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    Açúcar: Maeve Jinkings fala sobre as semelhanças que o filme e sua personagem têm com Corra! (Entrevista exclusiva)
    Por Barbara Demerov — 02/02/2020 às 09:45
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    "É um trabalho que me fez olhar para a nossa história", afirmou a atriz.

    Dirigido por Renata Pinheiro e Sergio Oliveira, o filme Açúcar mescla tons de realismo fantástico e elementos contemporâneos de relações coronelistas entre senhores de engenho e escravos, encaixando-os em questões como alta cultura contra a cultura popular e brancos contra negros. 

    Protagonizado por Maeve Jinkings na pele de Bethânia, herdeira de um engenho, o longa está em cartaz nos cinemas brasileiros e também encaixa elementos sobrenaturais em sua narrativa que quase não possui diálogos.

    Em entrevista exclusiva para o AdoroCinema, o trio comentou sobre as questões históricas e sociais que foram primordiais para compor o longa. Leia abaixo: 

    AC: O filme aborda questões como o fim do colonialismo, sobre a classe média e a dificuldade em encarar o passado como ele realmente foi. Como surgiu a ideia do roteiro?

    Oliveira: Começou com um sonho de Renata, com um barco num canavial. Ela me contou desse sonho e aí começamos a falar sobre engenho. Esse engenho em questão, onde filmamos Açúcar, é de uma parte da família de Renata, em Pernambuco, e é um engenho de fogo morto, que já não produz há muito tempo. O engenho em si ruiu, estava com uma cratera no telhado e sabíamos que iria cair a qualquer momento, com qualquer chuva.

    Então, tivemos urgência de filmar porque começamos a ver muitos elementos ali que tornavam aquele local importante. É uma região fundadora do Brasil, com a cana-de-açúcar em Pernambuco, onde a escravidão dos povos africanos começou a chegar de fato. Isso foi no Pernambuco, Bahia e Rio. É uma região fundadora da pátria que temos, uma nação colonizada pela escravidão.

    Pinheiro: A senhora de engenho, que já foi muito falada na história e na literatura, sempre era tratada como uma pessoa doce (o que nunca foi), amável, etc... Nós queríamos mostrar quem essa senhora é de verdade em Açúcar.



    AC: Vocês desconstroem essa figura.

    Oliveira: De alguma maneira, sim. Até a colocarmos num dilema racial, que é crucial dentro do filme. Ela não se vê negra nem branca, embora persista nessa cultura branca, que valoriza muito mais.

    Pinheiro: A construção da personagem vai muito por essa mulher que tem uma herança maldita, por assim dizer, que obriga ela a manter aquele status de senhora de engenho, e ao mesmo é o que mais reprime ela, o que deixa em conflito de identidade. Ela é uma herdeira parda, o filme não explica muito bem de onde vem essa origem dela na família - pode ser de alguma traição. Ao mesmo tempo que é o lugar de sofrimento, é o lugar da resistência por parte desses imigrantes que vieram, que lutavam pela liberdade. A tensão está lá até hoje, e queríamos que o filme passasse esse ruído temporal, a energia que passa por aquele espaço. Se você vai para um lugar como aquele com uma consciência histórica, é difícil ficar tranquilo.

    AC: Maeve, como você construiu essa personagem?

    Jinkings: Primeiro, entendendo essas questões que os diretores colocaram no roteiro, essa questão histórica. Eu sempre entendo essa personagem numa chave simbólica. Para mim, é como se ela fosse uma síntese do brasileiro médio. Nem falo do ponto de vista racial - há quem diga que não existe branco no Brasil, mas muitos poderão se ofender com essa afirmação. Como a Renata falou, chegar naquele espaço com a consciência história... te confesso que me senti falando com meus ancestrais. E claro, aquela região possui uma mitologia, a própria cultura desses descendentes da senzala, os afro brasileiros, fala no ponto de vista deles.

    Estes assombramentos estão presentes nos códigos de horror do filme. São signos que remetem a um contexto histórico. Foi basicamente isso o que me ajudou a compor a Bethânia. E, ao longo de minha vida, eu conheci muitas Bethânias. Há até muitas dentro de mim, na minha história... Afinal, é a história do nosso país. Em algum momento eu também recebi essa herança e reproduzi questões que estão implicadas neste filme; seja com relação a raça, a classe... É um trabalho que me fez olhar para essa história.

    AC: Há algumas pessoas falando que este é um Corra! brasileiro. Concordam com a comparação?

    Oliveira: Eu considero uma honra. Gosto muito deste filme.

    Jinkings: Eu amo este filme e acho que entendo a comparação. Fico pensando agora na Bethânia, essa personagem que chega ao engenho e possui essa docilidade, essa cordialidade quando chega lá... Mas que depois vai se revelando uma pessoa totalmente amarga e agressiva. E a personagem de Allison Williams, do Corra!, tem isso. Ela tem uma candura, com cores leves em torno dela, mas aí ao longo da história vamos nos surpreendendo.

    Pinheiro: Há referências também quando falamos do código do sobrenatural, que está presente nos dois filmes.

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