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    Afinal, a Marvel faz "cinema de verdade"? (Opinião)
    Por Ygor Palopoli e Laysa Zanetti — 02/11/2019 às 10:20
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    De Martin Scorsese a James Gunn, é possível que todos estejam certos e errados.

    Vanity Fair

    Centenas de salas completamente lotadas de espectadores apreensivos, emocionados e nervosos, esperando pelo grande momento no qual Vingadores: Ultimato seria exibido pela primeira vez ao grande público. Em meio às cenas mais marcantes, explosivas e tensas, os fãs gritavam, se debulhavam em lágrimas e abraçavam uns aos outros. Ao fim, aplausos e algumas lágrimas. Isso é cinema?

    Pela narração um tanto poética, pode até parecer que a resposta seja mais óbvia e objetiva do que realmente é. Mas as coisas nunca são tão simples — especialmente tratando-se da arte. Recentemente, cineastas gigantes como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, autores de clássicos inquestionáveis (O Poderoso Chefão, Taxi Driver), levantaram um debate que acabou tomando proporções, no mínimo, contundentes. 

    Para localizar melhor os aflitos, o resumo da orquestra é o seguinte: quando questionado pela revista Empire, no início de outubro, sobre suas percepções a respeito dos filmes da Marvel, Scorsese relatou acreditar que os filmes de heróis da empresa não constituem "cinema de verdade". Dias depois, Coppola fez coro ao companheiro de profissão e foi ainda mais longe, chamando as obras de desprezíveis. Mas quantas problemáticas duas simples declarações podem ter?

    SCORSESE E A CARÊNCIA DO AUTOR

    Não é o cinema dos seres humanos tentando passar experiências emocionais e psicológicas de outros seres humanos.

    Até aí, a frase acima, do próprio Martin, deixava claro seu posicionamento. E, honestamente, existe um ponto coerente nisso. Argumentar contra a posição inicial do diretor seria extremamente fácil — o primeiro parágrafo desta matéria, por exemplo, já seria o suficiente —, mas a arte também precisa ser questionamento. E existem problemas sintomáticos à maneira como a Marvel e a Disney conduzem suas obras.

    Dizer que a Marvel não faz cinema seria um exagero. Negar o papel da Marvel dentro da "era dos monopólios" em Hollywood seria ingenuidade. Então quem está certo dentro do grande circo que se fez ao redor das declarações de artistas pró e contra a onda dos super-heróis nos cinemas? Para Scorsese, o principal problema é o uso da sétima arte como investimento e não como experiência. 

    E é possível dizer que a intenção da Marvel é refletida em suas escolhas de direção, por mais que isso venha recentemente sendo desconstruído em passos de formiga. Joe e Anthony Russo, por mais competentes e criativos que sejam, não oferecem nenhum traço de personalidade na direção da franquia Vingadores — algo que Scorsese faz exatamente ao contrário.

    Recentemente, a Marvel percebeu como certas narrativas exigem demandas diferentes e fez o que parecia impensável até então: apostar. Pantera Negra, de Ryan Coogler, e Thor: Ragnarok, de Taika Waititi foram apostas ousadas, e, se não foram unânimes na recepção do público ou da crítica, certamente fizeram um barulho muito bem-vindo, tendo o filme de Coogler até mesmo ido para o Oscar. Mas, então, qual é o problema? 

    COPPOLA E A FÓRMULA DAS FRANQUIAS

    Quando Martin diz que a Marvel não faz cinema, ele está certo porque nós esperamos aprender alguma coisa com o cinema, algum tipo de conhecimento, iluminação, inspiração. Então o Marty foi gentil quando disse que não é cinema, ele não disse que é desprezível. O que eu estou dizendo.

    Seguindo a mesma linha do tópico anterior, é correto afirmar que quase todos os longas da Marvel não são filmes de diretores, e sim de produtores. Mas o que isso quer dizer? Neste caso, significa que raramente há espaço para escolhas criativas ou transgressoras dentro de sua imensa gama de vinte e tantas obras extremamente parecidas entre si.

    Em uma associação posterior, Francis realizou uma comparação aos filmes da Marvel com propagandas televisivas: "Comerciais de TV também são cinema. Mas é uma forma bela de fazer cinema? Não!". Depois das centenas de perguntas de veículos jornalísticos a respeito da declaração do cineasta, ele fez questão de deixar claro que seu questionamento era mais voltado para as "fórmulas de bolo" das franquias.

