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    Partida: "As pessoas estão muito sensíveis aos sonhos e às utopias", diz Caco Ciocler (Entrevista exclusiva)

    Documentário chega ao streaming em 18 de junho e aborda a polarização política no Brasil.

    Partida não é o primeiro projeto com direção de Caco Ciocler, mas certamente já é um dos mais interessantes de sua carreira. Filmado em 2018 após a eleição de Jair Bolsonaro, o filme mescla ficção com documentário e aborda a contrastante ramificação política que ainda persiste fortemente no Brasil.

    Na trama, a atriz Georgette Fadel resolve que entrará na disputa pela presidência em 2022. Para encontrar inspiração, ela vai atrás do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica. Na improvável companhia de um empresário rico, Léo Steinbruch, Georgette sai em uma viagem de ônibus na fantasia de conseguir passar o réveillon com Mujica e alinhar seus anseios à presidência.

    Com estreia marcada via streaming para o dia 18 de junho, Partida se mantém mais atual do que nunca ao retratar, através de dois personagens de diferentes ideologias, questões que envolvem a dificuldade do diálogo e a importância do afeto - mesmo que diante de um cenário político aparentemente sem uma solução no horizonte.

    O AdoroCinema conversou com Caco Ciocler sobre todos estes pontos que permeiam o filme. Leia a entrevista completa abaixo:

    AC: Apesar deste filme ser um documentário, você flerta com a ficção, com essa história de um grupo de pessoas diferentes que se une para encontrar Mujica. Essas leves transições foram pensadas antes ou você descobriu o que o filme seria durante a produção?

    Caco Ciocler: No início eu tinha umas quatro situações pensadas, mas não fazia ideia do que aconteceria. Se seria uma viagem onde não aconteceria nada de interessante, o quanto eu deveria provocar as coisas para que acontecessem ou não... Mas, obviamente, como eu sou ator e algumas pessoas da equipe também são, eu sabia que poderia contar com essa arma. Sabia - e falei isso para eles - que, talvez, fosse interessante dar vazão para uma certa ficção, nem que fosse para que pudéssemos intensificar algumas atitudes, expressões ou provocações. Sempre desconfiei que, se elas fossem muito forçadas, não funcionariam. O mais legal é deixar as coisas acontecerem sempre tendo em vista que estávamos fazendo um filme, que a câmera estava ali registrando tudo. Neste sentido, o acordo estava bem claro de que era uma ficção calcada na realidade.

    AC: A estreia de Partida em um momento como este no Brasil, que não só engloba política como questões de saúde, faz com que o filme ganhe um aspecto até um pouco nostálgico, pois acredito que vocês nem imaginariam que 2020 seria um ano assim. Você, quando pensa no filme, que fala de sonhos e ideias, acha que ele transmite ainda mais essa visão para os dias atuais?

    Caco Ciocler: Eu acho que sim e não ao mesmo tempo, porque essa é uma característica do cinema. O cinema é um processo demorado, mas em nosso caso o processo foi muito rápido: a ideia do filme veio em setembro, em outubro filmamos a primeira cena e em dezembro, filmamos tudo em questão de dias. Mas estamos lançando quase dois anos depois. O cinema é isso: quando ele chega ao público, o momento no qual ele foi feito é muito anterior. No caso de Partida, foi exatamente isso: filmamos em um momento de expectativa, sem os dados que temos hoje. A gente não sabia se as coisas ditas em campanha seriam realizadas ou não. Se o filme fosse feito hoje, teríamos dados mais concretos. Durante esse um ano e meio eu já tive a sensação de que o filme envelheceu, depois não... Ele ganha significados impensáveis, como, por exemplo, o próprio confinamento dentro de um ônibus. Falando em como estamos hoje, o filme simbolicamente tem uma força que não tinha na época.

    Muita coisa mudou? Sim, e não. O país continua dividido, essa rachadura e a dificuldade de conversa continuam aí. A necessidade de afeto entre esses dois lados continua também. E concordo com você: para além da questão política que o filme traz, o grande tema de Partida é a utopia. Um time que estabelece uma missão em comum, que é a de encontrar o Mujica - tão ingênua e pueril como qualquer utopia. Isso sim eu acho que ganha um contorno bem mais significativo para o filme ser lançado hoje. As pessoas estão muito sensíveis aos sonhos, às utopias e projeções, ao mundo pós-pandemia e a essa consciência de que este mundo será construído por nós. Somos nós que temos de ir atrás do que sonhamos.

    AC: Como foi trabalhar com Georgette e quais foram os fatores negativos e positivos de se trabalhar com uma colega?

    Caco Ciocler: Sou muito fã da Georgette há anos. Eu sabia que o filme dependia muito da condução dela, de seu carisma. Foi delicioso, mas é claro que tivemos algumas crises. Todos nós ali vivemos uma viagem muito exaustiva. Até perdemos a noção se aquilo era realmente interessante enquanto cinema ou se só era legal para quem estava ali, vivenciando tudo aquilo. Não é à toa que colocamos as sessões de análise no filme. Fazíamos isso todos os dias para nos ajudar a fazer ajustes e a pensar em resoluções.

    AC: As discussões de Georgette e Léo são muito emblemáticas e atuais. Acha que hoje o diálogo poderia ser menos exaltado do que no filme, ou pior?

    Caco Ciocler: Acho que seria parecido. É engraçado, porque fizemos algumas sessões em festivais, como na Mostra SP. A parte do público mais de esquerda ia com a Georgette. Eles riam do Léo - enquanto a parte de direita ria da Georgette, via no Léo uma espécie de herói. É louco, porque o filme não tem a pretensão de solucionar este embate. E quando você mostra o mesmo filme para públicos diferentes, cada um vai se identificar com o que quiser na história. O que o filme faz e sempre foi minha ideia, era com relação a como nossos relacionamentos estavam naquela época: grupos de família se desfazendo, ninguém escutava ninguém... Era uma situação até performática dessa briga, e não é à toa que brincamos com isso no filme. O que o filme faz é esgotar esse lugar. Como as pessoas estavam no ônibus e não tinham como sair como se fosse num grupo de Whatsapp, eu queria ver o que poderia vir dali.

    E, querendo ou não, o Léo foi o grande companheiro de Georgette naquela viagem. Inclusive afetivo, pois eles foram grandes parceiros. Partida dá essa resposta: para além da resolução de um embate político que talvez seja impossível, existe um afeto que embasa toda e qualquer relação. Temos que prestar atenção, pois todos nós estamos no mesmo ônibus. Podemos discordar, mas o ônibus não pode se desgovernar e bater. É preciso fixar um objetivo em comum, encontrar uma utopia em comum, e ir atrás dela, mesmo que discordando pelo caminho. Não existe outra solução possível.

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