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Westworld S01E10: HBO apresenta a sua melhor série desde Game of Thrones (Crítica)
Por Laysa Zanetti — 05/12/2016 às 09:48
Atualizado
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Leia a nossa crítica de The Bicameral Mind. Com spoilers.

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS 

“Esses prazeres violentos têm fins violentos.”

Westworld provocou o público o tempo todo, deixando as respostas para as grandes perguntas (ou, ao menos, as pistas) expostas desde o início. “Convidativa” talvez seja o termo ideal: a série incitou o público para que criasse as mais variadas teorias. E como uma boa trama que não se rende ao ‘choque pelo choque’, cada teoria confirmada deixava claro que todas as horas gastas debatendo a trama não foram em vão: há uma história maior sendo contada.

Antes de mergulharmos nos detalhes, alguns esclarecimentos são bem-vindos. Desde o segundo episódio, foi se espalhando a teoria de que William seria na verdade o Homem de Preto, porém 30 anos mais novo. As evidências para isso eram singelas – basicamente se ancoravam nos logotipos diferentes que apareciam em determinadas cenas – mas ao longo dos episódios seguintes, mais e mais detalhes foram somando à teoria. Logo, o público notou que dois quadros temporais se apresentaram. Um, 30 anos antes, protagonizado por William (Jimmi Simpson), Logan (Ben Barnes) e Dolores (Evan Rachel Wood). O outro, no tempo corrente, desenvolveu a trama do Homem de Preto (Ed Harris), Teddy (James Marsden) e – paralelamente – Maeve (Thandie Newton).

O fato de o público ter adivinhado algumas das revelações não sabotou a história. Pelo contrário, a impressão que ficou após cada episódio é que os produtores (Jonathan Nolan e Lisa Joy) estavam contando com os espectadores para adivinharem algumas das reviravoltas, já que após cada revelação esperada, vinha outra coisa da qual ninguém tinha ideia. Quando veio a confirmação de que Bernard (Jeffrey Wright) era um anfitrião, alguns já esperavam isso – mas ninguém esperava que ele fosse matar Theresa (Sidse Babett Knudsen) em seguida. Quando o final da temporada confirmou que o Homem de Preto e William eram a mesma pessoa, muitos também já sabiam – mas quem esperava tudo o que aconteceu depois?

A transformação

De uma certa forma, “The Bicameral Mind” vai direto ao ponto, respondendo as questões mais exaustas de imediato. O labirinto é um jogo idealizado por Arnold (Jeffrey Wright) para testar o despertar dos anfitriões. As cenas de Dolores com William e Logan eram lembranças de quando ela percorreu aquele caminho pela primeira vez, 30 anos antes, enquanto o fazia sozinha no presente. William é o Homem de Preto. Wyatt nunca existiu de verdade, era uma 'metáfora' para Dolores. Tudo isso foi insinuado com muita força nos episódios anteriores, e havia pleno espaço para o público suspeitar de todas essas revelações antes do final da temporada. Por isso, o episódio corretamente trata de tirar essas questões do centro das atenções logo no primeiro momento. Demonstrando, assim, que nada disso era o grande objetivo da temporada. Não é que há mesmo uma história maior por aqui?

Paralelamente, “The Bicameral Mind” oferece o que um final de temporada tem de melhor e deixa espaço para inúmeros debates mais aprofundados. William, em sua jornada de mocinho para a controversa figura intitulada Homem de Preto, representa a decadência rumo a uma ilusão. Cada vez mais obcecado com a ficção, ele pode ser facilmente lido como uma metáfora que espelha o próprio público da série: tanto quanto ele, o espectador foi ficando mais atraído pela narrativa e pelo significado de cada frase de Dolores, Bernard, Ford, Maeve, Teddy... e no fim, independente do resultado, a resposta é uma só. Tudo continua sendo apenas ficção. Como era para ele. Como é para nós.

Toda a beleza do episódio reside justamente aí. Mesmo para os mais aficionados, os devotos das teorias e do Reddit, “The Bicameral Mind” é uma exímia caixa de surpresas a cada vez que desce uma cortina à frente de uma de suas narrativas ficcionais e revela que tudo aquilo que acompanhamos tão avidamente achando que trata-se do prometido despertar da consciência havia sido planejado pela figura divina por trás de tudo: Robert Ford (Anthony Hopkins). No fim, o resultado é quase óbvio, exatamente o que imaginávamos que aconteceria desde o início: aqueles robôs estão ganhando consciência, eles eventualmente podem vencer o jogo. Mas é o senso de realização que toma conta a cada cena (dentro e fora da tela), a certeza de que mesmo sendo donos da própria percepção, todos (humanos ou robôs) estão condicionados a tomar decisões previamente estabelecidas, induzidas por eventos anteriores – é isso que faz do episódio tão brilhante. A conclusão da jornada, dez capítulos depois, é que o primeiro passo para alcançar a consciência é aceitar que nenhum de nós tem total controle sobre a própria existência. E, para isso, é necessário sentir a dor dos erros – mesmo que tenham sido de outros.

