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    Telinha vs telona: Entenda a questão que envolve a Universal e a rede de cinemas AMC
    Por Barbara Demerov — 30 de abr. de 2020 às 13:11
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    Acredite: nós estamos testemunhando o início de uma grande mudança no cenário cinematográfico.

    Tudo começou com a pandemia do coronavírus. O fechamento temporário (e por tempo indeterminado) das salas de cinema ao redor do mundo desencadeou, assim como em todos os âmbitos econômicos, uma outra crise para andar de mãos dadas com a da saúde. Todos foram pegos de surpresa.

    Mas, diante da crise do século, o planeta possui um alento chamado tecnologia. Desde meados de março, o mundo do entretenimento passou a lidar com diferentes problemas diante deste cenário completamente novo e desafiador. Com as salas de cinemas fechadas por uma razão mais do que essencial, a pergunta rapidamente recaiu para esta: "Como as pessoas irão consumir os lançamentos esperados para 2020?". E a resposta jogou uma luz para a importância que o cinema ainda possui nas mentes de quem vende e também de quem consome: "O melhor a se fazer é esperar tudo isso passar".

    Como aparentemente ainda não é financeiramente viável lançar filmes diretamente via streaming (tais como Viúva-Negra ou Um Lugar Silencioso - Parte II), a maioria das grandes produtoras/distribuidoras optaram por postergar tais lançamentos. São poucos os títulos agendados para um futuro próximo, vide Mulher-Maravilha 1984 em agosto de 2020. Mas é fato que o cinema permanece como um grande "evento" na vida de quem trabalha com entretenimento. Além de representar o momento em que nos fechamos em uma caixinha e perdemos a noção do tempo, quem trabalha do lado dos negócios ainda considera essa a melhor oportunidade de se fazer dinheiro.

    Mas não são todas as empresas que pensam deste modo. Juntamente com a movimentação de praticamente todas as grandes majors de cinema, a Universal Pictures também adiou seus principais lançamentos: Velozes e Furiosos 9 só será lançado em 2021 (uma das maiores janelas até o momento) e 007: Sem Tempo para Morrer (que, por sua vez, não é da Universal nos Estados Unidos) está previsto para chegar às salas de cinema em novembro em nosso país.

    Contudo, há um título que anda chamando bastante atenção da mídia e dos cinéfilos. A animação Trolls 2, que chegará ao Brasil apenas em 08 de outubro, já estreou nos Estados Unidos em um formato que já não é novidade em tempos de Netflix, mas que ainda assim causou histeria no país: via aluguel on demand.

    Praticamente um experimento, a escolha da Universal em lançar a sequência de Trolls diretamente no mercado digital gerou uma boa receita à empresa: cerca de 100 milhões de dólares em menos de um mês, ultrapassando o valor que o antecessor gerou de renda nos cinemas durante (pasme!) mais de cinco semanas em cartaz. Ou seja: financeiramente, deu certo.

    Porém, após ver que os resultados foram satisfatórios em tempos de pandemia e de necessidade de adaptação ao novo, o CEO do estúdio Universal, Jeff Shell, afirmou ao Wall Street Journal algo que imediatamente já indicou uma mudança no mundo do cinema que dificilmente poderá ser revertida daqui para frente. "Assim que os cinemas reabrirem, nós planejamos lançar nossos filmes em ambos os formatos", disse ao jornal.

    Diante desta declaração, a rede de cinemas norte-americana AMC respondeu: "Tal declaração assume que nós vamos aceitar silenciosamente uma perspectiva remodelada de negócios sobre como estúdios e exibidores devem interagir, sem preocupação alguma da Universal sobre como estas ações nos afetam. Isso também presume que os produtos da Universal podem ser lançados on demand e nos cinemas simultaneamente, sem modificações no atual acordo econômico entre nossas duas empresas", afirmou Adam Aron, presidente da rede.

    ENTENDENDO MELHOR A GRAVIDADE DA AFIRMAÇÃO

    Essa não é, nem de longe, uma resposta pacífica. Mas o fato é que as redes de cinemas já batem de frente com a tecnologia do streaming há tempos. Um atual exemplo disso é a Netflix ter tentado comprar uma rede de cinema para exibir O Irlandês, de Martin Scorsese. Sem apoio de nenhum lado, o serviço conseguiu apresentá-lo num tradicional teatro da Broadway para que pudesse concorrer ao Oscar 2020.

    O embate entre o que sempre funcionou desde o início da história do cinema (as salas coletivas dedicadas a exibir filmes) e o que demonstra o quão poderosa é a tecnologia (a capacidade de o espectador ver um filme inédito em sua própria casa, sem o auxílio de uma grande tela ou som poderoso) é real e já acontece há algum tempo.

    Discussões saudosistas à parte, o problema é que, com a crise do coronavírus, tudo foi elevado à décima potência. Por um lado, é interessante observar que as medidas da Universal condizem com o atual momento: a empresa aproveitou a onda de quarentena e viu que, diante da falta de opções, é possível assistir a lançamentos em casa - assim como ocorreu com RomaHistória de um Casamento e o próprio O Irlandês.

    Nada de novo aqui. Ironicamente, as mesmas medidas que a Netflix já toma há alguns anos - desde a inserção de séries originais às grandes premiações, o que deu impulso positivo para a visibilidade da empresa desde Orange is the New Black -, todas duramente criticadas por redes de cinemas e profissionais do mercado há meses, hoje representam uma real solução diante desta crise sem precedentes.

    Uma solução como essa certamente deve evitar com que grandes produtoras/distribuidoras possam falir diante da persistência de adiamento de seus inúmeros filmes - mas o mesmo não pode ser dito sobre as empresas que exibem filmes na tela grande ao redor do mundo. Este é um cenário muito delicado e tais declarações entre distribuidora vs exibidor apenas torna tudo ainda mais complicado.

    Ao exibir algumas produções diretamente via digital nos EUA, como Emma e O Homem Invisível, a Universal encontra certo equilíbrio com relação aos maiores lançamentos do estúdio, como 007 e Velozes e Furiosos. Ou seja: apesar de perceber que o mercado digital é promissor, ainda não existe "coragem" suficiente para descartar completamente a presença de filmes numa sala de cinema. Para a Universal, filmes com tamanho peso não se encaixam on demand - pelo menos, não ainda. E, como bem destacou o CEO da AMC, essa não é só uma questão de desistir do cinema: há razões contratuais que devem ser respeitadas.

    O QUE NOS ESPERA NO FUTURO?

    Após a declaração da AMC, um porta-voz da Universal respondeu: "Nós acreditamos na experiência cinematográfica e não fizemos qualquer declaração contrária sobre o tema. Como dissemos anteriormente, mais para frente esperamos lançar nossos próximos filmes direto nos cinemas, assim como no formato premium video-on-demand quando este formato de distribuição fizer sentido."

    Diante da crise que afeta especialmente os exibidores de cinema, incluindo a própria AMC nos Estados Unidos (que pode declarar falência caso o distanciamento social persista por muito tempo), fica muito difícil encontrar uma resposta pronta para elucidar o que está acontecendo neste momento. Mas é importante reforçar que a nova "guerra" da AMC contra a Universal representa algo que já está sendo discutido há anos: A tela grande sobreviverá à televisão? Essa é uma pergunta com resposta de múltipla escolha, em que o veredicto final permanece em aberto.

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