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    Festival de Gramado 2019: Balanço final
    Por Francisco Russo — 26 de ago. de 2019 às 12:00
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    Tempos políticos.

    Edison Vara/Agência Pressphoto

    Todo festival de cinema possui uma identidade, construída ao longo de anos de acordo com a proposta de seus organizadores. O de Gramado sempre se notabilizou pelo glamour, com estrelas desfilando pelo tapete vermelho em suas elegantes roupas de frio, por vezes até mais que os próprios filmes exibidos. Trata-se da "Cannes brasileira" - com muitas aspas -, no sentido de ser um local onde é importante ver e ser visto.

    Diante desta característica, o Festival de Gramado tem como marca a neutralidade política, independente de quem esteja no governo. Se os artistas têm direito a fazer qualquer tipo de protesto, cabe ao evento apenas servir de palanque, sem concordar ou discordar do que é dito. Até agora.

    Edison Vara/Agência Pressphoto
    As atrizes Carol Castro, Danielle Winits e Dira Paes, ao lado do diretor Miguel Falabella

    Já no primeiro dia, veio a surpresa quando a apresentadora Renata Boldrini disse, em alto e bom som, "em tempos difíceis e obscuros, estamos resistindo", em nome do festival. Dias depois, a própria organização emitiu um manifesto, lido no Palácio dos Festivais pelo diretor Miguel Falabella antes da exibição de seu Veneza, em que critica abertamente o governo Bolsonaro em relação ao tratamento dado à Ancine e à política do audiovisual, em defesa do cinema brasileiro.

    Assim foi o Festival de Gramado deste ano: político, do início ao fim. A polarização que segrega o país tanto fez com que, praticamente todos os dias, surgissem gritos de ordem contra o atual presidente, quanto manifestantes a seu favor jogassem pedras de gelo em quem protestasse no tapete vermelho. Foi o que aconteceu com o diretor Emiliano Cunha (Raia 4) na cerimônia de premiação, com um agravante inadmissível: ele estava com a filha no colo, de apenas dois anos. Triste Brasil, que não respeita a liberdade de opinião.

    Cena de "Bacurau"

    Em relação aos filmes, pode-se dizer que esta foi uma seleção morna. Após a estreia acachapante de Bacurau, que repercutiu junto ao público e nos debates por dias, nasceu o furacão Pacarrete com uma Marcélia Cartaxo esplendorosa, aplaudida por onde fosse. O abraço dado pelo público ao filme do diretor estreante Allan Deberton é raro, com uma longa ovação que resultou em um sem-número de parabéns à equipe e elenco, ao término da sessão. Entrou para a história do festival, definitivamente.

    Mas foi só. Com exceção do bom Hebe - A Estrela do Brasil, cuja exibição combina perfeitamente com o tom adotado pelo festival nas últimas décadas, os demais filmes apresentados alternaram entre o ruim e o mediano. Destaque negativo para a mostra latina, com filmes irrelevantes que sequer geraram algum burburinho, e para a dubiedade em torno da premiação dada a Maurício de Sousa - convenientemente, ele anunciou a criação de um Parque da Mônica na cidade, dando um caráter também econômico ao troféu que deveria ser dado apenas por méritos artísticos.

    Marcélia Cartaxo em "Pacarrete"

    Gramado chegou ao fim ressaltando a opulência do evento, impulsionado por uma economia local que não para de crescer, e também assumindo a responsabilidade pelos holofotes que atrai Brasil afora. Assumir uma posição no cenário político atual exige não só consciência, mas também coragem.

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