krause). Sob muita pressão, Erica contrata Anna para chantagear um financiador.

    A outra história, sob a direção de Seimetz, é ambientada no Novo México e acompanha Bria Jones (Carmen Ejogo), ex garota de programa que está sob o Programa de Proteção a Testemunhas na fuga de um relacionamento abusivo. Ela acaba revivendo a carreira, o que põe em risco sua nova identidade e a segurança da enteada.

    “Na primeira temporada, nós coescrevemos todos os 13 episódios e então nos alternamos [na direção]”, revela Lodge. “Na segunda, cada um de nós escreveu e dirigiu os próprios sete episódios separados. As duas histórias nunca se cruzam em nenhum ponto, mas há muita semântica que espelha o que está acontecendo [em uma história na outra].

    Achamos interessante construí-la dessa forma porque isso permite ao público que também participe e faça as próprias conexões entre as duas narrativas. Acho que é da natureza humana tentar fazer essas conexões narrativas. É de verdade apenas uma continuação de uma conversa entre Amy e eu sobre todas as temáticas de The Girlfriend Experience.”

    Tão universal quanto fascinante e temida, a temática em torno do sexo e da prostituição pode — e é — vista de várias formas diferentes. É claro, um ponto de vista sempre depende da ambientação, pois trata-se de um tema delicado que envolve dezenas de nuances. Mas aqui, os showrunners estabelecem que tentam ver o assunto da forma mais objetiva possível e tratam de um ângulo específico.

    “Na primeira temporada nós conhecemos várias acompanhantes, e todas eram mulheres que estavam completamente confortáveis em suas decisões de entrar para este mundo”, explica Amy. “O que eu descobri foi que as mulheres que decidiram fazer isso estavam completamente confortáveis com suas sexualidades. Com base nas entrevistas, não é algo que qualquer mulher — ou homem, aliás —  poderia fazer. Não é um trabalho para qualquer um. Você precisa ter muita autoconfiança e limites para entender como manter a própria segurança em certas situações.

    “Lodge e eu abordamos o tópico de forma extremamente objetiva, lidando com mulheres que escolheram essa profissão e não foram forçadas”, continua. “Obviamente, há áreas cinzas no negócio do sexo, mas essa calhou de ser a nossa abordagem. É complicado, acho que é por isso que há tanto a debater aqui. Até mesmo comigo, às vezes tenho umas respostas pessoais sobre o que é certo ou não, e o que diz da sociedade o fato de continuarmos desejando esse tipo de relação transacional.”

    “Apesar de Amy e eu não tecermos julgamentos sobre o mundo da prostituição, e tentarmos representá-lo de maneira interessante, não é um documentário”, completa Lodge. “Mesmo se fosse um documentário, acho que como filmes e televisão representam algo é um debate complicado. Todo mundo sabe que não é real. É a representação, é a tentativa de representar certos personagens no mundo ao invés de ser um comentário sobre prostituição como um negócio na sociedade.”

    Essa mesma representação talvez fique bastante clara no arco narrativo comandado por Kerrigan na segunda temporada. A utilização das eleições para o Congresso e o Senado de 2018 como plano de fundo é construída com base na realidade, e não só integra uma parte essencial da história como chegou até a ser repensada durante o processo de composição:

    “Quando o Trump ganhou em 2016 eu reescrevi algumas partes do roteiro”, admite o showrunner. “Acho que em alguns estados nós sempre tivemos uma camada muito superficial de democracia, e desde a vitória de Trump essa camada foi destruída e ficou claro que não há democracia de verdade.

    Tudo está corrompido pela quantidade arrebatadora de dinheiro no sistema político. Então eu tentei incorporar ou enfatizar esses lados um pouco mais após a vitória de Trump. Não foram mudanças ou ajustes grandes. Foram só para mostrar a real natureza auto-sustentável e a corrupção que prevalecem na nossa sociedade atualmente.”

    A segunda temporada será a última para Amy Seimetz e Lodge Kerrigan. Desde o início, havia ficado acertado que a cada duas temporadas entrariam novos showrunners. Confiantes no próprio trabalho, os dois explicam o motivo de terem sido escolhidos por Soderbergh. Para a dupla, o conhecimento que trouxeram de suas carreiras como diretores de filmes independentes é um grande diferencial para entender a TV e operar a mágica: fazer muito com orçamento limitado.

    “Acho que a única diferença para mim é estrutural”, afirma Lodge sobre o impacto da mudança do cinema para a televisão. “Precisamos ter certeza de que a história funciona para cada episódio, mas também que o arco funciona para a temporada toda. Então você está lidando com uma temporalidade complicada em termos de roteiro e estrutura, mas acho que há pouquíssimas diferenças na nossa abordagem.

    Sei que no passado fui contratado para dirigir episódios singulares em outras séries. Lá, os roteiristas são os showrunners [...] e o diretor é convidado para cada episódio. Eles não têm nem de longe tanto controle criativo no processo. Nesses casos, as pessoas que vêm de filmes independentes tipicamente trabalham com orçamentos menores, e acabam se encaixando muito bem na televisão porque estão acostumadas a lidar com recursos limitados e a trabalhar rápido. No fim do dia, tempo é dinheiro e dinheiro no set é caro. Conseguir resolver os problemas e pensar fora da caixinha sem depender de dinheiro para isso faz de cineastas independentes muito bem preparados para a televisão.”

    A segunda temporada de The Girlfriend Experience terá 14 episódios e estreia nesta segunda-feira, dia 5 de novembro, na FOX Premium.

     

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