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    Como seria o Homem-Aranha 4 de Sam Raimi e Tobey Maguire
    Por Ygor Palopoli — 7 de jul. de 2019 às 09:11
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    Ascensão e queda da trilogia que mudou a concepção cinematográfica dos heróis.

    O ano é 2002. Você é apenas um fã incondicional dos heróis clássicos que fizeram parte da sua infância — seja em desenhos animados, revistas em quadrinhos ou, até mesmo, algumas poucas representações cinematográficas, como Batman, de 1989. Ver todos os seus personagens queridos sendo retratados por atores de verdade, com efeitos especiais incríveis e ambientações grandiosas, é um sonho ainda um pouco distante.

    Dois anos atrás, os X-Men, aquele grupo de mutantes que te deixava animado de frente para a TV durante, praticamente, todas as manhãs, ganharam um filme, e isso lhe deu esperanças de que um dia pudesse assistir mais adaptações parecidas. Decidiram colocar um tal de Hugh Jackman como Wolverine e, apesar do rapaz ter estilo pra protagonista, você não sabe se vai vingar. 

    E então acontece. Em maio de 2002, o diretor Sam Raimi lança uma adaptação cinematográfica de Homem-Aranha, estrelada por Tobey Maguire, Kirsten DunstJames Franco e Willem Dafoe. Você não sabe  disso ainda, mas ela renderá uma trilogia de sucesso e se mostrará fundamental para que, no futuro, os super-heróis tornem-se uma verdadeira febre mundial. 

    A parte que, 17 anos depois, poucas pessoas saberiam, é que Raimi chegou bem perto de fazer uma quadrilogia. O quarto filme do Cabeça de Teia tinha roteiro, elenco e equipe, mas, no meio do caminho, alguns eventos mudaram de vez a história da franquia nos cinemas. Por sorte, o AdoroCinema está aqui justamente para explicar essa jornada do início ao fim. Vem com a gente!

    A RECONQUISTA DO TERRENO
    Sony Pictures
    Homem-Aranha 3.

    Para chegarmos em Homem-Aranha 4, é preciso falar um pouco sobre Homem-Aranha 3. Contando, de longe, com a pior recepção da crítica, o terceiro filme sofreu uma forte rejeição por mostrar uma quantidade exagerada de vilões dentro de uma trama relativamente curta. Para muitos, a presença do Venom no enredo soou quase como uma grande piada que foi levada à sério demais.

    Comprovando que a má vontade é muito mais prejudicial do que se imagina, Raimi chegou a afirmar, posteriormente, que nunca quis Venom no filme. Sua ideia era trazer o Homem de Areia como principal opositor de Peter Parker e Harry Osborn como uma incógnita dentro do enredo. No entanto, o produtor Avi Arad pressionou o diretor para inserir o antagonista na história, com o argumento de que os fãs se sentiriam agraciados. Não terminou bem. 

    Após a mistura entre sucesso na bilheteria e fracasso entre as opiniões, Sam recomeçou. Ele se juntou ao roteirista James Vanderbilt (Zodíaco) e começou a trabalhar em seu primeiro esboço para Homem-Aranha 4. Desta vez, o grande vilão seria O Abutre — que, de fato, foi o antagonista de Homem-Aranha: De Volta ao Lar —, e a Gata Negra faria também uma participação considerável. Era a hora de voltar a brilhar! 

    A DESCONSTRUÇÃO DO LEGADO
    Superb
    John Malkovich seria o vilão Abutre.

    As escolhas de elenco de Sam Raimi sempre foram peculiares. Como ainda estávamos no início da massificação de filmes do subgênero heroico, o cineasta procurava manter um equilíbrio entre o visual das HQs e o apelo popular. Pensando nisso, ele recrutou John Malkovich para o papel do vilão principal e começou a sondar Anne Hathaway para interpretar a Gata Negra — alguns anos depois ela seria, na verdade, a Mulher-Gato na trilogia do Batman de Christopher Nolan.

    Conforme os meses foram se passando, Raimi não conseguia chegar no ponto certo do roteiro. A Sony, novamente, o pressionava para inserir mais um personagem (o Lagarto), aproveitando que o Dr. Curt Connors já havia aparecido rapidamente nos três longas anteriores. Sam estava cansado de ter seu processo criativo interrompido tantas vezes. Ele havia dedicado tanto tempo à franquia, que já estava há mais de 6 anos sem trabalhar em nenhum outro filme. 

