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    Festival de Berlim 2020: "Vivemos momento de simplificação de questões, como se só existisse um lado ou outro", afirmam diretores de Todos os Mortos (Entrevista exclusiva)
    Por Barbara Demerov — 25 de fev. de 2020 às 13:17
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    Filme representa o Brasil na competição pelo Urso de Ouro nesta 70ª edição!

    Todos os Mortos, dirigido por Marco Dutra e Caetano Gotardo, estreou neste final de semana na Berlinale 2020. Ainda sem data para chegar no Brasil, o filme aborda temas como escravidão e racismo e encontra um forte peso histórico e cultural. Leia a nossa crítica aqui.

    Aproveitando a passagem dos diretores para divulgar o filme pela primeira vez em Berlim, o AdoroCinema conversou com a dupla sobre o filme, a mensagem que ele carrega e a parceria de anos que resultou neste filme em conjunto. Confira abaixo:

    AC: Todos os Mortos é a comunhão da parceria de vocês, que já existe há um bom tempo. Podem me falar mais sobre como a ideia do filme surgiu?

    Dutra: Somos muito amigos desde que entramos na ECA-USP, em 1999, junto com a Juliana Rojas. Desde então a gente tem se cruzado muito em projetos, de curtas a longas, como As Boas Maneiras, menos em co-direção. A gente namorava essa ideia de fazer algo juntos. Aí, um dia eu comecei a escrever essa história que, em termos de formato, tinha algo do universo classe média/doméstico que eu já gostava de explorar em outros filmes, só que tinha o cenário de época. Eu queria entender um pouco a origem disso. Logo compartilhei com o Caetano e ele deu várias ideias de volta. Fomos desenvolvendo tudo juntos desde que o projeto começou, em 2012.

    Gotardo: Foi meio que de imediato. Quando o Marco me propôs a ideia eu já respondi com ideias que ele também gostou, e assim foi. Não teve um momento de "vamos dirigir juntos?". Foi muito natural, já era algo dos dois. Acho que tem uma coisa que é: o que construímos em 21 anos de amizade, com tanta convivência, ver tantos filmes e conversar tanto sobre isso, a gente desenvolveu um tipo de sintonia que é fruto de tudo isso. Tem muita coisa que a gente se entende sem se falar. Por exemplo, a questão de dirigirmos juntos. Isso se espalha por todo o projeto. É uma comunhão mesmo. Não há nenhuma divisão de quem fez o que na direção ou roteiro. 

    Dutra: Ao longo destes 8 anos, muitas ideias que estão no filme são ideias que foram aparecendo conforme mergulhávamos mais em suas camadas históricas e sociais. O filme que existe hoje é muito diferente da primeira ideia que tivemos; na sinopse é a mesma coisa, mas na experiência ele foi muito alimentado pelos parceiros que nos ajudaram.

    AC: Qual a expectativa de vocês para lançar este filme no Brasil, diante de todas as mudanças políticas que ocorreram desde 2012, ano em que o projeto começou?

    Gotardo: O que está acontecendo no Brasil há algum tempo, e que também foi fundamental para o processo deste filme, é que várias discussões sobre raça, classe e gênero ganharam uma presença na vida cotidiana das pessoas com muito mais complexidade, muito mais camadas, e teorias um pouco antigas sobre uma suposta democracia racial foram sendo questionadas e desconstruídas. Muitos clichês de representação foram colocados em xeque e, no campo do cinema, muitos realizadores negros estão fazendo mais filmes. Tudo isso ampliou o olhar sobre várias questões e tornou-se algo mais presente. Isso é muito bom, nos alimentou muito no processo. Nos questionamos em muitos pontos. Estamos muito ansiosos para qual o tipo de conversa o filme gerará no Brasil. A partir da exibição aqui na Berlinale, Todos os Mortos já existe no mundo; e ele existe para criar conversas, questionamentos e reinterpretações.

    Dutra: Existe uma lógica sobre o gênero de época que é como as coisas são representadas. Como as pessoas falam, se vestem, como a história é representada. Se ela é mais ligada à nostalgia ou se é para desconstruir algo... Estamos aqui com um filme de época não para fazer uma reconstituição física e milimétrica do passado - sem julgamento a este tipo de filme. Mas sabíamos que estávamos indo nesta direção por um motivo contemporâneo.

    AC: Ainda não é possível saber o que o público vai achar de Todos os Mortos, mas o que vocês acham que o filme vai trazer à tona em termos de reflexão?

    Gotardo: Este é um filme cheio de questões e dúvidas, muito mais do que de respostas. Nossos filmes tendem a ser assim, com questões e não com certezas. É um filme que tenta cavocar, olhar para coisas que realmente ainda não foram resolvidas. Sobre personagens que não têm um chão firme sob os pés. Elas estão tentando de diferentes maneiras se encontrar numa sociedade, numa época, numa cidade que também está em constante reconstrução. Não estamos afirmando nada, por isso queremos que as questões que estão na tela tragam diálogo e reflexão. Estamos em um momento de simplificação de algumas questões pela simples oposição, como se só existisse um lado ou outro em relação a tudo. Todos os Mortos tenta muito lidar com o que está no meio. Claro, ele lida com oposições e contrastes, mas eles são cheios de contradições - sem tentar aliviar. Não é um filme que busca um relativismo absoluto, nada está apaziguado. As coisas são difíceis. O filme pode criar um tipo de discussão que recaia nas complexidades no sentido de não se ater apenas aos dois polos opostos, mas no quanto existe entre ambos.

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