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    Festival de Roterdã: Filme brasileiro “Madalena” na disputa pelo maior prêmio (Entrevista exclusiva com diretor)
    Por Alexandre Ferraz — 5 de fev. de 2021 às 22:00
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    Diretor estreante comenta sobre o filme e discute transfobia e visibilidade de cultura regional.

    O filme Madalena teve sua estreia internacional nesta semana no Festival Internacional de Cinema de Roterdã, onde é o representante brasileiro na principal mostra, a Tiger Competition. Na história, Madalena é uma mulher trans do interior do Centro-Oeste brasileiro. O longa começa com sua personagem misteriosamente morta, e a partir daí que acompanhamos três jovens com vidas completamente diferentes e, aparentemente, sem nenhuma relação entre si, a não ser a ausência da personagem-título que causa consequências na vida de cada uma.

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    O filme é a estreia na direção de longas-metragens do mato-grossense Madiano Marcheti e vem chamando atenção no Festival de Roterdã com seu estilo visual próprio e forma de contar histórias pertinentes à realidade do Brasil atual. Foi gravado em Dourados, no Mato Grosso do Sul, e contou com boa parte da equipe e elenco provinda do local. Rafael de BonaNatália MazarimPamella Yule interpretam os protagonistas.

    Em entrevista exclusiva para o AdoroCinema, Madiano falou sobre como escolheu abordar temas como a violência contra pessoas trans, ambientalismo e identidade regional e como chegou ao seu primeiro trabalho como diretor de um longa.

    Como principal assunto do filme, o diretor menciona a terrível realidade da comunidade trans no Brasil. E frente a isso, faz um apelo: "Nossa sociedade precisa se humanizar para passar a enxergar as pessoas que são postas em situação de marginalização e invisibilização social, como é o caso de muitas pessoas trans por exemplo, como elas de fato são: pessoas que, como todos nós, merecem ser plenamente respeitadas e ter acesso a oportunidades e direitos”. Confira a entrevista abaixo:

    ADC: Como está sendo o festival para você?

    Madiano Marcheti: Está sendo incrível. Eu nunca tinha participado de um grande festival. Tinha feito curtas antes e participado de festivais no Brasil, mas a dinâmica de um festival grande é muito diferente. Estou vendo muitos painéis, tendo acesso à workshops e contato com produtores e programadores. Espero que isso de alguma forma ajude à abrir portas para que o filme continue rodando daqui pra frente.

    ADC: É sua estreia na direção de longas. Como chegou nesse nível de segurança em relação ao formato, o que possibilitou ser selecionado para um festival relevante logo com um primeiro trabalho?

    MM: É um filme que eu estou pensando há muito tempo. Foi um processo de escrita de quase 3 anos antes de filmar. Acho que isso fez com que o filme amadurecesse muito para mim e que eu tivesse certeza do que eu queria quando estava no set. Fui muito aberto à modificar o roteiro de acordo com as coisas que eu ia descobrindo: as locações foram mudando, alguns personagens foram se modificando conforme eu fazia o casting. Eu estava aberto para essas mudanças mas, por outro lado, em questão de linguagem, eu estava muito seguro do que eu queria fazer, por conta já desse processo de escrita e pesquisa anteriormente.

    ADC: Pode se dizer que “Madalena" dialoga bem com uma tendência do cinema contemporâneo brasileiro de não ter um protagonista único e bem definido. Por que foi escolhida essa maneira para tratar dos temas pretendidos e contar essas histórias?

    MM: Vem muito da vontade de falar sobre esse lugar, do meu lugar de origem [Centro-Oeste brasileiro]. Eu acreditava que, para falar sobre aquele lugar, um ponto de vista não era o suficiente, pensando nas dinâmicas sociais que vem desse contexto histórico de migração recente dos últimos 60 anos, do qual eu e minha família somos frutos de alguma maneira. Resolvi fazer primeiro a personagem da periferia, segundo com um personagem de um lugar extremamente oposto, num condomínio de luxo, e o terceiro são essas personagens ligadas mais afetivamente à essa protagonista ausente que leva o filme. E também tem os pontos de vista não humanos dentro filme, que eu considero que são pontos de vista que ajudam a contar sobre esse lugar, os pontos de vista dos animais, do espírito, das máquinas que trabalham na soja.

