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    A era do pós-terror: A problemática segregação de um gênero consolidado (Análise)
    Por Ygor Palopoli — 21/09/2019 às 09:39
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    O que levou a crítica a criar um novo termo para algo que já existe?

    Qual é o sentido do apreço pelo medo? Sendo o temor um sentimento tão inexplicável, visceral e desconcertante, a racionalização do prazer pelo desconhecido torna-se praticamente uma incógnita dentro da comunidade científica. Ao longo da facilitação progressiva da obtenção de dados e estudos a respeito dos agentes causadores de medo — especialmente pelos cineastas —, a forma de produzir e consumir terror nos cinemas veio mudando cada vez mais.

    No entanto, junto a este evento, surgiu também uma espécie de terminologia variável nas obras de horror: o pós-terror, cunhado pela primeira vez em um artigo do The Guardian, escrito pelo jornalista norte-americano Steve Rose. No texto, ele cita principalmente o longa Ao Cair da Noite (2017) e usa a decepção de espectadores do horror mainstream como ponto de partida para detalhar seu argumento.

    A partir daí, o subgênero tornou-se uma métrica indireta e invisível para definir qualquer tipo de filme classificado como "terror" que fugisse do padrão de Invocação do Mal, Annabelle, It - A Coisa, Atividade Paranormal, ou qualquer outro líder absoluto de bilheteria. Com isso, lê-se: Corra!, Hereditário, O Babadook, Corrente do Mal, A BruxaDemônio de NeonAo Cair da Noite e, é claro, o recém-lançado O Mal Não Espera a Noite - Midsommar.

    Mas, embora não seja possível perceber tão claramente à primeira vista, existe uma questão um tanto problemática nessa separação. O "pós-terror" virou uma espécie de muleta facilmente usada por diversos críticos que falham em encontrar definições objetivas para filmes com propostas diferentes. De um dia para o outro, descobriu-se que era possível construir uma obra ao mesmo tempo aterrorizante, alusória, densa e psicológica. 

    Diamond Films
    Ao Cair da Noite (2017).

    O cinema de terror sempre foi um dos campos mais democráticos, subversivos e arbitrários da indústria. E, assim como acontece em qualquer outro tipo de entretenimento, existem algumas técnicas mais utilizadas (e consequentemente menos originais) para prender a atenção dos mais variados tipos de público, e outras mais elaboradas e menos superficiais. 

    Tomemos como exemplo os famosos jumpscares — ou, muito resumidamente, os bons e velhos sustos. Assim como acontece com qualquer outra escolha de elemento narrativo, o jumpscare pode ser utilizado de maneira propícia ou desonesta, a depender do nível de qualidade da trama. It - A Coisa, por exemplo, soube compreender perfeitamente o tipo de público que desejava atingir e pautou-se na própria figura do Pennywise como justificativa plausível para trazer cenas expositivas no nível certo. Mas nem sempre é assim.

    Sem necessariamente citá-los nominalmente, você com certeza já viu alguma história de terror assim: fraca, insustentável e mal elaborada, mas cheia de sustos desnecessários, colocados de qualquer maneira dentro do enredo. No final das contas, o problema não é o uso da técnica, e sim a desonestidade de sua aplicação. E isso vale para qualquer tipo de obra, independente de quem se atinja: ao contrário do que sugere a elitização implícita do termpo pós-terror.

    É inegável que a nova onda de filmes de terror seja extremamente relevante para reforçar a própria importância do gênero em festivais. Corra!, por exemplo, fez de Jordan Peele o primeiro negro a ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Original nestes mais de 90 anos de premiação. Não apenas isso, mas a própria indústria vem passando a enxergar o horror como um ponto de atenção importantíssimo depois de décadas sendo subestimado. Mas ainda é o início (ignorar, mais recentemente, a excelente atuação de Toni Collette em Hereditário nas premiações maiores, é um exemplo disso).

    Universal Pictures
    Corra! (2017).

    Mas, aqui, talvez o mais importante de tudo seja não confundir o início de um novo momento com a criação de um subgênero inédito. Se pedirmos para que qualquer espectador faça uma definição objetiva do conceito de "pós-terror", provavelmente iríamos ouvir o que significa um terror psicólogico. E isso já existe há mais de um século, embora só venha recebendo mais atenção agora. 

    Então o que explica a ascensão do termo? De onde surgiu a tentativa de emplacar um paralelo ao pós-modernismo aplicado dentro de um nicho tão específico? Talvez o segredo esteja na expectativa. Esperou-se muito do horror no início da década, e recebeu-se pouco, se comparado com a maré de 2015 para cá. Quando apareceram os primeiros traços de narrativas mais sutis, alusórias e metafísicas, uma barreira invisível foi quebrada e nós, humanos totalmente previsíveis, fomos atrás de uma justificativa: assim nasceu o pós-terror. 

    Mas estamos tratando de algo que não existe — e talvez popularizar o termo sequer tenha sido a intenção de Steve. Mas, morfologicamente (novamente traçando um comparativo ao pós-modernismo), esta "nova" palavra indica um afastamento do horror padrão para a concepção de algo novo. Inédito. E o erro está, justamente, em acreditar que o terror já não traz histórias densas, metafóricas e subversivas há muito tempo. Na luta dos entusiastas do gênero por um maior reconhecimento na indústria, a insistência em separar as histórias em diferentes classes só perpetua a problemática da segregação.

    Paramount Pictures
    O Bebê de Rosemary (1968).

    Psicose matou sua protagonista na metade do filme. O Bebê de Rosemary nunca mostra a terrível face do mal. A Noite dos Mortos-Vivos usou zumbis para traçar paralelos sociais. O Exorcista explorou dogmas religiosos quase intocáveis. O Massacre da Serra Elétrica trouxe uma nova concepção ao vilanismo. A Bruxa de Blair redefiniu o conceito do marketing na internet. 

    O pós-terror sempre existiu, mas demorou para que ele pudesse ver a luz do sol como parte integrante de seu próprio gênero. Lutemos para que continue assim — e não o contrário. 

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