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    Macabro: Marcos Prado fala sobre paralelo entre crimes reais dos anos 90 com questões atuais da sociedade (Entrevista)
    Por Barbara Demerov — 28 de jul. de 2020 às 13:12
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    Produção que mescla suspense e drama estreia em cinemas Drive-In nesta semana.

    Macabro, do diretor Marcos Prado, é um thriller de suspense ambientado nos anos 90 e baseado em fatos assustadores. Inspirado na história dos irmãos Ibraim e Henrique de Oliveira, denominados "Irmãos Necrófilos", o filme já foi exibido na 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e Festival do Rio 2019, além de ter integrado a competição oficial do Festival de Austin, no Texas, e premiado na categoria Dark Matters.

    Na trama, o sargento Téo (Renato Góes) é destinado à missão de encontrar os irmãos Oliveira, que mataram dez pessoas em Nova Friburgo. Ele percebe que o julgamento da imprensa, polícia e sociedade local é fundamentalmente racista e passa a ter dúvidas sobre a condenação de um deles.

    Macabro é o primeiro longa-metragem a ser lançado no circuito de Drive-Ins em São Paulo e Rio de Janeiro a partir desta terça-feira (28). Aproveitando a ocasião, o AdoroCinema entrevistou Marcos Prado. Em pauta, a conversa abordou a origem do projeto do diretor - que já tem mais de oito anos -, a ideia de transportar um caso dos anos 90 com temáticas atuais e mais.

    Sobre a escolha do título, Prado explica que as diversas reportagens que leu durante a pesquisa do filme já lhe acenderam o caminho: "Escolhi 'Macabro' a partir de uma série de textos que li no jornal Voz da Serra. Gosto de nomes de apenas uma palavra, como os títulos de meus filmes Estamira e Curumim. Eu sentia que precisava achar apenas uma palavra e, nas reportagens, esta palavra estava sempre em destaque junto das manchetes. Fiquei na dúvida no início, pois macabro tende a remeter mais o gênero terror que o suspense, mas acabou que este era o título ideal".

    CONSTRUÇÃO DE HISTÓRIA QUE MESCLA SUSPENSE E DRAMA

    "Durante a criação das camadas paralelas que o filme traz, eu fiquei me questionando. 'Por que os irmãos (ou apenas um deles) cometeram aqueles crimes bárbaros?' Obviamente, a loucura não se explica. Você não vai encontrar uma razão óbvia ou lógica para justificar. Então, eu quis desjustificar e distribuir a responsabilidade daqueles crimes para todos os personagens. Não há nenhum herói na história. As únicas pessoas boas e inocentes são as mulheres - que são as vítimas", afirma o diretor.

    Prado acompanhou os casos na época e, desde então, tinha em mente a ideia de abordar o caso dos Irmãos Necrófilos na telona. Uma vez que já possuía os direitos do filme e seguia com a extensa pesquisa da história, foi procurado pelo advogado de Henrique, condenado a 49 anos de prisão. "O advogado me pediu para ter muito cuidado para não recondenar Henrique, pois, dos 10 crimes, ele foi processado em 3 deles. Um ele foi absolvido, outro não havia provas que pudessem condená-lo, e o último incluía as mudanças de depoimentos feito por uma vítima que sobreviveu. A minha percepção é de que condenaram alguém porque isso tinha de ser feito após um clima de histeria coletiva. A população daquela região ficou muito assustada com os assassinatos; 70% das famílias se mudaram e havia uma lenda de que as famílias que permaneceram deixavam pratos de comida em suas portas para que os irmãos não entrassem em suas casas. Havia um clima quase sobrenatural ali, especialmente se você ler as reportagens da época," diz.

    Prado também considerou essencial abordar outras questões em seu filme; em grande parte, temáticas que permanecem atuais e também não possuem uma solução clara. "Quando eu analisei a condição psicológica e coletiva que fez parte da condenação de Henrique após a morte de Ibraim, pensei em construir estes motivos no filme. Então, inseri feminicídio, racismo, fanatismo religioso... Ingredientes da nossa própria realidade fora daquele microcosmo. A partir daí, construí o protagonista Teo, que sai de outro evento real (a morte de um inocente pela polícia que estava com uma furadeira na mão, não uma arma). Os eventos de Nova Friburgo e do policial ocorreram em épocas diferentes, mas eu quis uni-los para construir uma situação em que Teo está vivendo uma questão jurídica e outra de consciência. Na vida real, o soldado que matou o jovem com a furadeira foi absolvido. Na vida real, o policial do BOPE que capturou Ibraim com cinco tiros também foi absolvido alegando legítima defesa - podia ter dado um tiro, mas deu cinco", conta o cineasta.

    LANÇAMENTO EM UM CIRCUITO DIFERENTE

    Sobre o lançamento de Macabro diretamente nos cinemas Drive-In, Prado relembra: "Quando este movimento começou, pensei: 'Quando que poderíamos lançar o filme após a pandemia? Não sabemos quando isso vai acabar e estou começando a gostar da ideia de Drive-In'. Acredito que essa é uma ótima opção para o momento atual, um alento para quem está em casa. Assim como o cinema, o Drive-In é um evento, uma experiência interessante e, claro, uma forma de respirar um pouco - até porque não é possível ir às salas de cinema agora. Caso não haja uma vacina ou tratamento eficaz após a exibição do filme neste circuito, lançaremos Macabro no streaming", conta o diretor.

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