Arrebatador, não?

HBO
O ato final de Robert Ford

Por isso, independentemente de se ter ou não acompanhado as teorias, ou captado no segundo episódio que havia mais de um quadro temporal em cena, o que sempre esteve em jogo em Westworld são os valores morais e éticos, a consequência de cada decisão individual na vivência coletiva. A ideia maniqueísta de que William (Simpson) é um bom rapaz apaixonado e o Homem de Preto (Harris) um cruel assassino cai por terra de vez quando é confirmado que ambos são a mesma pessoa, antes e depois de Dolores. Quem foi o vilão aí? A compulsiva busca de cada indivíduo por uma experiência real na ficção (livros, filmes, séries ou Westworld) também inevitavelmente entra no fator creepy depois que todas as camadas de realidade que pareciam estar expostas na série são reveladas como mais uma bem arquitetada história de Ford. Não estamos, no fim, todos presos a uma narrativa? A um pequeno ciclo?

Chegamos ao final da temporada de Westworld em dezembro de 2016, dois anos após o primeiro episódio piloto ter sido gravado. Desde então, a série passou por muitos momentos em que se acreditou que ela jamais chegaria ao ar. Teve a produção interrompida, uma intervenção do SAG-AFTRA, demorou a ser formatada. Felizmente, ela chegou às telas. Westworld é brilhante da execução da abertura aos últimos retoques do roteiro, com uma história que representa a época em que está inserida ao colocar no centro da trama grupos tradicionalmente oprimidos – duas mulheres, uma delas negra, e um homem negro – em uma jornada de autodescoberta e tomada do poder. É revolucionária sem forçar um discurso condescendente, atraente para o público que consome televisão debatendo na internet ou não, coroada por atuações que simplesmente precisam dominar os indicados ao próximo Emmy Awards. É sem dúvidas uma das melhores estreias de 2016 – e a melhor que a HBO apresentou desde Game of Thrones.

Cantinho da Resolução

Ao longo da temporada, nós do AdoroCinema trouxemos análises semanais de Westworld, e buscamos a cada texto sanar eventuais dúvidas sobre os acontecimentos dos episódios. No final da temporada, não seria diferente.

A real reviravolta de “The Bicameral Mind” é que Ford estava por trás de todos os acontecimentos, inclusive do súbito despertar de Maeve. O que não deveria ter sido uma surpresa – ele sempre esteve à frente de Charlotte (Tessa Thompson) ou Theresa, por exemplo –, mas o foi em execução. Os planos do diretor eram, enfim, reparar os erros de Arnold quando ele quis despertar os anfitriões, depois de ter passado 35 anos construindo a narrativa ideal. Isso soluciona pequenas inconsistências que haviam incomodado, como a submissão de Felix e Sylvester às exigências de Maeve, o fato de ninguém notar que havia algo errado com Maeve, e também por que Ford resolveu contar tudo a Bernard no episódio 9: todas essas coisas eram seu plano que estava em movimento desde o início, detalhadamente construído para culminar no seu sacrifício pelas mãos de Dolores. É o fim violento dos prazeres violentos.


A nova narrativa finalmente terminada, “Jornada pela Noite”, parece ser o que ele deixa pronto para ser executado na segunda temporada, mas há muitos elementos que são insinuados como possível continuidade. O episódio confirma que "Westworld" não é o único Destino Delos – a existência de outros parques é fortemente insinuada, e pela forma como a história de Maeve se encerra, talvez ela esteja se destinando a um destes outros parques em busca de sua filha. 

Samuraiworld?

Por fim, “The Bicameral Mind” de fato responde as dúvidas que brotaram ao longo da temporada, mas nem sempre o faz de maneira direta. Não seria o modus operandi de Westworld. Assim, vale seguir a dica de Evan Rachel Wood:


“Beleza pessoal, agora voltem e vejam a série toda de novo. Dessa vez não procurando, mas enxergando.”

O que você achou da temporada? Deixe sua opinião ou dúvida nos comentários!

Nota: 5/5

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