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    Cine Ceará 2019: "Descobri o lado negro de Getúlio Vargas", explica Wolney Oliveira sobre Soldados da Borracha (Exclusivo)
    Por Bruno Carmelo — 06/09/2019 às 14:35
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    Oliveira também aposta na permanência do Cine Ceará em 2020.

    No Ceará, Wolney Oliveira é conhecido tanto como cineasta como quanto diretor executivo do Cine Ceará - Festival Ibero-Americano de Cinema, que chega à sua 29ª edição. No cinema, Oliveira realizou documentários como o belo Os Últimos Cangaceiros (2011), e agora apresenta Soldados da Borracha, fruto de uma longa pesquisa sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial.

    O filme retrata a jornada de milhares de homens enviados ao norte do país durante os anos 1940, encarregados de extrair o látex das seringueiras e enviar o produto ao exército norte-americano, que precisava de borracha para os carros, tanques e aviões. No entanto, chegando ao local, encontraram uma rotina de trabalho forçado em condições insalubres, que levou à morte de 60% deles. Os poucos soldados ainda vivos lutam por uma aposentadoria equivalente àquela dos militares, como prometido na época.

    O AdoroCinema conversou com o cineasta tanto sobre o documentário quanto sobre o Cine Ceará, prestes a completar 30 anos em um período tumultuoso para o audiovisual brasileiro.


    Faz anos que você pesquisa os Soldados da Borracha. De onde nasce esse interesse, e como lida com o escasso material de arquivo disponível sobre o tema?

    Wolney Oliveira: A base dessa história nasceu no Ceará. Mas é curioso que mesmo eu, sendo cearense, não soubesse o que era um soldado da borracha. Essa não é uma realidade só minha, é uma realidade brasileira. Descobri o que era um soldado da borracha em 2004, quando eu tinha 44 anos, lendo os cadernos especiais do jornal O Povo, escritos pela jornalista Ariadne Araújo.

    Surgiu então o DocTV, propusemos o projeto e ganhamos o prêmio. Fizemos Borracha para a Vitória, um produto para a televisão de 52 minutos. Ainda conseguimos o apoio do governo do Acre para filmar lá. Este filme foi bem avaliado entre os documentários do DocTV, mas eu tinha certeza de que voltaria ao tema eventualmente, porque este episódio não diz respeito apenas ao Ceará e ao Acre. Havia uma história muito maior envolvendo os Estados Unidos e outros estados brasileiros.

    Por isso, Soldados da Borracha foi filmado no Ceará, no Rio de Janeiro, em São Paulo, Brasília, Rondônia, Acre, Amazonas e Pará. Abri o leque para os locais onde chegavam os soldados. Outro ponto importante foi acompanhar a PEC dos Soldados da Borracha. Quando registrei aquilo, já tinha certeza de que seria o final do filme.

    Outra presença importantíssima foi Lira Neto, escritor cearense e amigo próximo. Depois que o entrevistei, o filme mudou, porque antes eu tinha uma visão heroica de Getúlio Vargas como pai dos pobres, da CLT, da Petrobrás. Ali eu descobri o lado negro de Getúlio, porque na verdade o governo usou estas pessoas, estes heróis da Segunda Guerra que, na verdade, foram vendidos para os norte-americanos.

    Além disso, pude incorporar ao lado americano da história. O jornalista americano Gary Neeleman, muito conhecido no Brasil, é apaixonado pela Amazônia. Ele escreveu “Trilhos na Selva”, por exemplo, e estava pesquisando os Soldados da Borracha na mesma época em que eu começava a fazer o filme. Eu o ajudei com o livro dele, porque grande do acervo iconográfico de Soldados da Borracha se encontra no MAUC, o Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, e facilitei o acesso a este material. A presença de Gary no filme foi fundamental, porque é o outro lado da história, que eu não tinha no Borracha para a Vitória.

    Foram seis anos e meio de trabalho, que me renderam 220 horas de material gravado. Editamos para um formato de pouco mais de 80 minutos. A parte que me deu mais trabalho foi a edição conduzida por Mair Tavares, o decano da edição do cinema brasileiro. Ele deve ser o editor mais idoso do cinema brasileiro ainda em atividade, e fez um ótimo trabalho junto da Leyda Nápoles. Eu tenho uma mania, talvez um defeito, mas gosto de filmar bastante. Prefiro ter material de sobra do que correr o risco de faltar. 

    O que este episódio nos diz sobre nossa ideia de patriotismo?

    Wolney Oliveira: A gente vê a questão dos Soldados da Borracha, nos anos 1940, e constata que a situação não mudou muito. Nossa realidade está igual ou pior do que aquela época. O filme se torna atual, mesmo abordando a Segunda Guerra Mundial. Estamos num momento em que se discute a aposentadoria e a Reforma da Previdência, então é duro perceber que não progredimos muito.

    Você tem se especializado em entrevistar pessoas idosas, de gerações passadas, para resgatar a história nacional. De onde vem esse interesse? 

