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Twin Peaks: O mundo maravilhoso de David Lynch (Crítica da terceira temporada)
Por Francisco Russo — 04/09/2017 às 17:59
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25 anos depois, o diretor retorna à série que o consagrou subvertendo o que havia feito até então.

NOTA: 5,0/5,0

"Te vejo em 25 anos", diz Laura Palmer ao agente Dale Cooper, no último episódio da segunda temporada de Twin Peaks, exibido em 10 de junho de 1991.

Na época, tal frase soou como provocação. Ninguém poderia imaginar que uma série retornaria para uma nova temporada, com os mesmos personagens, 25 anos após seu cancelamento - ainda mais envolta em inúmeras críticas referentes à queda de qualidade e também de audiência. Pois, contra todos os prognósticos, Twin Peaks voltou. Agora com a Showtime como exibidora e a Netflix retransmitindo mundo afora, David Lynch assumiu a direção dos 18 novos episódios disposto não só a revisitar o que havia sido feito, como também a subvertê-lo. E esta, no fim das contas, é a grande beleza da terceira temporada.

As icônicas cortinas ao redor de Dale Cooper (Kyle Maclachlan) na Black Lodge

Para início de conversa, é importante ressaltar a grandiosidade da tarefa encampada. Twin Peaks: The Return não segue a cômoda posição de vários reboots/sequências em apenas levar em consideração parte do que foi feito - aqui, todo o prelúdio importa, seja ele bom ou ruim. Com extrema habilidade, Lynch inseriu citações não só às duas temporadas exibidas pela ABC mas também ao longa-metragem Twin Peaks - Os Últimos Dias de Laura Palmer, onde parte da história original foi recontada. Com isso, The Return não só é repleto de easter eggs que apenas serão reconhecidos pelos fãs, como ainda amarra uma série de pontas intencionalmente soltas, de uma maneira simplesmente brilhante.

Neste aspecto, é necessário lembrar que, 25 anos atrás, Lynch anunciou em Os Últimos Dias de Laura Palmer o destino do agente Cooper ao término da segunda temporada: "o bom Cooper está preso na Black Lodge". Ali era anunciada a divisão de Cooper em dois personagens, a versão original e um encarnado por Bob, que nortearia toda a terceira temporada. Além disto, no mesmo filme é apresentado o termo "blue rose", de grande importância em The Return, assim como o personagem de David Bowie, Phillip Jeffries. Em sua mínima aparição, ele ainda cita outra personagem crucial: Judy.

Na época em que Os Últimos Dias de Laura Palmer foi lançado, todos estes detalhes não passaram de delírios imaginativos oriundos da mente de Lynch. A forma como o diretor os resgata nesta terceira temporada não só propicia uma imersão ao universo anteriormente apresentado como aponta que, já naquela época, Lynch sabia os caminhos a seguir em uma possível continuidade de Twin Peaks. Paciente, aguardou os tais 25 anos para, enfim, entregar ao público o que, já naquela época, havia idealizado.

Chrysta Bell e David Lynch, como os agentes do FBI Tammy Preston e Gordon Cole

Diante de tamanho detalhismo, fica a pergunta: é possível assistir The Return sem ver tudo o que foi feito com Twin Peaks anteriormente? Com certeza! Mas, desta forma, perde-se o prazer da revisita, das lacunas que se tornam conexões tão bem estabelecidas. Boa parte do fascínio desta nova temporada vem de tais detalhes, inseridos em uma ambientação que tornou Twin Peaks muito mais amplo do que era até então, tanto esteticamente quanto em relação à narrativa.

A começar pelas constatações óbvias: The Return fica pouquíssimo tempo em Twin Peaks, o que valoriza cada instante em que a bucólica cidade e seus habitantes são retratados. Há um inevitável clima de nostalgia ao rever locais e personagens tão marcantes, aliado à inevitável curiosidade em saber o que se passou com eles nestes 25 anos de espera. Entretanto, ao contrário do que tantos revivals têm investido, Lynch entrega em conta-gotas o gostinho do reencontro - o que, no fim das contas, o valoriza ainda mais. Personagens marcantes, como Audrey (Sherilyn Fenn, ótima!), apenas reaparecem já no terço final da temporada, assim como vários outros ganham breves flashes. A história, nesta temporada, não está focada neles - ou ao menos não na maioria deles. É como se Lynch os visitasse de forma a trazer um certo conforto emocional, usando-os também para compôr o imenso quebra-cabeças narrativo que é The Return, com cerca de 200 personagens e novos cenários tão emblemáticos que, à sua maneira, também se tornam personagens. Que o diga o The Roadhouse e a imensa procissão de cantores indie que lá se apresentam.

