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    Flush: "Sabemos que o Brasil é o país que mais mata membros da comunidade LGBTQIA+", diz ator João Côrtes (Entrevista)
    Por Nathalia Jesus — 13 de nov. de 2020 às 11:00
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    O ator, e agora roteirista e diretor, conta os detalhes por trás da produção de Flush, em que estrela ao lado de Nicolas Prattes.

    Ítalo Gaspar

    Embora o período de isolamento social, causado pela pandemia de coronavírus, seja incômodo — apesar de ser necessário, João Côrtes soube utilizar o tempo ocioso como um grande divisor de águas na carreira. Este ano, o astro brasileiro participou da minissérie Crônicas da Pandemia, estreou seu primeiro longa-metragem Nas Mãos de Quem Me Leva no FIN Atlantic International Film Festival, no Canadá, e também lançou o curta Flush, como ator, roteirista e produtor.

    Estrelado e idealizado por Nicolas Prattes e João Côrtes, Flush acompanha Sarah, uma pessoa não binária — identidade de gênero que está fora dos padrões masculinos e femininos — e Tom, um rapaz conservador e homofóbico. Os dois acidentalmente ficam presos em um banheiro e, durante esse tempo, levantam importantes discussões sobre liberdade, gênero, felicidade e masculinidade.



    A personagem Sarah é vivida pelo próprio João Côrtes. O ator conversou com o AdoroCinema e contou um pouco sobre como se preparou para interpretar um papel tão diferente de tudo o que já fez: “Foi uma experiência meio misturada, entre roteirista e ator. Escrevi o roteiro e ficamos todos, como equipe, quase um mês trabalhando em cima dele, esculpindo, e achando a melhor maneira de contar essa história”, explicou. “Era muito importante ter claro na cabeça de qual assunto estávamos falando, qual era o nosso ponto com esse filme e o porquê de estarmos contando aquela narrativa. Todo esse processo foi muito intenso, baseado em muito estudo, pesquisa e entendimento do sentimento humano. Das várias camadas da nossa mente e de nossas desconstruções. E isso, no fim, acabou sendo a minha preparação. Viver a Sarah foi um processo fluido. Mesmo assim, foi extremamente desafiador.”

    A construção da personagem Sarah

    Para entrar na pele da protagonista, Côrtes aderiu ao salto alto, maquiagem e roupas justas e estilosas. No entanto, o ator precisou de muito mais do que apenas a caracterização física para se conectar de forma mais íntima com a personagem, ressaltando ainda aspectos psicológicos e sentimentais que tornam Sarah tão única.

    “A Sarah foi talvez o papel mais desafiador que já fiz. Em vários sentidos. No sentido mais aparente, talvez mais óbvio, de toda uma transformação física e caracterização da personagem, mas ao mesmo tempo, de uma profundidade emocional e psicológica delicadíssimas. Nuances e sensibilidades. Foi desafiador por ter que encarar o medo de estar vulnerável. Sem defesas. No fim, o filme é sobre isso. Esse é o ouro. Busquei aflorar dentro de mim o meu lado feminino mais latente. Mergulhei em uma criatura que eu mesmo não conseguia definir. E é justamente aí que está a sua potência, na sua liberdade de existir, sem rótulos. Isso é complexo de se absorver. Eu levei um tempo até entender que a Sarah é compreendida por cada um de uma maneira diferente.”

    Enquanto Tom é um rapaz conservador e totalmente parecido com figuras que já conhecemos anteriormente nos cinemas — e até mesmo na vida real, o cineasta explica que Sarah foi criada para ser diferente. Para confrontar o espectador e fazê-lo refletir. “A ideia era justamente que a Sarah fosse uma criatura livre. Sem gavetas. Sem rótulos. Algo que se assemelha à androginia, à não-binariedade... Lembro de pensarmos muito nas personagens da Tilda Swinton. Ela tem essa energia meio andrógina, imprevisível, profunda e inquieta... Algo em suas performances te deixa com uma pedra no sapato. E isso é sensacional.”

    A princípio, a premissa inicial de Flush partiu de Nicolas Prattes, e Côrtes ficou responsável por amadurecer a ideia. Enquanto escrevia, o roteirista ainda não tinha noção da significância social que seu texto estava trazendo para as telonas. "Quando se está escrevendo algo, às vezes não temos total noção ou consciência da importância daquilo. Simplesmente estamos deixando a criatividade fluir. Só depois de pronto percebemos que o projeto ganha vida própria, e toma suas próprias proporções”, afirma. “A ideia de discutir gênero, liberdade, vulnerabilidade, rejeição, tudo dentro de um banheiro, em uma noite só... Tudo me parecia muito intenso e catártico. E ficamos cada vez mais envolvidos e sentindo que tínhamos algo grandioso nas mãos.”

