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Westworld S01E08: Sobre as marcas da lembrança
Por Laysa Zanetti — 21/11/2016 às 11:11
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Leia nossa crítica do episódio "Trace Decay".

Você: “Ei, acho que finalmente estou começando a entender Westworld!”

Westworld: “Você não sabe nada, Jon Snow.”

Em um certo momento do episódio 8 de Westworld, nossa anfitriã Dolores (Evan Rachel Wood) tem um pequeno surto em que começa a questionar quando ela está, e explica a William (Jimmi Simpson) que tem dificuldades para separar o que é realidade e o que é apenas lembrança. E foi neste momento que a personagem representou o sentimento de aproximadamente 100% dos espectadores da série enquanto a assistem.

“Trace Decay”, título do episódio, é uma referência direta a um conceito da psicologia que trata do esquecimento. A teoria assume que memórias são esquecidas porque as marcas (físicas ou químicas) que deixam no Sistema Nervoso vão naturalmente se esvaindo – e, por isso, as lembranças deixam de existir. Do lado oposto, a história do episódio gira em torno das memórias dos anfitriões responderem de forma diferente. E esta pode ser a maior diferença entre os androides e os humanos.

Como Felix (Leonardo Nam) explica a Maeve (Thandie Newton), as lembranças dos anfitriões funcionam diferente das memórias humanas. Enquanto as nossas gradualmente se tornam confusas e vagas, para eles tudo é extremamente vívido e em perfeitos detalhes... como se eles estivessem vivendo aqueles momentos mais uma vez.

A explicação se replica em vários outros arcos do episódio. Bernard (Jeffrey Wright) tem dificuldades para lidar com o fato de ter assassinado Theresa (Sidse Babett Knudsen); Maeve sofre com as lembranças de Clementine (Angela Sarafyan) e da filha; Dolores não consegue nem mesmo diferenciar se o que está vivendo é lembrança ou real; e até o pobre Teddy (James Marsden) consegue se lembrar de momentos anteriores com o Homem de Preto (Ed Harris). E tudo isso deixa muitas dicas no ar... mas poucas respostas concretas.

Se até então Maeve vinha ganhando consciência e um lugar central na história da temporada, aqui ela prova que realmente o seu despertar é muito mais elaborado do que se imaginava. Descobrimos que ela era uma das anfitriãs da primeira geração, criada por Arnold, e que sua jornada começou graças ao Homem de Preto – e consequentemente, despertou nele esta busca por um nível mais profundo do jogo. E apesar de ser incrível vê-la “brincando de Deus” com tudo e todos à sua volta, Felix e Sylvester (Ptolemy Slocum) continuam sendo talvez os personagens mais fracos da história. Até agora, é muito difícil entender que motivações eles teriam para continuar no jogo de Maeve ao invés de simplesmente reportá-la. Afinal de contas, o trabalho deles e a própria vida estão em risco de qualquer forma. Ao mesmo tempo, muitos fãs observam um fato curioso sobre a dupla: Felix e Sylvester são, literalmente, nomes de gatos de desenho animado. (Sylvester é o nome original do Frajola, enquanto Felix é simplesmente o Gato Félix.) Por isso, talvez desde o início eles realmente não teriam sido desenvolvidos para serem os personagens mais espertos do programa. Ainda assim, são o ponto mais frágil de uma excelente temporada.

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Enquanto isso, Dolores e William continuam sua jornada rumo ao local que ela chama de “casa”, e cenas repletas de nuances sugerem ainda mais evidências a respeito das duas linhas temporais. O episódio corta de Felix para Dolores logo após o técnico explicar a Maeve a respeito do funcionamento das lembranças, e – como tudo em Westworld – isso é intencional, já que tal confusão entre memória e realidade vem alimentando muitas hipóteses quanto a este arco narrativo. Novamente, ela sofre uma espécie de lapso, quando está buscando água e, de repente, se vê sozinha e enxerga o próprio corpo sem vida no leito do rio. Em seguida, quando a dupla chega ao destino, encontramos uma paisagem de um local abandonado, que se transforma em uma cidade cheia de vida e confirmamos que se trata do local que Dolores via nos flashbacks – a “cidade da igreja branca”, o local em que os primeiros anfitriões eram ‘testados/ensaiados’, e por fim o mesmo lugar que Ford (Anthony Hopkins) está desenterrando para a nova narrativa.

O que Dolores vê é uma memória de antes do parque abrir, quando a equipe de Ford e Arnold testava os anfitriões a fim de torná-los mais naturais – esta mesma cena havia sido mostrada no episódio 2. O momento se dissipa e novamente a anfitriã filha de Lawrence (Izabella Alvarez) questiona Dolores (como havia feito em um destes lapsos quando ela passava por Las Mudas), o flashback termina com a imagem de um massacre, e descobrimos que quem o executou foi ninguém menos que a própria Dolores.