    De fato, não há risco em fazer um filme na Marvel. Mas talvez não precise haver. Voltando ao subtítulo desta matéria, até o final do texto você perceberá que todos os envolvidos estão certos e errados de suas próprias maneiras. Martin e Francis levantaram um ponto importantíssimo, mas parece haver ressentimento em suas questões, afinal, ambos estão encontrando cada vez mais problemas para financiar seus próprios filmes. E esse é, com toda certeza, o ponto mais importante desta reflexão. Mas chegaremos lá, eu juro.

    JAMES GUNN E OS XERIFES DE FAROESTE

    Alguns filmes de super-heróis são horríveis, outros são lindos. Assim como faroestes e gângsteres (e, antes disso, apenas FILMES), e nem todo mundo é capaz de apreciá-los, nem mesmo alguns gênios. E está tudo bem com isso.

    Franquias sempre existiram. Fórmulas sempre existiram. Praticamente tudo que a Marvel reproduz sempre existiu, os problemas são a intensidade e o contexto. Contudo, os méritos do UCM merecem ser exaltados em sua plenitude, afinal de contas, sua construção é algo totalmente sem precedentes dentro do cinema como conhecemos. 

    23 filmes que se interligam de maneira concisa, praticamente obrigando o espectador a assistir todos eles, caso queira ficar completamente inteirado nos acontecimentos finais. Obviamente, existe uma estratégia comercial fortíssima nisso, mas a forma como (quase) todas as arestas se preenchem é o principal argumento para rebater a crítica de que a Marvel não faz cinema. 

    Ao mesmo tempo, é um pequeno exagero de Gunn dizer que os super-heróis são os novos cowboys e mafiosos devido a suas repercussões. Analisando mais a fundo, é perceptível que as críticas de Scorsese, Coppola, e tantos outros cineastas, não têm como objetivo pôr em xeque a qualidade técnica da Marvel — mas algo muito mais importante. Chegamos, enfim, ao grande "X" da questão. 

    O JORNALISMO, O CINEMA E O PAPEL DA ARTE

    Em vez de questionarem os cineastas lendários sobre o que eles pensam a respeito de filmes da Marvel, tentem perguntar por que eles estão tendo tantas dificuldades em financiar seus próprios filmes.

    A frase acima, de autoria do crítico Chris Stuckmann, é o resumo perfeito do que deveria estar sendo amplamente debatido neste momento. Ainda de acordo com ele, ambas as respostas para estas perguntas acabariam citando os filmes baseados em quadrinhos, mas enquanto a primeira seria muito mais óbvia e midiática, a segunda abriria espaço para que pudéssemos discutir o sistema do qual a Marvel hoje faz parte.

    Como muitos de vocês devem saber, neste mês de novembro Scorsese estará lançando O Irlandês, uma de suas produções mais caras e ousadas até o momento. E mesmo um diretor extremamente premiado, icônico e referenciado, como ele, precisou procurar dezenas de estúdios dispostos a aceitar o seu filme, cabendo à Netflix assumir a produção. 

    No final das contas, assim como Gunn afirmou anteriormente, os filmes de heróis não vieram do nada, e nem mesmo partem de precedentes inexistentes. Além de tudo, eles importam. Qualquer tipo de entretenimento possui seu papel dentro de suas respectivas audiências: os super-heróis têm sido cada vez mais simbólicos para audiências em busca de representatividade, por exemplo.

    Mas, então, qual é o grande problema? A Marvel, assim como sua série de filmes, faz parte de um sintoma muito maior e mais grave do que ela mesma. Em uma década na qual o monopólio cresce em passos largos, e as oportunidades de inovação em passos curtos, os filmes comandados exclusivamente por produtores evidenciam uma questão ainda mais grave. 

    Conforme falou Ken Loach, diretor de Eu, Daniel Blake, a Marvel vem apresentando "uma espécie de commodity que apenas dá lucro para uma grande corporação". É claro que todo filme possui respaldos financeiros e intenções comerciais, mas quando isso se torna um fio condutor para que as fórmulas se repitam de maneira exaustiva e excludente ao que não siga este protocolo, o cinema começa a correr riscos.

    Por fim, nada pode te impedir de gostar da Marvel ou de suas obras. E dizer que ela não faz "cinema de verdade" é um equívoco — mas isso não pode ser impeditivo para que a problemática seja reconhecida. Fazer filmes de heróis não é um erro, e lucrar em cima das obras de entretenimento também não. Mas a arte precisa ser sinônimo de questionamento, e a Marvel, assim como o monopólio da Disney, atualmente representa um dos sintomas mais graves da fórmula mágica como ferramenta de uma transição perigosa para a indústria. 

    O jornalismo, enquanto isso, também precisa levantar as pautas certas dentro de um cenário tão caótico. Caso contrário, o assunto continuará sendo visto de maneira superficial. E esse é um problema ainda maior.

