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    Distopias, Mad Max e política: Um dia nos bastidores das filmagens de 3%, primeira série brasileira original da Netflix
    Por Renato Hermsdorff — 19 de nov. de 2016 às 09:24
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    “Um cubo negro com projeções coloridas em neon”.

    Em 21 de abril de 2016, quando o AdoroCinema visitou o set de 3%, a primeira série original brasileira (sul-americana, na verdade) da toda poderosa Netflix, no Estúdio Quanta, zona Oeste de São Paulo, Dilma Rousseff ainda era a presidenta da República; Eduardo Cunha comandava a Câmara dos Deputados; o Brasil ainda se divida (divide?) entre “coxinhas” e “petralhas”; e “meritocracia” era um termos citado em 11 de cada dez comentários políticos no Facebook.

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    O cartaz.
    A ideia começou, na verdade, lá em 2009. Eu tinha exatamente 20 anos, que é a idade dos protagonistas. Ainda não tinha chegado no Brasil a onda das ‘distopias’. Eu nem sabia que existia Jogos Vorazes”, se antecipa Pedro Aguilera, o criador da série. “Esse conceito, mais tarde, de meritocracia, foi ganhando mais maturidade e eu fui entendo mais”, completa o rapaz, hoje com 28 anos – mas com carinha de 20.

    A série fala de uma sociedade onde, por mérito, você consegue as coisas. Se você não for bom o suficiente, acabou a vida para você”, explica a atriz Bianca Comparato, talvez o nome mais conhecido do elenco. “Mas tenta ser um alerta, como esses filmes todos que falam de ecologia, de catástrofes que podem vir acontecer, e é uma catástrofe econômica, política mesmo”, ela vai além, entre uma garfada e outra na pausa para o almoço.

    O indicado ao Oscar (pela fotografia de Cidade de Deus) César Charlone, que assume como diretor geral da obra, confirma que o roteiro não foi seguido à risca, com alterações sendo feitas enquanto se rodavam as cenas. Mas, como “showrunner de uma ideia alheia”, admite que o calor dos acontecimentos políticos externos foram incorporados como “pinceladas”. “Também para que não ficasse datado. Tem referências, claro, no momento em que se questiona a corrupção, que começam a surgir os ‘dois lados’, mas não entramos [no mérito]”. E provoca, sempre com bom humor: “Tem um Cunha, sim, mas é um Cunha...

    Todos no mesmo quadrado.

    Horas antes de atender à imprensa, Bianca (que interpreta Michele), Michel Gomes (Fernando), Rodolfo Valente (Rafael), Rafael Lozano (Marco) e Vaneza Oliveira (Joana), se digladiavam dentro de um cubo negro com projeções coloridas em neon nas paredes – esse que aparece no minuto 1’49 do trailer, abaixo – repetidas vezes. Uma cena aparentemente simples, mas refilmada à exaustão.

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    Comparato em cena.
    Eles são os participantes do Processo, “prova” por qual passa todo jovem ao completar 20 anos, para decidir se continua no ambiente miserável do Continente, ou se ascende para o Mar Alto, local onde, pelo menos em princípio, “Teus risonhos, lindos campos têm mais flores/ Nossos bosques têm mais vida/ Nossa vida no teu seio mais amores”. Só os 3% do título, claro, passam para o lado iluminado da força.

    Inicialmente, quando o Pedro criou a série, ela era baseada em uma coisa meio vestibular. Ele queria falar do vestibular sem falar diretamente do vestibular. Acho que a gente amadureceu muito isso. Tem essa angústia, do jovem, mas eu acho que é uma coisa mais política envolvida”, insiste a atriz, que foi convidada (nada de “processo”, ufa!) para o projeto.

    Pedro confirma: “Todo mundo passa por mil processos. [No início] A gente estava mais focado na ansiedade de como seria o mercado de trabalho, na experiência do vestibular”, diz ele, que demorou para tirar a carteira (ou carta) de motorista – processinho complicado, diga-se. “Então, acho que tem muito a ver com a nossa visão política do que é a nossa sociedade. Não necessariamente as loucuras agora de 2016”, (des)atualiza.

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    O baile todo.

    Do YouTube para a Netflix.

    Na migração da internet (leia YouTube) para a TV (Netflix), a websérie perdeu o tom policialesco e ganhou cores, romance e humor (tem até uma playlist no perfil oficial da série no site). “O que mais mudou foi a gente ter mais clareza da história que a gente queria contar. A angústia do jovem está lá. A forma como processo acontece é que está mais sofisticada”, garante Pedro, autor do roteiro de Copa de Elite e colaborador do texto de Homens são de Marte... E É pra lá que Eu Vou ("ao lado de Herson Capri", ele se diverte).