Sheirilyn Fenn na maravilhosa cena da dança de Audrey

Com veteranos transformados em coadjuvantes, The Return investe firme em um punhado de caras novas, algumas bem conhecidas. Se Naomi Watts e Laura Dern ganham uma boa relevância, a nova temporada desfila Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, Amanda Seyfried, Michael Cera, Ashley JuddMatthew Lillard e tantos outros em participações mínimas que, na maioria dos casos, serve para quebrar a expectativa. Esta, por sinal, é uma constante na nova temporada: Lynch utiliza com maestria o uso do silêncio e do som de forma a provocar tensão a partir do nada, ou de um ato absolutamente trivial como o simples varrer do chão. Soma-se a isto o dom que o diretor possui em criar personagens estranhos e marcantes, e o resultado é uma mise-en-scéne hipnótica e extremamente envolvente - mesmo que, a bem da verdade, nada ou muito pouco ocorra de fato. Bem-vindo ao modo David Lynch em contar uma história, sempre repleto de ambiguidades e simbolismos.

É neste sentido que, também, o lado estético é tão importante em The Return. Sem efeitos especiais elaborados e muitas vezes se apropriando de trucagens sonoras e de edição de forma a produzir estranheza, Lynch desfila um imenso arsenal no decorrer desta nova temporada, que deveria ser minuciosamente estudado por todo e qualquer diretor de suspense/terror pela capacidade em representar tanto com tão pouco. Recorrendo ao grafismo de seu próprio trabalho como artista plástico, Lynch entrega um punhado de seres fantasmagóricos e situações assustadoras não só pelo inusitado do contexto em que são apresentados, mas também pela forma crua com a qual são construídos - o excepcional e já histórico 8º episódio é a prova maior disto. Em uma época onde os efeitos especiais podem fazer praticamente tudo, Lynch nos mostra que nem sempre a excelência é o melhor caminho para se alcançar a sensação desejada.

Cena do 8º episódio, o melhor de Twin Peaks: The Return

Se pelo lado estético e narrativo Twin Peaks: The Return já merece aplausos entusiasmados, devido à construção de uma história absolutamente fragmentada que consiga manter por 18 episódios (!!!) o clima de mistério e estranheza sem jamais perder o interesse do espectador, a terceira temporada ainda oferece a grande atuação de Kyle MacLachlan. Dividido em três personagens, o eterno Cooper demonstrou seu talento em papéis tão distintos quanto desafiadores, variando entre o cômico e o trágico. Naomi WattsLaura Dern (em uma personagem emblemática cuja revelação é também um choque aos fãs) também brilham, assim como um deliciosamente gaiato James Belushi.

Absolutamente sensorial e por vezes abstrata, Twin Peaks: The Return é uma série onde o ouvir e o sentir são ainda mais importantes que o compreender, de forma a constantemente instigar o espectador pelo que está por vir. Além disto, deixa a sensação de que tudo o que ocorreu anteriormente serviu apenas de preâmbulo para o que acontece aqui, tamanha a grandiosidade e a competência entregues. Por mais que seu desfecho siga um caminho um tanto quanto questionável, a condução até o mesmo é absolutamente primorosa, respeitando a cartilha narrativa muito particular de David Lynch. Uma temporada excelente, feita para todos os que apreciam o bom e velho cinema - não o palatável entregue dia após dia por Hollywood, mas o que incomoda e faz pensar.

“Estamos no futuro ou estamos no passado?”


CONSIDERAÇÕES FINAIS:

  • Das cenas do Mr. Jackpot ao esforço em beber café, passando pelo trenzinho com os irmãos Mitchum e a cena de sexo com Janey: vários foram os momentos em que Kyle MacLachlan fez rir com gosto. Sentiremos saudades de Dougie!
  • 25 anos depois, David Lynch ainda consegue trazer novidades acerca de uma morte tão esmiuçada quanto a de Laura Palmer...
  • Em uma série onde raríssimos são os momentos felizes, o desfecho dado para Big Ed e Norma foi uma lufada de ar fresco.
  • Mesmo em participações esporádicas, a senhora do tronco sempre foi um dos pontos altos. Sentiremos saudades, parte dois!
  • Valeria assistir Twin Peaks: The Return só pelas cenas com Audrey. Mas há muito mais a saborear ;-)
  • David Lynch gostou tanto do trabalho de Sheryl Lee que, na segunda temporada, criou uma personagem apenas para mantê-la na série (Maddy, lembram?). Diante disto, como se surpreender com o desfecho desta temporada?
  • Se o Emmy 2018 for justo, já temos um ganhador! E que venha a quarta temporada!
Naomi Watts e Kyle Maclachlan como Janey & Dougie
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