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American Gods: "Gosto de Laura não ser uma pessoa muito agradável", diz Emily Browning (Entrevista exclusiva)
Por Laysa Zanetti — 17/06/2017 às 10:07
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Conversamos com a atriz que dá "vida" a Laura Moon.

Amazon Prime Video / Freemantle Media

Você provavelmente se lembra dela como Violet Baudelaire em Desventuras em Série (o filme, de 2004), mas agora Emily Browning atende por Laura Moon — ou, se você for o Leprechaun Mad Sweeney (Pablo Schreiber), pode chamá-la também de “Esposa Morta”.

Não foi pouca a expectativa no entorno de American Gods, e levando em consideração a recepção da crítica e o forte impacto que a primeira temporada teve no público, pode-se dizer que a obra atendeu. Entre uma horda de personagens amplamente interessantes, deuses de todos os tipos e credos, Browning interpreta uma personagem que, a princípio, poderia soar apenas mais um papel feminino coadjuvante. “Laura Moon é a esposa de Shadow, o protagonista”, lêem as primeiras descrições da personagem. Nada tão empolgante assim, certo? Errado. Sua história está tão intimamente ligada com as raízes da série — de uma forma tão crua e divertida — que Browning torna-se um ponto de impacto que de maneira alguma poderia passar despercebido.

Por isso, não se engane: Laura não é sua típica-heroína-feminina-em-busca-de-amor. Embora, verdade seja dita, reconquistar o amor de Shadow seja mesmo o seu principal objetivo nesta vida ‘pós-vida’. Ela nem sempre é alguém com quem o público vai necessariamente se identificar, mas para a atriz, isto é algo extremamente libertador.

Emily Browning conversou com o AdoroCinema e contou qual o seu ponto de vista sobre os lados bom e ruim e Laura, as aberturas políticas de American Gods e ainda alfinetou a falta de anti-heroínas (ou de personagens femininas mais complexas) na TV.

Você interpreta uma personagem morta em American Gods. O quão diferente isso foi em relação a interpretar alguém que está viva?

Essa foi uma das perguntas que mais me fiz quando começamos a filmar. Fisicamente falando, acho que foi muito interessante interpretar uma personagem que não tem as necessidades humanas básicas. Ela não precisa dormir, não precisa respirar. Pensar nas coisas que ela deixou de fazer e nas coisas que continuou fazendo por puro hábito foi muito interessante. Por exemplo, qualquer tipo de reação mais emocional como suspirar ou ofegar, continua sendo parte dela. Mas, por exemplo, naquela grande sequência de batalha, os diretores não queriam que ela ficasse sem fôlego porque ela não precisa ficar, ela não precisa de oxigênio. Psicologicamente falando, o que foi interessante e libertador para mim foi o fato de que Laura, quando estava viva, era alguém que se importava com o que os outros pensavam dela e ela tinha muitas ansiedades por isso. Quando ela morre, Laura sente que um peso é tirado de suas costas e isso permite com que ela foque em Shadow, em protegê-lo. O fato de ela ter se tornado mais destemida depois de morrer foi bacana. Não há nada a temer se você não pode ser morto.

O que você gostou e o que você não gostou na personagem quando a leu no roteiro?

Não desgostei de nada. Enquanto pessoa não acho que eu seria amiga dela ou que eu gostaria dela, mas é exatamente disso que gosto na minha personagem. Adoro o fato de que Bryan Fuller e Michael Green foram corajosos o suficiente para escrever uma mulher que não é muito agradável. Nunca tinha encontrado uma personagem assim antes, nunca tinha tido a oportunidade de interpretar uma personagem como ela. Ela é babaca e Michael e Bryan me instigaram a ir mais fundo ainda nisso. Eles queriam que ela fosse ainda menos agradável do que eu pensara inicialmente e isso foi muito libertador para mim. As pessoas sempre esperam que eu interprete personagens que serão amadas, apaixonantes. E eu gosto do fato que Laura não é assim. Fisicamente falando também. Ela é nojenta, está se decompondo, está em um processo progressivo de apodrecimento. Gostei muito disso.

Eu a vejo como uma espécie de anti-heroína porque ela é empoderada pela própria morte e ela nem sempre é uma boa pessoa. Para você, enquanto mulher, como é interpretar uma personagem que representa tanto essa força?

Isso foi definitivamente muito divertido para mim. Se você colocasse Pablo Schreiber e eu em outra série, interpretando outros personagens que vivem em um mundo que não é mágico, um mundo real, teríamos a sensação de que ele é mais forte que eu. Na vida também temos essa impressão. Especialmente porque Pablo é muito alto, ele mede 1,95m. Então, mesmo que inconscientemente, existiria essa sensação de que ele poderia me machucar por ser mais poderoso que eu. O fato de nós termos eliminado isso por completo, o fato de ela controlar a situação, ser mais forte que ele, foi muito divertido, se tornou muito bom para nós enquanto atores. Ela simplesmente pode derrotar as pessoas. Isso é muito divertido para mim. Para todas as pessoas envolvidas na série, é muito natural que Laura seja assim, pouco agradável, uma espécie de anti-heroína. Ela ocasionalmente faz coisas boas, ela salvou Shadow do linchamento. Mas o que é interessante para mim é ver as respostas do público. Boa parte das pessoas tem um problema com a personagem, acham que Laura é terrível. Eu acho que isso tem a ver com o fato de ela ser mulher. Acho que as pessoas esperam que as personagens femininas tenham altos padrões morais, que sejam boas pessoas. Elas podem, ocasionalmente, fazer algo errado, mas logo se redimem. A moral não tem nada a ver com Laura. Ser parte disso foi muito empolgante para mim.

Também gosto do fato de que o principal objetivo de Laura é encontrar Shadow, mas ela não é incompleta sem ele. Como você se sente sobre isso?

Também me senti assim. Inicialmente, a personagem foi apresentada para mim como alguém que está em busca de seu marido. Isso não me interessou, mas quando li os roteiros até o episódio 4, Laura se tornou muito interessante. O fato de ela estar em um caminho para encontrar seu marido, ou salvá-lo, não quer dizer que ela se resume a isso. É o que ela mais quer nesta trama, mas não é tudo que ela é. Essa busca não a define. Para ser honesta, acho que Laura ainda é egoísta. Ela está neste caminho buscando por Shadow, mas tudo ainda se resume a ela. Gosto do fato de ela não ser virtuosa, de não ser um anjo que protege Shadow. Não sei o que ela é. Ainda não descobri, não posso descrever porque ainda estou descobrindo. Mas eu a amo, me divirto muito a interpretando.

Como um todo, a série tem diversas ressonâncias políticas com temas como a imigração, racismo e a questão de gênero. Como isso tocou você?

Isso é realmente muito, muito empolgante para mim. O fato de termos um elenco genuinamente diversificado sem fazermos alarde sobre isso é o propósito da série. Seja lá por quantas temporadas a série existir, nós realmente poderemos explorar as diferentes versões do que significa viver nos Estados Unidos. Tenho orgulho de podermos fazer isso e de que Bryan e Michael foram corajosos o suficiente para fazer isso. Acho que a questão da imigração, especialmente agora, levando em conta nosso clima político, é muito importante. No fim das contas, somos uma série de televisão, queremos produzir entretenimento acima de tudo, mas acho que a moral de American Gods é que as culturas e crenças que os imigrantes trazem para os Estados Unidos é o que faz com que os Estados Unidos sejam um lugar tão belo, rico e interessante. Acho que isso é muito importante para todos nós.

American Gods é exibida no Brasil pelo Amazon Prime, e a primeira temporada contará ao todo com 8 episódios.

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