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    A websérie, que surgiu em 2009.
    Fizemos uma campanha de marketing de guerrilha na época e os fãs foram generosos com a gente, porque eles legendaram. E isso foi meio que maravilhoso. Se eles não tivessem legendado, os caras da Netflix não teriam assistido”, comemora o fã de The Wire.

    A gente não está bem com o cinema brasileiro. Então, as séries, essa ‘lei das séries’ [Lei nº 12.485, ou ‘Lei da TV Paga’, que obriga os canais de TV a exibirem conteúdo nacional], deu um fôlego muito legal para o mercado”, acredita Charlone. O uruguaio, diretor de O Banheiro do Papa e da série Destinos, acredita que a forma de consumir audiovisual também mudou com o tempo. “Parece um livro. Você vai até a página 40 e fecha, aí continua amanhã da página 40, de novo, ? É diferente”, afirma o orgulhoso dono de um iPad.

    Jogos Vorazes, Black Mirror e Mad Max.

    Reprodução Facebook
    O criador, Pedro Aguilera.
    César admite, no entanto, que essa é uma temática que jamais partiria dele. “Eles falam de Hunger Games e tal, minha filha que me conta. Eu acho que eu posso ter trazido um outro lado, porque dá um equilíbrio bem bacana, a juventude e o frescor, deles, com uma visão minha, de querer aprofundar algumas coisinhas”.

    Tem um pouco [de Jogos Vorazes], mas bem pouco, na nossa série. Eu fiz uma pesquisa, com os [filmes] Divergente, que eu não tinha visto, e fiquei muito feliz de ver a quantidade de ator bom que está participando destes filmes. Até o Philip Seymour Hoffman. A gente pode até ter um certo preconceito. Mas eu acho todos esses filmes muito bons. Eles se propõem a ser entretenimento, que fala com um grande público”, defende Comparato – que ainda cita Black Mirror (“Tem essa coisa que você vê que está mais para frente, mas, nas primeiras cenas, às vezes, não entende onde está no tempo”) e Mad Max como referências. Mad Max?!É luta por comida, água, escassez de tudo, sabe?

    Tinha que ser no Brasil.

    A comparação técnica com as produções do gênero, de Hollywood, por outro lado, é algo impensável na visão do realizador. “A gente nunca vai poder competir com um produto desses, por planejamento, por experiência, por sei lá o quê. A nossa riqueza é a brasilidade”. “Mas uma coisa que me frustra muito, cada vez que eu volto para o Brasil, é um clássico: A escada rolante não está funcionando, como não funciona aqui, em Quito ou Nova York, mas o cara fala ‘tinha que ser no Brasil’”.

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    O executor, Cesar Charlone.
    E por que 3% “tinha que ser no Brasil”? “A gente tem uma mistura de elenco de vários estados. Não nos preocupamos com sotaque, em neutralizar nada. Mas o que eu mais sinto de mais brasileiro é essa discrepância econômica. Para mim, isso é a série. Todos estão ali batalhando. Mas o mundo, o que a gente chama de “lado de cá” ou Continente, é o Brasil. A gente exagera, romanceia um pouco, mas no fundo é o que é: pobreza”.

    “As revoluções não se anunciam, elas acontecem”.

    O cinema documentário, tão caro à carreira de Charlone, parece uma inspiração mais realista. Em que sentido? “A gente dificilmente repete o mesmo plano. E você nunca gosta da interpretação do ator o tempo inteiro. Então, eu prefiro repetir de um outro ângulo, porque o montador vai garimpar aquele momento bom. Isso é muito documental”.

    Empolgado, César atesta que “A gente está tentando fazer uma coisa diferente”. “Eu tenho uma certa idade [58 anos], então, filmar é meio sacrificado. São 12 horas, muito tempo em pé. Quando você está já na 25ª viagem, o despertador toca às 5h da manhã, você precisa ter uma razão muito boa para levantar. Se é para pagar as contas, eu posso fazer comercial”. E conclui: “Eu acho que as revoluções não se anunciam, elas acontecem”.

    Com João Miguel (Estômago) – “que é meio o Pedro Bial da parada”, brinca Bianca –, 3% estreia em 25 de novembro, com oito episódios, no Brasil. Em Hollywood. E no mundo.

    O AdoroCinema viajou a São Paulo a convite da Netflix.

     

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