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    Como The Good Place desafia o maniqueísmo mantendo o bom humor
    Por Laysa Zanetti — 29 de out. de 2017 às 07:54
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    Um olhar para a nova comédia de Mike Schur, que estreou no Brasil pela Netflix.

    Fato número 1: há mais séries no ar atualmente do que as pessoas são capazes de assistir.

    Fato número 2: comédias estão superando muitos dramas em qualidade e complexidade do roteiro.

    Fato número 3: de verdade, tem tanta série que qualquer um se perde. Qualquer um, mesmo.

    Mas isso não é algo necessariamente ruim. Muito pelo contrário, aliás, já que o solo fértil da televisão tem fornecido espaço para ideias mirabolantes e projetos ambiciosos que em outros contextos jamais sairiam do papel. E na onda de ‘séries despretensiosas que revelam ser mais do que qualquer um poderia ter imaginado’, The Good Place é medalha de ouro.

    A premissa é extremamente simples: Eleanor Shellstrop (Kristen Bell) está morta, e ela vai parar no Lugar Bom. A versão de paraíso que lhe é apresentada teria em tese todas as coisas das quais ela mais gostava em vida, em uma vizinhança calma e amigável, e até mesmo sua alma gêmea ela encontrará. Tudo perfeito, exceto por um pequeno detalhe: Eleanor foi mandada ao ‘Good Place’ por engano, e terá que descobrir como ficar por lá sem que Michael (Ted Danson), o ‘gerente’ do local, descubra o erro e a envie para o Lugar Ruim.

    Existe uma linha tênue entre jogar com o acaso e apostar na manipulação cósmica; a mesma linha que separa o maniqueísmo sociopolítico da sofisticação pelo reconhecimento das nuances. É surpreendentemente divertido descobrir que The Good Place brinca exatamente com estes conceitos e atua na divisão quase imperceptível entre estas ideias diametralmente opostas. A pergunta que ela faz é simples: na prática, é realmente possível diferenciar uma coisa da outra?

    Para expor tudo isso isso, a primeira temporada exagera propositalmente na exposição dos clichês através dos protagonistas. Michael é quase como se fosse o próprio roteirista da série, dentro da própria série — um elemento que, inclusive, permite à trama que se reinvente de maneira sagaz ao longo dos episódios. Talvez não seja por acaso que o nome do personagem é Michael, o mesmo nome do criador da série, Michael Schur. Tahani (Jameela Jamil) é a culminância de tudo que há de absolutamente, irritantemente perfeito: bonita, elegante, bem de vida, devotada a causas sociais. Dá para culpar Eleanor por ficar com raiva?

    Janet (D’Arcy Carden) é o artifício de roteiro que faz com que tudo aconteça na hora necessária — o infame deus ex machina. É quase aquele seu amigo (ou aquele coadjuvante) de quem você (ou a história) só se lembra na hora de pedir ajuda. Jianyu (Manny Jacinto) é o estranho, por vezes deslocado, alívio cômico. E Chidi (William Jackson Harper) é literalmente o cara que sabe de tudo sobre filosofia e sociologia, conhecendo as vontades e os impulsos humanos — e as razões por que eles acontecem.

    Estes extremismos geram a princípio uma reação: “bom, eu jamais serei uma dessas pessoas perfeitas e nunca terminaria no Lugar Bom.”

    E, de verdade, cá para nós… Como ser?!

    Tudo na série presta a brincar com este exagero: a artificialidade dos cenários e o humor explanado, baseado na repetitividade e em tentativas frustradas de se consertar um erro; os imprevistos em cada plano e as ameaças sobre Eleanor; a própria simplicidade da história, que por si só levanta um questionamento: “mas será que é isso? Como essa história vai evoluir?”

    O que difere The Good Place de qualquer outra série de comédia ‘simplista’ é sempre haver, de fato, algo a mais. Uma nuance, uma frase no final do episódio ou uma pequena reviravolta que esconde em si toda a piada. Um detalhe que pode ser ignorado, mas que no fim é essencial. É impossível destrinchar a história de The Good Place sem entrar em detalhes e revelar spoilers — e eles vão afetar e muito a perspectiva do espectador. Portanto, atenção:

    CONTÉM SPOILERS A PARTIR DAQUI


    O aviso foi dado. Se você chegou até aqui, já terminou a primeira temporada, certo?

    Ok!

    O final da primeira temporada de The Good Place revela possivelmente uma das reviravoltas (ou como a internet gosta de chamar, ‘plot twist’) mais sagazes da televisão em anos. ANOS.

    Desculpa, Westworld, mas você perdeu essa disputa.

    O lugar perfeito onde tudo estava aparentemente bem revela não ser nada disso. À medida que as falhas (pessoais ou ‘gerais’) iam aos poucos sendo reveladas, a ideia de uma vizinhança perfeita de um subúrbio parecia mais e mais surreal. Com a descoberta de que Jason também estava no lugar errado e havia sido confundido com o ‘verdadeiro’ Jianuy, fica a suspeita de que talvez esta vizinhança não seja tão ideal assim.

    A série dá pequenas dicas ao longo dos episódios que deixam levemente implícito que Chidi e Tahani não são exatamente perfeitos como sugeria a impressão inicial, mas dificilmente são insinuações que levariam o público a concluir que aquele trata-se do Lugar Ruim e de um elaborado plano de tortura de Michael. Isto é: se você não sabe que existe uma reviravolta no fim da temporada, é algo que jamais se imagina ou espera, até mesmo porque The Good Place não dá a sugestão de ser realmente tão profunda assim.

    A pergunta, então, muda: vale o esforço tentar ser uma pessoa boa e ética se todas as forças do universo estiverem unidas contra você?

    Há toda uma nova perspectiva sobre os conceitos de ‘bom’ e ‘ruim’ que se desenrola a partir dessa gigante e bem elaborada reviravolta. Na verdade, os quatro estavam destinados ao Lugar Ruim, e foram realmente mandados ao Lugar Ruim. A diferença é que o ‘Engenheiro’ (ou, na verdade, um diabo) preferiu fazer a sua tortura de um jeito diferente: preferiu enganar estas pessoas que não têm absolutamente nada em comum para que pudessem se torturar mutuamente pelo resto da eternidade.

    Moleza, hein?

    As melhores reviravoltas não são exatamente aquelas que você não espera, mas aquelas que conferem sentido à trama quando são reveladas. The Good Place reúne o melhor dos dois mundos, e entrega uma reviravolta bem construída, e muito bem guardada, que transforma a série de “uma comédia bobinha para passar o tempo” em “uma reflexão sobre os padrões sócio-culturais”. Ela não questiona somente o que enxergamos como bom ou ruim na sociedade, mas como enxergamos a nós mesmos e no que realmente estamos prestando atenção, enquanto público e enquanto pessoas.

    Mais do que isso, The Good Place mostra que dá para fazer muito tendo pouco: trata-se de uma série produzida por uma emissora de canal aberto, a NBC, com baixo orçamento e cenário extremamente simples. Talvez seja justamente este o motivo por que não se espera algo elaborado dali. Mas quem conhece Mike Schur, criador também de Parks and Recreation, sabe que em algum momento o jogo vai virar.

    Ao contrário do que diz a regra, The Good Place prova que o inferno não são os outros. O inferno são as expectativas. O inferno é você.

    Todos os episódios da primeira temporada — e os da segunda, semanalmente — estão na Netflix. 

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