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    Comentários
    • adenilso
      mano , nao , a malvel nao sabe fazer filmes, nenhum filme fez sucesso , desde o homem de ferro 1 até os vingadores ultimato , foi tudo uma porcaria nenhum filme prestou ,MAS por outro lado olha como éra a vida de robert downey jr antes e depois de homem de ferro , o cara é um icone admiravel pelas crianças e adultos tambem , e outa o cinema em si ja tava acabado enfadonho a muito tempo ai vem uma empresa furrequinha de fundo de quintal chamada disney prepara o terreno com o homem de ferro ,capitao america ,thor e outros e por fim vingadores ultimato faz um sucesso desgraçado , até ai antes nao tinha aparecido um filho da puta falando que tal empresa nao sabe fazer isso tal empresa nao sabe fazer aquilo , isso meu amigo o que eles estao sentindo é inveja é dor de cotovelo é querer uma quirelinha pra comer tambem , éssa pergunta vc tem que fazer a vc mesmo se vc gostou ou nao dos filmes , vc tem que assistir com seus proprios olhos e nao querer enxergar o que os outros nao veem
    • Marcelo
      Vamos lá, ctrl+c e ctrl+V de outro comentário me. Um textão, mas não uma simples defesa da Marvel, e sim uma visão global da polêmica e vou enumerar os pontos: >>1. O DIREITO DE CRITICAR. No modelo democrático em que vivemos, qualquer um pode criticar qualquer coisa. Daí já acho errado Jon Favreau ter dito Eles conquistaram o direito. Todos temos! >>2. TUDO É DINHEIRO. Não sejamos ingênuos, todos são amigos e o mundo é muito belo quando tem recurso abundante pra todos. Na escassez que vemos a feiúra das pessoas. E é a escassez que esses senhores estão vivenciando agora. Scorsese meio que desabafou, pois O Irlandês não teve apoio da indústria e ele teve que lançar sua obra atual por uma plataforma de streaming. Justo ele, que é uma das lendas do cinema. E ele viu grande parte dos recursos que lhe faltaram irem para quem? Para a Marvel. Se você teve saco pra esperar as cenas pós créditos de Ultimato, percebeu a quantidade de profissionais empregados: atores, diretores e diretores assistentes, roteiristas, câmeras, produtores, figurinistas, músicos, maquiadores, técnicos de efeitos especiais, técnicos de som, locadores, assistentes, etc. E de onde veio o dinheiro para pagar tudo isso? Da Disney... mas não é bem assim. Há toda uma cadeia de investidores, que abandonou filmes como os de Scorsese e Coppola para se concentrar em filmes da Marvel. E isso é lógico, afinal, os últimos filmes da franquia sempre passaram a casa do bilhão em vendas. >>3. O IDEAL DE COPPOLA. É muita hipocrisia de Coppola dizer que o cinema tem que ser uma arte iluminadora, um balaustre de nobreza que traz ensinamento para seus espectadores. É nada! Amei todos os filmes do Poderoso Chefão, nem por isso aprendi algo iluminador com eles. Pelo contrário, fiquei ensandecido com cenas como a do fuzilamento do Sony, por exemplo. PURA AÇÃO! E, sim, há uma aura mais artística, mas reflexiva nessa obra. Mas não é filosofia ou aprendizado de verdade, só por ser um retrato de uma América que realmente existiu. Aí posso até parafrasear Scorsese É bem feito E muito bem feito, por sinal. Lembrando apenas que Coppola é produtor do infame Olhos Famintos... graaande obra inspiradora. >>4. O QUE É CINEMA. Desde que os irmãos Lumiere fizeram sua exibição do trem, passando pelo cinema mudo de Chaplin, pelo Western dos anos 50 a 70, pelos gangsters de 70 a 90, pelos vampiros + aliens + zumbis + lobisomens de 90 a 2000 e pelos super heróis atuais, a indústria cinematográfica é só isso: entretenimento. Os gangsters de Coppola e Scorsese também marcaram o fim do Western, também monopolizaram os recursos em alguma época e também tem alguns elementos de fórmula pronta. A arte está nos olhos de quem vê, é uma discussão bem mais profunda que foi desmerecida com as críticas desses dois diretores. >>5. PAUSA PARA FALAR DE ARTE. Procurem depois um pintor chamado Jean-Micheal Basquiat. Suas telas são garranchos feitos com a destreza de uma criança de oito anos e ainda assim estão entre os quadros mais caros do mundo. Há quem defenda dizendo que é arte por contexto, por ser um negro do gueto e sua visão de uma Nova Iorque dos anos 70 e 80. Assim como artistas pelo mundo com obras bem questionáveis como por exemplo aquele cara que matou um cachorro em uma bienal ou o cara que deitava pelado para ser acariciado por crianças. Então, fica uma discussão interminável se a arte é apenas o belo e difícil de reproduzir como as obras renascentistas, se é algo que tem que expressar algo dentro de um contexto, se é algo que tem que ser provocativo. Arte é algo amplo e de difícil consenso.