    Juntando a exaustão do diretor com a insatisfação da Sony pela demora, tudo desmoronou em menos de um ano após o lançamento do terceiro longa. Em um comunicado, Sam alegou que não queria fazer nada aquém de uma obra incrível. Homem-Aranha 3 havia o decepcionado, e ele não deixaria aquilo acontecer novamente. Ao menos não sob seu comando. Tendo esta observação em vista, o próprio diretor ficou aliviado em saber que não faria parte de um reboot. No final das contas, ele estaria certo. 

    ADEUS, TOBEY MAGUIRE
    Sony Pictures
    Tobey Maguire em Homem-Aranha (2002).

    Sam Raimi estava fora. Lembra do James Vanderbilt, que estava escrevendo o roteiro de Homem-Aranha 4? De acordo com a Sony, ele já tinha um rascunho prontinho para o reboot da franquia, chamado O Espetacular Homem-Aranha. Nesta nova versão, veríamos Peter Parker mais jovem, sob uma perspectiva diferente, aplicando ainda algumas outras mudanças. 

    Contando ainda com a variante do extenso problema contratual entre a Sony e a Marvel, era de interesse geral que o Amigo da Vizinhança continuasse ganhando mais filmes. A Sony sabia que deveria continuar trabalhando nas adaptações das histórias de Peter Parker, ou a Marvel (que na época lançava Homem de Ferro ainda com desconfiança) teria novamente os direitos de exibição. 

    Depois de muita confusão, O Espetacular Homem-Aranha foi, enfim, filmado. Andrew Garfield até foi bem aceito entre os fãs, mas a construção da obra não agradou muito. O resto da história nós já conhecemos. Peter Parker precisou ralar bastante para conquistar a estabilidade que tem hoje. 

    O QUE RESTOU DO FIM
    Sony Pictures
    Raimi nos bastidores do primeiro filme.

    Entrando um pouco mais nas questões hipotéticas do que Sam Raimi proporcionou ao futuro do cinema, e como Homem-Aranha 4 poderia ter sido, é possível dar algumas rápidas sugestões. Por mais que o roteiro do quarto filme nunca tenha sido oficialmente concluído, especula-se que, eventualmente, Raimi pudesse reconstruir a própria saga e passasse o bastão para Miles Morales, por exemplo, em vez de mostrar um outro Peter Parker. 

    O que não se pode ignorar e nem supor é o impacto concreto dos primeiros três filmes do Homem-Aranha para o futuro dos heróis dos cinemas. Além de mostrar que é possível fazer (muito) dinheiro com algo que era considerado um subgênero de raro sucesso, Sam provou que fazer uma obra concisa e elogiada pela crítica, como Homem-Aranha 2, por exemplo, poderia ser algo diretamente alinhado a uma verdadeira febre popular. 

    O sucesso de investidas como X-Men e Homem-Aranha abriu espaço para que a Marvel e a DC construíssem universos cinematográficos próprios e fizessem a alegria de muitos fãs de heróis. Por mais que hoje o gênero possa estar chegando ao processo de saturação, muitas obras importantes já consolidaram-se no entretenimento após os anos 2000. Ficamos, então, com o legado de Peter Parker. E de Sam Raimi.

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    Comentários
    • Guilherme A.
      É muito interessante acompanhar e vivenciar toda essa cultura pop voltada para o entretenimento que temos hoje em dia. E é mais interessante ainda ser de uma época onde temos diversas produções com diferentes interpretações relacionadas ao que gostamos e acompanhamos desde pequeno(a). Crescer lendo HQs e brincando de super herói e mais tarde, poder desfrutar de uma obra cinematográfica do seu herói de infância preferido é algo surpreendente e ao mesmo tempo inovador, pois somos introduzidos a uma nova era de adaptações, simbolizando o que começou lá atrás com histórias coloridas e bens construídas simbolizando os quadrinhos. O início dos anos 2000 foram sim de suma importância, como destacado no texto acima, visto que a indústria do entretenimento partiria para um caminho um tanto quanto ambicioso e ao mesmo tempo, compensador. Toda obra, seja ela única, triologia ou contada em vários capítulos, como uma série de TV por exemplo, terá seus altos e baixos e seus mistérios por trás de bastidores da produção. Mas no fim das contas, o importante é contar uma boa história que está se iniciando ou respeitar e se inspirar no material original de uma obra que já existe, seja por HQs, quadrinhos ou até mesmo um jogo de vídeo game. Pois nós como fãs da cultura pop continuaremos a consumir esse conteúdo, sempre exigindo o que a indústria pode oferecer de melhor, criticando e elogiando quando necessário e apreciando o que de fato simbolizar e justificar o que nos foi prometido, desde uma boa narrativa inspirada numa HQ até uma obra cinematográfica totalmente original, bem dirigida, produzida e interpretada em todo seu material.
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