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    Rosa e Momo: As diferenças entre o filme da Netflix e o livro de 1975
    Por Lucas Leone — 9 de dez. de 2020 às 18:04
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    Adaptada de "A Vida pela Frente", a produção estreou em 13 de novembro, com Sophia Loren no papel principal.

    Tirar Sophia Loren da aposentadoria não foi uma tarefa fácil. Coube a seu filho, o diretor Edoardo Ponti, trazer a atriz de 86 anos de volta para as telas após mais de uma década afastada. Assim, com um empurrãozinho familiar, a musa italiana aceitou mais um desafio em sua carreira: protagonizar Rosa e Momo, filme da Netflix baseado no livro “A Vida pela Frente”, escrito por Émile Ajar (pseudônimo de Romain Gary) e publicado em 1975.

    Lançada em 13 de novembro, a trama acompanha Madame Rosa (Loren), uma senhora judia que sobreviveu ao Holocausto e que trabalhou como prostituita por muito tempo. Agora fora do ramo, ela cuida de crianças cujas mães exercem a mesma profissão. Entre os pequenos acolhidos por ela, está Momo (Ibrahima Gueye), um órfão senegalês que ganha uns trocados vendendo drogas pelas ruas de Bari, na Itália.

    Como boa parte das adaptações cinematográficas, Rosa e Momo traz um novo olhar para a obra original, atualizando alguns de seus eventos e reproduzindo outros de forma fidedigna. Por isso, o AdoroCinema listou as principais diferenças entre o longa de Ponti e o romance que o inspirou - confira também a crítica do site.

    A HISTÓRIA VAI DA FRANÇA PARA A ITÁLIA

    O livro introduz como pano de fundo a Paris de 1970. Madame Rosa reside em Belleville, um bairro que sempre abrigou imigrantes - desde espanhóis e judeus alemães até árabes e negros. A confluência de etnias e culturas dá o tom da narrativa, mostrando a importância da diversidade cultural para a formação de Momo. O garoto convive com argelinos, tunisianos, nigerianos, senegaleses, além de nativos de tribos africanas. Em meio a judeus, muçulmanos e cristãos, ele circula por áreas marginalizadas da capital, que atraíam apenas meretrizes, comerciantes, artistas e trabalhadores da classe baixa.

    O filme, por sua vez, se desenrola nos dias de hoje, tendo Bari como cenário. Localizada no salto da bota italiana, a cidade beira o Mar Adriático e segue marcada pela criminalidade, tráfico de drogas e prostituição. Apesar da mudança geográfica, a questão multiétnica ainda desempenha um papel decisivo na ação: Momo destoa dos locais por sua cor e por ser filho de uma prostituta estrangeira. Tal qual a França, a Itália se viu no centro da crise dos refugiados, e o conflito entre nacionalidades se reflete na trajetória de Momo.

    Lançamentos da Netflix nesta semana (04/12 a 10/12)

    MADAME ROSA É COMPLETAMENTE DEBILITADA NO LIVRO

    Em "A Vida pela Frente", Madame Rosa tem 65 anos, 95 kg e cerca de 30 fios de cabelo. Momo, na posição de narrador, a descreve como "velha e cansada", com "duas pobres pernas" que mal aguentam subir os seis andares do prédio onde moram. Senil, ela não consegue mais sair de casa e, por vezes, se arruma para o seu antigo trabalho nas ruas de Paris. Sem mencionar quando se esquece de se vestir ou, então, de fazer suas necessidades no banheiro.

    Nas telas, Sophia Loren surge bem mais enxuta que a personagem do livro, com suas madeixas grisalhas e sua maquiagem rejuvenescedora. Há, evidentemente, uma discrepância de idade entre as duas: a estrela italiana, 20 anos mais velha que a Madame Rosa da literatura, parece mais nova e menos debilitada. Ela sofre igualmente de lapsos de memória, mas sua saúde frágil não a impede de caminhar pela cidade nem de tomar conta das crianças.

    Detalhes à parte, a comovente atuação de Loren pode lhe render uma indicação ao Oscar em 2021. Se isso acontecer, ela se tornará a atriz mais velha na disputa pelo prêmio da Academia, batendo o recorde da francesa Emmanuelle Riva - que concorreu, aos 85 anos, pelo aclamado Amor. No caso de uma vitória, Loren abocanhará o posto da anglo-americana Jessica Tandy, que levou, aos 81 anos, a estatueta por Conduzindo Miss Daisy.

    ORIGINALMENTE DO SENEGAL, LOLA LUTAVA BOXE

    O livro introduz Lola como um travesti senegalês que, antes de adentrar o submundo da prostituição parisiense, se consagrara como campeão de boxe peso pesado. Vizinha de Madame Rosa, ela não tem filhos e, com o dinheiro de seus programas, ajuda a senhora a manter seu apartamento. Lola adora Momo e costuma lhe dar carona em suas andanças por Paris.

    Já no longa da Netflix, o papel ficou com a espanhola Abril Zamora (a Luna de Vis a Vis). A atriz transexual interpreta uma prostituita que, além de ser mãe solteira, vive uma complicada relação com o próprio pai. Embora não apareça nos escritos de Ajar, a trama de rejeição familiar adiciona uma camada mais densa à personalidade de Lola e ao trabalho de Zamora.

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    MOMO CONHECE ROSA HÁ ANOS E NÃO VENDE DROGAS

    No texto de 1975, Momo vive com Madame Rosa desde os três anos, e não com o médico dela, o Dr. Cohen (Renato Carpentieri). Ele não sabe por que nasceu, tampouco o que se passou com sua família. Quase na metade do livro, ele descobre que seu pai está vivo e que o mesmo o entregou para a ex-prostituta. Toda a existência de Momo se baseia, portanto, em mentiras, o que explica seu comportamento arisco e sua descrença na humanidade - à exceção de Madame Rosa, uma verdadeira mãe para ele.

    Por outro lado, o filme coloca Momo como órfão e, principalmente, como delinquente. Ele comete furtos nas ruas de Bari e entra para o tráfico local, enquanto o protagonista original não tem qualquer envolvimento com o mercado de drogas. O Momo de Ajar se revela um menino infeliz e cheio de problemas, que, ocasionalmente, rouba produtos de mercearia. O que não muda é a relação de afeto entre ele e Madame Rosa, traduzida de forma belíssima por Gueye e Loren.

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