    ADC: Você poderia comentar um pouco sobre a presença das máquinas no filme? Por que a vontade de incluí-las daquele jeito?

    “A minha vontade era trabalhar retratando o cotidiano desse lugar, então me importava muito tentar entender essas dinâmicas sociais a partir desse cotidiano. Mas, por outro lado, eu queria muito tentar deixar sentir que esse lugar, às vezes, pode ser hostil e pode parecer assombroso. É nesse momento que eu acho que o filme se posiciona mais politicamente em relação aos impactos do agronegócio sobre a natureza e sobre as pessoas que vivem naquele lugar. Quando a gente viu essas máquinas na soja, eu e os fotógrafos tentamos pensar em como deixá-las parecendo mais monstruosas possíveis, personagens que ajudam a dar esse clima estranho e hostil pra esse lugar, como se fosse um mundo fora de controle.

    ADC: Com ausência de Madalena, cada personagem reage diferente. Dois se aproximam mais da derrota, enquanto outros têm uma postura mais esperançosa. Qual a visão que o filme procura passar sobre o jovem brasileiro nos dias de hoje?

    MM: Na terceira parte, das meninas, por mais que elas aceitem a situação, eu acho que, dos três pontos de vista, o fato delas seguirem em frente demonstra a força dessas personagens, diferente das duas primeiras. De uma forma, é uma demarcação política que eu estou colocando em relação à isso. Tudo é muito sutil no filme, mas esse movimento delas seguirem em frente para mim já significa muito, porque elas que perderam a amiga, são as pessoas LGBT que estão perdendo gente ao redor o tempo inteiro. De todo aquele grupo, elas é que tinham de certa forma a 'desculpa' de desistir facilmente, e elas não desistem. Isso só demonstra a força, a potência dessas personagens.

    ADC: A partir de um contexto onde o Pantanal sofreu a tragédia que sofreu no ano passado, e a Amazônia também recentemente, o filme toma uma outra camada de interpretação, na sua opinião?

    MM: É muito louco pensar que esse filme começou a ser pensado 5 anos atrás e as coisas só pioraram nesse sentido. Acho que o filme pode contribuir mais para essa discussão, por conta do agravamento da situação não só no Pantanal e no Cerrado, mas também na Amazônia. Era meu interesse ter um ponto de vista crítico em relação aos impactos que esse processo de expansão do agronegócio e do desmatamento traz para a natureza e para as pessoas que vivem ali e são invisibilizadas, como os povos indígenas, que foram retirados e nesse processo muitos morreram.

    Em paralelo ao Festival de Roterdã, Madiano Marcheti está atualmente desenvolvendo um novo projeto, chamado “Mãe do Ouro”. O cineasta deve explorar novamente temas como o seu lugar de origem, a natureza e um maior enfoque na figura da mulher, como brinca: “É um filme eco-feminista, em alguma medida”.

    Ele também comenta sobre a situação complicada que o setor audiovisual no Brasil está sofrendo: “O Brasil está passando por uma crise muito absurda. […] O fato da gente estar em Roterdã significa muito nesse sentido e reflete a potência que o cinema brasileiro tem. Os filmes continuam saindo, só que a gente sabe que nos próximos anos vai dar uma esgotada, porque a gente está sendo paralisado. Mas é isso, a gente tem que continuar lutando para reverter essa situação na medida do possível”, desabafa.

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    Madalena segue concorrendo na principal competição do Festival de Roterdã, cuja premiação ocorre no domingo (07/01). O filme tem previsão de estreia para o segundo semestre no Brasil.

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