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    Festival de Berlim 2020: "Fiz este filme querendo que ele se passasse no Brasil", diz Karim Aïnouz sobre Nardjes A. (Entrevista exclusiva)
    Por Barbara Demerov — 26 de fev. de 2020 às 18:07
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    Conversamos com o diretor sobre seu novo documentário selecionado para a mostra Panorama.

    Nardjes A. foi selecionado para a mostra Panorama do 70º Festival de Berlim. A obra traz a jovem Nardjes como protagonista de uma situação real e que acontece desde fevereiro de 2019: os protestos semanais na Argélia contra o governo atual.

    Descendente de argelianos, o diretor Karim Aïnouz (A Vida Invisível) assina este trabalho que muito tem a ver com sua visão pessoal da questão política no país - e que também se relaciona com o Brasil. Conversamos com o diretor sobre Nardjes A. durante sua visita à Berlinale. Confira:

    AC: Você diria que este filme tem uma aproximação mais pessoal ou profissional da sua parte?

    Ainouz: Além de contar a história desta personagem, do que está acontecendo, o filme traduz um pouco o meu encantamento com este mundo novo que encontrei na Argélia. Acho que ele possui algo que o cinema tem de sobra: um poder que você não pode controlar. Há um certo deleite em ter encontrado aquele povo, aquele lugar, aquela ebulição; então eu acho que tem algo muito pessoal no DNA do filme mesmo. Ele também é um filhote de um documentário que eu também fiz na Argélia. Diferente deste, que ainda está em fase de edição, Nardjes A. não é autobiográfico, mas eu acho que ele tem o encantamento da descoberta. 

    AC: E já que você pegou o gosto por documentários, você pretende seguir por este caminho?

    Aïnouz: Na verdade não tem muita distinção - é claro que documentário é diferente de ficção, mas o que eu gosto muito é de personagens. Me interesso muito por este desenvolvimento de contar histórias. A Eurídice (de A Vida Invisível) é tão real quanto a Nardjes A., por exemplo, e ambos os filmes falam sobre questões reais que estão acontecendo neste momento. Aproveitando que estamos na Alemanha, na semana passada ocorreu o assassinato de 10 pessoas realizado por um racista no sul do país. E o curioso disso tudo é que parece que sabemos mais sobre o assassino do que sobre as vítimas. Para mim é uma loucura. É muito importante que falemos sobre quem se foi, quem são essas pessoas. Então, Nardjes A. vem muito dessa minha insatisfação que a mídia hegemônica não dá conta de fazer hoje em dia: que é o fato de contar histórias de pessoas que resistem, que sofrem e que reagem a algo negativo. É olhar para este local de resistência e enxergar em Nardjes uma espécie de farol. O documentário vem muito como essa possibilidade de se jogar luz sob questões que existem no contracampo de onde estamos vivendo.

    AC: Como começou a sua aproximação com a Nardjes?

    Aïnouz: As manifestações na Argélia começaram no dia 22 de fevereiro de 2019. Me disseram para eu não ir, porque seria perigoso. Mas desde o início tudo foi planejado para ser pacífico. De fato o regime tentou nas primeiras semanas criar qualquer tipo de conflito. Soltaram pessoas da prisão para jogar pedra, criar confusão... Em uma dessas manifestações, eu realmente fiquei com medo e me senti muito triste no fim do dia, porque queria estar ali vendo as pessoas e vivendo aquilo, não filmando tudo de longe. Comecei a pensar em uma história, em uma personagem. Pedi ajuda a uma amiga que trabalha com casting, mas pedindo para que encontrássemos alguém que fosse ela mesma, não interpretasse alguém que não é. Quando eu conheci Nardjes, foi dois dias antes de começarmos a filmar. Intuitivamente, achei que ali estava uma pessoa que poderia carregar um filme como esse. Ela encarnou a história da Argélia de uma forma revolucionária. Sua trajetória, assim como de sua família, era a história daquele país.

    AC: Como você acha que o documentário se conecta com a realidade atual do Brasil?

    Aïnouz: Fiz este filme muito por uma frustração de que não estamos tomando as ruas no Brasil. Somos insultados diariamente por um governo que, apesar de ter sido eleito democraticamente, é uma aberração. Eu entendo porque não estamos tomando as ruas: ainda estamos num estado de choque. Nardjes A. começou a ser filmado dois meses após o presidente tomar posse. Eu precisava encontrar uma luz em algum lugar, que não estava no Brasil naquele momento. Aos poucos vamos começar a reagir, porque é muito sério o que está acontecendo. Mas acho que o filme dialoga por oposição, neste sentido de vermos um povo que é muito consciente do que é ser um cidadão, e um país que mudou muito para ser independente. Fiz este filme querendo que ele se passasse no Brasil. Mas, quem sabe, ele não possa inspirar a ser.

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