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    Democratização do acesso ao cinema ao Brasil: É possível? (Análise)
    Por Laysa Zanetti — 10/11/2019 às 10:20
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    O Brasil que o Brasil não vê, a cultura que acende chamas e o cinema independente.

    Dentre todos os temas sócio-políticos que preenchem as páginas dos jornais e dos principais sites de notícias do Brasil, foi o cinema o tema escolhido para a redação do ENEM deste ano. Ou melhor, a “democratização ao acesso” a ele. Isso quase no mesmo momento em que Martin Scorsese se transforma em um tema polêmico ao resolver, veja só, criticar e questionar a toda-poderosa Marvel. Curiosamente (ou não), estes dois temas estão mais ligados do que os envolvidos poderiam inicialmente imaginar, e é sobre isso que viemos conversar hoje.

    Ao todo, de acordo com dados coletados e divulgados pela Ancine em fevereiro, são aproximadamente 3.356 salas de cinema no Brasil — estas, segundo o IBGE, estão espalhadas por cerca de 11% das cidades do país, em sua maioria capitais e grandes centros urbanos, como também comprovam os gráficos e mapas do Nexo Jornal. É natural presumir, neste contexto, que trata-se de uma questão de oferta e demanda — as capitais, afinal, concentram o maior índice populacional. Mas há consequências culturais desta concentração, que se faz em dois campos: fisicamente, a rasa inserção do cinema em locais de baixa renda e cidades menores causa um afastamento natural da população a uma forma de cultura que deveria ser das mais acessíveis; na prática, a superlotação de blockbusters que ultrapassam a cota de telas dificulta a própria distribuição de filmes de menor orçamento ou obras mais questionadoras e instigantes — o ponto de Scorsese, aliás, é exatamente esta.

    A questão passa por um exemplo prático e recente: um dos maiores sucessos recentes do cinema brasileiro, Bacurau, de Kleber Mendonça FilhoJuliano Dornelles completou na última quinta-feira (07) 10 semanas em cartaz, tendo alcançado a marca de 700 mil espectadores. Entre 29 de agosto e a primeira semana de novembro, foi de 286 salas (número de abertura) a 48 telas, mas locais como o povoado Barra, que fica na cidade de Parelhas (RN) e é onde Kleber e Juliano rodaram o “faroeste brasileiro” estão fora do mapa no sentido mais literal desta narrativa — segundo conta esta reportagem do El País, a sala de cinema mais próxima fica a 100 km de distância de Parelhas, mas a produção de Bacurau retornou ao povoado pouco antes da estreia do longa em circuito nacional (e após ele ter sido premiado no Festival de Cannes) para que a população pudesse prestigiar o momento em que fez história dentro do circuito artístico brasileiro.

    Victor Jucá/Divulgação
    Bacurau

    E esta é, no fim das contas, a grande questão em torno desta “democratização” do acesso ao cinema. Em seu poderoso artigo para o The New York Times, Scorsese explica que cinema “era sobre confrontar o inesperado nas telas e na vida que ela dramatiza e interpreta, engrandecendo o senso do que é possível na forma da arte”. Este confrontamento é o objetivo primo do que entendemos por arte: trata-se do lugar da contravenção, do lugar do questionamento que abre portas para que o medo dê lugar a uma semente que planta a ideia de que é possível lutar por algo diferente. Mais do que captar a realidade, o cinema existe para eternizar os momentos de transformação e imaginar também que é possível existir algo maior e melhor.

    E justamente por isso que a democratização é mais do que necessária.

    Sua urgência está na importância do exercício do pensamento crítico junto às populações desfavorecidas, e no senso de coletividade que existe dentro da própria experiência de se estar em frente a uma tela de cinema na expectativa de um acontecimento. Em termos práticos, isso quer dizer que são necessários os incentivos de verbas catapultados pela Ancine e pela Lei do Audiovisual — o desmonte da Agência Nacional do Cinema, acima de qualquer outra coisa, é uma disputa ideológica que tem por objetivo vilanizar o necessário anticomodismo que é um dos mais poderosos objetivos do cinema enquanto arte. 

    A crítica do AdoroCinema, Barbara Demerov, pontua:

    “Em um ano como 2019, época em que o Brasil passou a sofrer com censura na Ancine, corte de verbas de produções audiovisuais e até ameaças com base em falta de informação, o tema da redação do Enem se mostra necessário para mostrar a todos que a democratização é uma palavra que deveria ser falada em voz alta mais vezes. A surpresa de milhares de pessoas ao verem que o tema foi ‘democratização do cinema’ (podemos até dizer que foi um choque) só salienta que o alcance da democracia está muito fraco, especialmente no que se diz respeito ao cinema. Muitos dos jovens que dissertaram sobre o tema sequer possuem acesso ao serviço — que é (ou deveria ser) público, mas está presente somente nas maiores cidades do país e em baixo número em regiões como Norte ou Nordeste.

    Apenas 17% da população frequenta as salas de cinema no país, sendo mais de 80% a parcela de pessoas que consomem conteúdo audiovisual em casa. A solução para tal cenário? Não é diminuir o valor dos ingressos ou da pipoca, como muitos comentaram. A possível solução começa por outro lugar, tomando como exemplo a distribuição de renda igualitária. A partir daí, cabe ao Governo dar acesso à população com o que seria a realidade ideal: com cinemas fora de centros urbanos. Mas o que está mais próximo de acontecer é a democratização da informação e o acesso público através da internet — o que inclui serviços de streaming. O acesso está acontecendo por vias paralelas.”

    Divulgação
    Marjorie Estiano e Isabél Zuaa em As Boas Maneiras

    Mas Netflix, HBO Go e Prime Video estão longe de ser a solução para um cinema democrático — o acesso à internet também é limitado nas regiões menos privilegiadas do Brasil —, e justamente por isso o ataque à Ancine segue como um dos mais graves catalisadores de um pensamento que rejeita a importância do cinema nacional (que além de qualquer outra coisa, movimenta a economia e gera empregos). Ideias como a da plataforma Videocamp são, neste contexto, extremamente poderosas, assim a cobertura jornalística ética e responsável dos festivais de cinema — não apenas junto aos festivais de repercussão nacional, mas também às mostras locais e de seleções menores, pois é ali que se esconde o Brasil que o próprio Brasil raramente tem a chance de enxergar.

    Quando falamos em democratização do cinema, não estamos falando apenas da formação de público, mas principalmente de acesso à cultura. Um povo sem cultura é um povo sem história. E o cinema é parte da nossa cultura”, afirma a criadora do Videocamp, Josi Campos, em entrevista concedida ao Estadão. “É muito importante que as pessoas tenham acesso para que se reconheçam na tela, para saberem que suas histórias estão sendo contadas e que elas importam. A diversidade precisa ser registrada.”

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