    Flush teve alcance internacional e conquistou prêmios

    O filme, que ainda não está disponível nos cinemas brasileiros, causou grande impressão em festivais internacionais e recebeu prêmios como Melhor Roteiro Original, Melhor Dupla de Atuação e Melhor Curta-metragem no Indie Short Fest, em Los Angeles. Além disso, também foi selecionado como Melhor Curta Metragem no Queer X Film Culture Festival, Melhor Filme Internacional no Venice Shorts Film Festival, e teve exibição no Vancouver International Film Centre, no Canadá. Durante o bate-papo, João Côrtes contou como se sente, enquanto artista brasileiro, em levantar discussões tão importantes sobre a comunidade LGBTQIA+ em outros países.

    “São muitas sensações misturadas! É um orgulho e uma satisfação absurda. Nunca imaginamos que Flush ia fazer o sucesso que está fazendo, e que ia conectar e emocionar tantas pessoas, de culturas completamente diferentes! Quando estávamos na pré-produção, pensando e discutindo a importância desse projeto, o senso de responsabilidade só aumentava. Principalmente por sermos artistas do Brasil, vivendo nesse momento da humanidade.”

    "Sabemos que o Brasil é o país que mais mata membros da comunidade LGBTQIA+", explica João Côrtes

    O curta-metragem menciona brevemente a situação política brasileira, e o cineasta ainda pontua a necessidade de usar a arte como voz para grupos LGBTQIA+ em território nacional. “O Brasil está atravessando momentos obscuros, e quando se fala em diversidade, sabemos que o Brasil é o país que mais mata membros da comunidade LGBTQIA+ no mundo. Nosso filme já não era só um filme. Era uma manifestação urgente de resistência. De luta. De discussão. Existe uma sensação de dever cumprido, mas ao mesmo tempo, um impulso de energia para criarmos cada vez mais. É gostoso receber o feedback de artistas do mundo todo sobre nossa criação.”

    Flush cumpre o papel de tirar pessoas conservadoras de sua zona de conforto, e como artista, João Cortês exercita frequentemente a atitude de ouvir o outro, independente da diferença de opiniões. Ao fazer com que duas pessoas com vivências tão distintas conversem por algumas horas, o filme confronta a polarização de opiniões e mostra a importância de sair da própria bolha. “Faz parte do meu trabalho como comunicador, como ator, como roteirista, como diretor, fazer justamente o que grande das pessoas não está disposta: Se colocar no lugar do outro, e dizer como é a experiência."

    Cortês continua: “Como artista eu sinto o dever e a obrigação para com a minha sociedade, e o meu país, de levantar discussões, de questionar, de incomodar para gerarmos reflexão, e de continuar empurrando a barra do que é sermos verdadeiramente livres. Na geração atual da humanidade que estamos vivendo, nunca foi tão importante tocar nas nossas feridas. Levantar as bandeiras. Legitimar as identidades."

    Primeiro longa-metragem de João Côrtes
    ítalo Gaspar

    Embora Flush tenha sido um sucesso, o ator tem um projeto ainda maior para lançar nas telonas brasileiras. João Cortês dirigiu e escreveu o longa-metragem Nas Mãos de Quem Me Leva, estrelado por Fernanda MarquesDaniela Galli e a veterana Neusa Maria Faro. Produzido também de forma independente, o filme também está inscrito em festivais internacionais e recentemente venceu o prêmio de Melhor Filme no New Cinema Film Festival, em Lisboa.

    Nas Mãos de Quem Me Leva conta a história de Amora, uma jovem de 20 anos que perdeu os pais e mora com a avó, com quem tem uma relação conflituosa. Quando se apaixona por um homem mais velho, vive experiências que a fazem entender seu lugar no mundo, assim como descobre que o próprio destino quem faz é ela. O filme tem como referência produções como Juno e Azul é a Cor Mais Quente, por terem mulheres tão inspiradoras, fortes e, ao mesmo tempo, vulneráveis, como protagonistas. João Côrtes conta como essas obras o influenciaram a criar Amora.

    “[São] filmes muito humanos, que abordam a beleza dos sentimentos mais sensíveis, mais delicados. Que são preenchidos de nuances, de sutilezas e isso tem muito a ver com a direção e as atrizes. Quando terminei o roteiro, sabia que havia escrito um filme de drama sobre empoderamento feminino. Além de falar sobre independência, liberdade, sobre assumir nossas escolhas, sobre acreditar em si mesmo."

    Com a presença de tantas figuras femininas, que possuem diferentes ligações com a personagem Amora, Cortês revela de que forma seu novo filme se conecta com mulheres da vida real. “Acho que a reflexão reside em como lidamos com as nossas relações, como podemos aprender com elas, e evoluir. Mas também em como lidamos com nossas dores, traumas, lutos, expectativas, projeções, medos… E o quanto estamos dispostos a trabalhar tudo isso dentro de nós. É um filme sobre o processo de amadurecer, de crescer, de cair e levantar de novo quantas vezes for preciso.”

    Quanto aos projetos futuros, João Côrtes pretende continuar apostando em novas funções em sua carreira. O ator escreveu e gravou o curta intitulado Lucidez, pertencente à série Crônicas da Pandemia, desafiando-se na experiência de estar por trás das câmeras ao lado do irmão Gabriel Côrtes — que esteve na direção de fotografia de Flush. No momento, o cineasta está concluindo o roteiro de seu segundo longa, o qual pretende manter o nome em segredo até estar finalizado.

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