    Wolney Oliveira: Eu tenho alguns mestres no cinema documentário. Fiz um longa-metragem de ficção, A Ilha da Morte (2007), mas sou muito mais apaixonado pelo documentário. Inclusive, meu próximo filme será Lampião, o Governador do Sertão. Quando comecei a filmar Os Últimos Cangaceiros, a ideia era fazer um projeto sobre Lampião. Por incrível que pareça, mesmo que o cangaço seja um dos temas mais abordados do cinema brasileiro, nenhum deles era um longa-metragem documentário. Até hoje, Os Últimos Cangaceiros é o único longa-metragem documentário sobre o cangaço. Quando eu estava filmando, descobri o paradeiro de Durvinha e Moreno, então cheguei até eles e mudei o projeto. Decidi fazer um filme sobre quem estava vivo, porque para os mortos eu teria tempo.

    Em 1981, fiz um curso de cinema documentário inspirado em Jean Rouch e aprendi com o cinema direto que é preciso se tornar amigo do personagem. Eu fiquei tão amigo de Moreno e Durvinha que ela colocou apelidos nos membros da equipe. Outro mestre para mim é Eduardo Coutinho, e até por isso você vê em Os Últimos CangaceirosSoldados da Borracha que eu provoco as conversas, e deixo minha voz no filme.

    É engraçado, mas tenho me tornado o documentarista da geriatria. Se você vir Os Últimos Cangaceiros, vai perceber que quase nenhum deles ainda vive. Em Soldados da Borracha, a Perpétua diz que havia seis mil vivos em 2013, quando filmamos, mas desde então, dos que entrevistei, apenas dois estavam vivos até o início de 2019. Gosto muito de não concluir a entrevista no primeiro encontro. Se o personagem for bom, com certeza vou voltar para a casa dele.

    Curiosamente, este filme-denúncia é leve, com momentos divertidos.

    Wolney Oliveira: Apesar de ser uma história trágica, na qual um soldado precisa enterrar o pai aos dez anos de idade, e depois é impedido de voltar ao Ceará, as pessoas riem do filme. Os próprios entrevistados fazem pilhéria do que aconteceu, e algo semelhante acontecia em Os Últimos Cangaceiros. Para mim, cinema que não faz você rir ou chorar não me agrada. Só gosto de filmes que me façam pensar, e me façam, no mínimo, ficar arrepiado, rir ou chorar. Fiquei super feliz porque não apenas aqui no Cine Ceará, mas em São Paulo a reação foi a mesma.

    Como vê a permanência dos festivais de cinema, especialmente o Cine Ceará, diante do cenário incerto de fomento à cultura? 

    Wolney Oliveira: Algumas pessoas me perguntam como eu consigo fazer festivais, filmes e outros projetos, como o Mercado Audiovisual do Nordeste. Eu gosto de política, e sei fazer política. O Cine Ceará chega à 29ª edição seguida porque eu sei jogar politicamente. 

    Acredito que estamos num momento muito difícil, mas temos um governo eleito e precisamos dialogar. O caminho do enfrentamento se justifica devido à eleição disputadíssima, mas o presidente foi eleito democraticamente, e está com a caneta na mão. Ao mesmo tempo, somos uma indústria que emprega 340 mil pessoas, mais do que a indústria farmacêutica e de celulose no país. Se esta indústria for desestruturada, será ruim para este governo e para o próximo. Será ruim para todo mundo.

    Este é o momento em que a classe cinematográfica está dividida: uma parte acredita que não é preciso dialogar, e a outra acredita na necessidade de diálogo dentro de condições específicas. Acredito que seja preciso abrir pontes. Algumas já foram abertas, como por Rodrigo Teixeira, que é hoje um dos produtores mais importantes do Brasil e abriu um mercado internacional. A minha opinião pessoal é de que precisamos dialogar com o novo governo.

    No Festival de Brasília de 2017, durante o governo Temer, um grupo de 50 cineastas, entre eu, Antônio Pitanga, Sara SilveiraDébora Ivanov etc., conversamos no mesmo dia com Rodrigo Maia, Eunício Oliveira e Romero Jucá, pedindo a prorrogação da Lei do Audiovisual. Por causa desta união, tivemos sucesso. 

    Em relação ao Cine Ceará, estamos no governo do Camilo Santana, que possui muita afinidade com a área cultural. O apoio do governo estadual é fundamental, mas o apoio do governo federal também é importante. Se a gente analisar a última instrução normativa que mudou a Lei Rouanet – atual Lei de Incentivo à Cultura -, o que se propõe, fora o eixo Rio-São Paulo, não nos prejudica no caso do Cine Ceará. Os projetos só podem ser aprovados no valor de R$1 milhão, mas se ele estiver fora do eixo Rio-São Paulo, pode ter aprovação de até R$2 milhões. O Cine Ceará nunca captou R$2 milhões de reais via Lei Rouanet.

    Além disso, propõe-se algo que, caso aconteça de fato, será muito positivo: a descentralização dos recursos pelas estatais. Hoje, 90% está concentrado em Rio de Janeiro e São Paulo, que de fato são dois motores do audiovisual, mas é injusto que empresas estatais presentes no país todo invistam 90% em Rio e São Paulo, sem pensar nos outros locais. Agora, a princípio as estatais serão orientadas a descentralizar os recursos. Isso ainda não aconteceu, mas caso aconteça, será muito positivo.

    Eu acredito que um projeto como o Cine Ceará, que completa 30 anos no próximo ano, será apoiado. Estamos trabalhando para isso, tanto que já anunciamos a data da próxima edição: 12 a 19 de setembro de 2020. A minha parte eu vou fazer, e espero que os outros lados também façam a parte deles.

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