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    Cine Ceará 2019: Diretora do drama Luciérnagas explica semelhanças entre exclusão social no Brasil, Irã e México (Exclusivo)
    Por Bruno Carmelo — 05/09/2019 às 17:30
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    Bani Khoshnoudi fala sobre "a sensação de nunca pertencer ao seu local de origem".

    Em competição no 29º Cine Ceará - Festival Ibero-Americano de Cinema, o drama Luciérnagas traz uma reunião rara de culturas: trata-se de uma coprodução entre México, Estados Unidos, Grécia e República Dominicana, dirigida por uma jovem cineasta iraniana, tratando de temas que vão da precariedade social à homossexualidade masculina.

    Na trama, o iraniano Ramin (Arash Marandi) se esconde num navio cargueiro tentando fugir do Teerã à Europa, porém acaba chegando no México. Preso à pequena cidade portuária de Vera Cruz, sem falar a língua local nem ter condições financeiras de chegar à Europa, ele convive com a exclusão e a dor de ter sido preso e torturado em seu país devido à homossexualidade. Neste percurso, torna-se amigos do bruto trabalhador local Guillermo (Luis Alberti) e da recepcionista da pousada onde está hospedado, Leti (Edwarda Gurrola).

    O belo filme, nosso preferido da mostra competitiva do Cine Ceará 2019, retrata de maneira muito respeitosa, e ao mesmo tempo brutal, a sensação de exclusão social. Leia a nossa crítica e, abaixo, descubra a conversa exclusiva com a diretora Bani Khoshnoudi sobre o projeto:  


    Rogério Resende / Cine Ceará / Divulgação
    A diretora Bani Khoshnoudi

    De que maneira o filme compara as exclusões pela geografia/língua e pela sexualidade?

    Bani Khoshnoudi: Quando alguém decide fugir de sua terra natal para um destino incerto – porque mesmo com um visto, o destino é ainda incerto – esta pessoa já enfrentava uma exclusão muito grande em sua terra de origem. O tema é muito complexo, mas é disso que eu queria tratar: a sensação de nunca pertencer ao seu local de origem. Quando fiz entrevistas com iranianos que deixaram o país por causa de sua sexualidade ou identidade, o mais importante para eles era a impressão constante de não pertencerem a lugar nenhum, porque as pessoas faziam questão de ressaltar que não eram bem-vindos.

    Queria explorar este aspecto porque, ao ouvir relatos de imigrantes e refugiados do mundo inteiro, você percebe muitas semelhanças. Assim, decidi levar um iraniano ao México e demonstrar que, pouco importa de onde viessem, havia uma violência da qual estes personagens queriam fugir, e da qual não queriam fazer parte. No fim, mesmo que Guillermo e Ramin tenham passados distintos, as histórias de ambos podem ser aproximadas.

    Quando apresentou o filme no Cine Ceará, você disse que via muitas semelhanças entre Irã, México e Brasil. A que se referia?

    Bani Khoshnoudi: Não acredito que as culturas sejam as mesmas, mas em qualquer parte do mundo, existem sistemas correlatos de exclusão. Não conheço o Brasil tão bem assim, mas posso dizer que existe um sistema de apagamento em todas as sociedades. O Irã tem sua cultura própria, mas também inclui várias etnias, línguas, tendências e religiões.

    Nossos governos tentam tornar o país mais teocrático, focado em uma única língua, e acredito que o Brasil e o México também tenham suas misturas importantes com populações indígenas, a cultura negra e as novas imigrações, como a italiana e a libanesa. Eu gosto de lembrar as pessoas que, sob uma única bandeira, existem muito mais grupos sociais do que se pode imaginar.

    Os personagens dizem que "as cicatrizes contam a nossa história", enquanto comparam as marcas de seus corpos. Por que decidiu transformar os traumas em cicatrizes literais? 

    Bani Khoshnoudi: Esta foi uma maneira que encontrei de mostrar de onde meu personagem vem, sem precisar contá-lo. Ao ver as cicatrizes, você pode imaginar muitas coisas sem que eu precise explicar, porque esta é a forma de cinema em que eu acredito. A verdade por trás daquelas cicatrizes permanece misteriosa – apenas Ramin e seus algozes sabem o que realmente aconteceu. Isso é algo que marcou Ramin, sobre o qual ele não consegue falar, mas que se torna ao mesmo tempo difícil de esconder.

    Os dois homens se conectam por essas cicatrizes, e também pelas tatuagens, que são marcas feitas por nós mesmos para contar as nossas histórias. Eu queria que este fosse um momento erótico, porém de um erotismo incômodo: para Guillermo, talvez a situação não seja conscientemente erótica, mas ela pode ser lida desta maneira. Para Ramin, este é quase um convite ao desejo.

    Arash Marandi e Luis Alberti são ótimos atores, dotados de olhares muito expressivos. Como escolheu os dois? 

    Bani Khoshnoudi: O processo de elenco foi longuíssimo, especialmente para encontrar um ator iraniano. Não é fácil encontrar um jovem ator iraniano disposto a interpretar um homem homossexual, mas cheguei a algumas opções. Arash Marandi foi o ator mais aberto a esta questão, e também o mais interessado em pesquisar a respeito. Ele demonstrou interesse em escutar todas as entrevistas que eu tinha gravado e participar de todo o processo para compreender aquele personagem. Luis Alberti é um ator excepcional com que eu tive a honra de trabalhar. Ele possui uma energia e um vigor impressionantes.

    Não tinha pensado na questão do olhar, mas sei que, talvez por causa da minha cultura iraniana, muitas emoções não se transmitem em ações, limitando-se a pequenos gestos e olhares. Os olhos são importantíssimos no Irã, conversamos muito através do olhar. Escalei os dois atores separadamente, mas quando o processo estava em fase avançada, eles se encontraram, e criei situações para que vivessem juntos. A tensão que nasce entre eles era fundamental para mim, e tentamos explorar esta faísca bastante natural entre eles em cada cena.

    Os cenários vazios se transformam num personagem à parte. 

    Bani Khoshnoudi: A pesquisa de cenários para o filme precisou de um longo processo. A geografia era importantíssima para a história e para o discurso. Eu precisava situar os personagens num horizonte que variava entre a natureza, os galpões industriais, as gigantescas embarcações nos portos. O diretor de fotografia e eu fizemos toda essa busca juntos, e escolhemos os melhores lugares para representarem uma variedade de sentimentos nos personagens. Os contextos são muito diferentes, mas dedicamos bastante atenção às luzes e texturas dos edifícios e das locações. Às vezes, as luzes já estavam presentes, e conseguimos aproveitá-las para o filme.

    Embora a homossexualidade não constitua o tema central, ela motiva uma das cenas mais violentas, quando Ramin e Guillermo se encontram no quarto de hotel. 

    Bani Khoshnoudi: Fizemos pouco ensaio para esta cena. Pensamos apenas na coreografia geral dos movimentos, onde os atores começariam e terminariam, porém o mais importante para mim era resgatar a tensão entre atração e repulsa. O cenário era abafado, dentro de uma cidade que faz calor demais. Acabamos criando um contexto que favorecia os atores a encontrarem este espaço ambíguo. O resto ficou por conta de Arash e Luis, que se soltaram completamente e tomaram as rédeas da cena por completo. Este é um plano muito longo, onde praticamente não existe diálogo. O mais importante era a coreografia dos corpos.

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