>>6. A GRANDE EMPRESA. Ken Loach falou que trata-se de uma esteira de hamburguers que trata filmes como commodities apenas para dar lucro para uma grande empresa. De novo, lembro da era do Western: Na época dos caubóis, Hollywood produzia tantos desses filmes, que era praticamente só o que tinha. Mas eles tiveram a vantagem de não ter todo um fardo histórico e diretores velhos fazendo mimimi e os atacando. Era uma fórmula pronta, se exauriu e hoje é relembrada e homenageada por cineastas como por exemplo o Tarantino, que sempre deixou claro como endeusa o western. >>7. O CRESCENTE DESINTERESSE NO CINEMA. Fora a discussão de o que é cinema e do que é arte, ou que todos os recursos estão indo para os heróis, também temos outros elementos que estão mexendo com os recursos cinematográficos, como a pirataria e o streaming. É muito mais cômodo e até mais prazeroso ver um filme em casa na netflix do que gastar dinheiro em um ingresso, em estacionamento, em combos de pipoca e refri. Além disso, as pessoas estão cada vez mais insuportáveis. Gente falando alto, berrando e até batendo palma de pé durante as sessões, gente ligando o celular durante o filme... tudo isso vai acumulando e minando a indústria do cinema. Ano passado, o bode expiatório foi a Neflix e agora é a Marvel. Mas é todo um conjunto de coisas. A sociedade mudou, o uber acabou com os taxis e a maioria não lamentou. O cinema também está ameaçado... mas não é culpa da Marvel. >>8. O RISCO É A GRAÇA. Coppola também criticou a retirada do risco e que aquilo era a graça do cinema, pois os filmes da Marvel seguem uma fórmula que ele julga insonsa e sem alma e que é apenas algo que traz retorno garantido, por isso que é mesquinho e desprezível. Sério? Ele vive de cinema, respira cinema, pra ele, se deslocar, pegar fila e pagar caro em ingresso e pipoca é o dia à dia... hoje as pessoas estão com muita pouca paciência de fazer tudo isso. Por isso que os sites de crítica de filmes se proliferam, por isso o roten tomatos tem tanto peso: o próprio espectador quer eliminar o risco da perda de tempo de seu pequeno gasto com cinema+estacionamento+pipoca, imagina quem tá com alguns milhões de dólares se não quer eliminar esse risco também?>>9. DIVERSIDADE DE OPÇÕES. Há um outro aspecto que alguns críticos estão levantando, como por exemplo quando Almadovar falou que falta sexualidade nos filmes da Marvel ou quando Jennifer Aniston disse que é apenas o que tem pra ver e ela não tem interesse. Sim, não é salutar termos apenas uma forma de entretenimento e todos devem ter espaço. Um dos elementos da fórmula Marvel, tirando Deadpool, é a possibilidade dos filmes serem vistos por toda a família. Aí, dramas mais profundos, mais violentos ou mais eróticos perdem espaço. Mas é meio exagerado dizer que é tudo que temos pra assistir. A humanidade produziu e produz tanta coisa diferente, duvido que ela tenha visto todo o resto e agora só tenha sobrado filmes da Marvel que ela não quer ver. E de novo: é apenas um ciclo, uma hora, assim como os caubóis, vai acabar.
    • Alan Bitencourt
      Cinema é entretenimento, tem que abordar vários tipos de temática e de gêneros quanto mais diversidade melhor, passando vários tipos de emoção ao público, sempre trazendo criatividade em cada tipo de filme, os filmes tem que se paga, lucrar e serem bons em todos os aspectos, no caso dos filmes da Marvel atualmente só a primeira e a segunda questão são verdades, já a terceira passa longe, a maioria dos filmes dela são fracos ou ruins, e são poucos que são bons, porque apostam apenas numa formula só e isso fica um tanto quanto cansativo, Pantera Negra é um filme acima da média porque ele foge do básico da Marvel Studios mas isso acontece, porque deixaram o diretor trabalha e não ficaram se intrometendo constantemente, então essa é uma questão que tem vários fatores e muita lenha para se queimada ainda e detalhe o Ultimato não me fez senti emoções a 1000 teve gente que sim, mas eu não acabou sendo apenas um filme mediano e não deveria ser infelizmente.
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