Se este massacre for o mesmo tão falado “incidente” que ocorreu há 35 anos, então isto significa que Dolores foi de fato a responsável pelo que tenha acontecido. O fato de ela questionar o “quando” está vivendo com William não passa despercebido, sobretudo quando os vários lapsos de Dolores (no desfile em Pariah, no trem com William e Lawrence e buscando água no rio, para citar os mais perceptíveis), uma arma que aparece e some e logotipos diferentes na sede do parque sugerem com cada vez mais força ela não fez este caminho uma única vez – mas discutiremos mais sobre isso a seguir.

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Tendo atingido também o aparentemente inócuo Teddy, o “despertar da memória” fez o Homem de Preto falar como nunca. Após ser confrontado pela vez que aparentemente violentou Dolores no primeiro episódio, o homem explica ao seu companheiro de viagem quem ele realmente é, fala sobre sua vida fora do parque, a esposa e a filha, confirmando o que também já se suspeitava; o Homem de Preto é um tipo de filantropo na vida real, magnata da indústria que pratica o bem, mas é em Westworld que sua "verdadeira natureza" se mostra. Aqui, mais uma vez a série rompe com os estereótipos, e anuncia que o personagem na verdade é um mocinho, e não vilão. Por isso, questiona-se: será que o momento que o vimos arrastar Dolores para o celeiro, ele iria realmente fazer mal a ela, ou buscava questioná-la?

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Maeve e a filha, após a execução do Homem de Preto, aparentemente no centro do labirinto... ou de uma representação dele
As motivações do Homem de Preto estão intrinsecamente ligadas ao despertar da consciência dos anfitriões, o que fica claro quando ele conta a história de quando assassinou a filha de Maeve e viu a mulher agir de forma humana pela primeira vez, desobedecendo aos comandos e lutando pela própria vida. Fundamentalmente, foi este momento dela que o fez buscar o nível mais profundo do jogo, um nível em que os personagens – talvez – não respondam aos comandos de Ford, e enfim usem a mente bicameral implementada por Arnold. O que se conclui desta passagem é que os objetivos do Homem de Preto estão ligados à libertação dos anfitriões... bem distante do vilão que somos induzidos a crer que ele é no início da temporada.

Enquanto Bernard questiona a sua própria existência e indaga Ford qual é a diferença entre os humanos e os anfitriões, o ciclo do episódio se fecha e volta à ligação de cada uma das 'espécies' com a memória. Por fim, a dor provocada pelas lembranças é a motivação final tanto dos anfitriões quanto dos humanos. Não somos tão diferentes assim, no fim das contas.

Cantinho da Especulação

Ah, o doce mundo das teorias. Faltando apenas dois episódios para a temporada chegar ao fim, as especulações estão mais movimentadas do que nunca. Para os que acreditam que a série se passa em duas linhas temporais diferentes, muitas evidências confirmam que de fato vemos épocas diferentes. Teddy e o Homem de Preto encontram uma anfitriã no meio do caminho, personagem de Talulah Riley, e o Homem de Preto se assusta por ela ainda estar ativa, deixando claro que ela existe há muito tempo. A personagem aparece em outro momento do episódio, no flashback em que Dolores vê os outros anfitriões praticando dança; ou seja, ela foi uma das primeiras criadas por Arnold. Entretanto, ela é também quem recebe William na sede do parque quando ele chega, no segundo episódio. A não ser que a série esteja pregando uma peça muito bem montada, isso confirma que os dois personagens não estão vivenciando o parque na mesma época.

Reprodução Reddit
Angela (Talulah Riley) em três momentos, em três épocas diferentes

Essa mesma constatação nos leva diretamente à "confusão temporal" de Dolores. Ela não sabe exatamente se consegue diferenciar memória de acontecimentos reais, e esta é a grande dica de que talvez o que estejamos assistindo são suas lembranças de quando percorreu aquele caminho até a cidade da igreja branca com William, 30 anos antes. É cada vez mais forte a suspeita que realmente ele e o Homem de Preto sejam a mesma pessoa (afinal de contas, deve haver um motivo por que não sabemos o nome dele ainda, certo?), sobretudo levando em consideração o discurso de ele ser uma pessoa boa na vida real e ter se casado exatamente 30 anos antes – o que se encaixa perfeitamente com o casamento marcado de William.

Então, se a jornada de William e Dolores aconteceu há três décadas, a próxima pergunta é óbvia: onde está Dolores 'agora'? Voltamos aos "lapsos" em que ela se vê percorrendo aquele mesmo caminho sozinha. A teoria sugere que ela está lembrando de William enquanto volta a trilhar esta jornada, mas solitária. Vale lembrar, também, que a mesma cidade da igreja branca é o local que Ford está desenterrando para a sua nova narrativa, que terá relação com Wyatt. Então, de uma forma ou de outra, um reencontro entre ela e o Homem de Preto é apenas inevitável.

E, por fim, mas não menos importante: Podemos concluir que Bernard matou Elsie (Shannon Woodward) a mando de Ford? Há no mínimo a sugestão que o anfitrião já cometeu outros assassinatos a mando de seu criador; portanto, é possível. 

O que você achou do episódio? Westworld retorna para confundir ainda mais no próximo domingo, com o episódio 9, "The Well-Tempered Clavier".


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