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    Kati Critica: Quem não chora, reclama!
    Por Katiúscia Vianna — 23 de jun. de 2019 às 09:57
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    Trilha sonora da coluna dessa semana: "Cry Me a River".

    Katiúscia Vianna é uma redatora do AdoroCinema que acumulou mais de duas décadas de cultura inútil e decidiu transformar isso num emprego. Nessa jornada, ela tem a missão de representar os fandoms barulhentos e/ou esnobados do Twitter, falar das séries que a crítica ignora e celebrar as '"farofas" que trazem alegria para o povo. Ou seja, os guilty pleasures! Com um ponto de vista 'singular' (ou doido, depende de quem opina), surge a coluna Kati Critica — misturando açúcar, tempero e um pouco de haterismo zoeiro.

    Eu sou julgada por muitas coisas em minha vida. Pelo meu jeito de vestir. Por ser uma mulher que fala palavrão. Por não saber o que é escanteio... Porém, um bullying que sofro diariamente está relacionado com minha dificuldade para chorar em filmes. E estou aqui para defender esse grupo injustiçado pela sociedade.

    Todo um escarcéu somente pois não chorei com "Remember Me" em Viva - A Vida É Uma Festa ou com Bing Bong em Divertida Mente; o que, aparentemente, são dois pecados mortais da humanidade contemporânea. Logo, com a chegada de Toy Story 4 nos cinemas, já tem gente me ameaçando, caso eu não solte lágrimas com esse filme. E olha que até me emocionei com Toy Story 3. Afinal, tem brinquedos querendo cometer suicídio num incinerador, quando eu achava que só veria bonecos bonitinhos aprontando altas aventuras. Isso sim que é reviravolta, aprende M. Night Shyamalan!

    Provavelmente, eu não vou chorar com a próxima história de Woody e companhia, algo que só vai reforçar minha fama de "não ter alma". O que, sinceramente, até aprecio. Sou uma mulher carioca, tenho uma reputação a manter.

    Olha só, a vida já é difícil o suficiente para eu ficar me desesperando com a ficção alheia. Macaulay Culkin morreu cheio de picada de abelha em Meu Primeiro Amor? Acho mais bizarro do que triste, é coisa típica de capa do "Meia Hora". A abertura de Up - Altas Aventuras é emocionante? Sim. Mas logo depois surgem quase duas horas de risadas com Russell e Dug, então sigo em frente. Sem falar que me identifico muito com Carl e sua falta de paciência com o mundo ao redor.

    Também não choro com Titanic, eu tenho raiva daquilo. Claro que respeito todas as vítimas reais da tragédia, não me entenda errado. Mas são três horas de filme, com Rose (Kate Winslet) e Jack (Leonardo DiCaprio) subindo e descendo o mesmo navio, diversas vezes, o tempo todo. É um ciclo mais repetitivo que ver a A Usurpadora novamente na TV. E toda essa enrolação para culminar numa porta. (Sem falar que acho muita canalhice da versão vovó Rose jogar aquela joia caríssima no oceano, quando ela podia se mostrar, minimamente, grata pela neta que cuida dela!)

    Aliás, lembram daqueles bons tempos, quando a treta estava começando a esquentar (ou esfriar, no caso) em Titanic, Jack foi preso, geral se ligou que o barco vai afundar... E você tinha que parar tudo para trocar a fita, pois o VHS era duplo? Isso era ostentação na década de 90.

    Obivamente, tudo isso muda se tiver qualquer coisa envolvendo cachorros ou bichos bonitinhos. Aí, eu desidrato, pois não sou um monstro. Sou do tipo de pessoa que se tiver um humano e um cão fugindo de um desastre natural, eu quero saber o que aconteceu com o animal. O protagonista que se ferre! Sem brincadeira, uma vez chorei de passar mal vendo os 10 minutos finais de Sempre ao Seu Lado — mesmo com a televisão no mudo.

    Inclusive, a única coisa que não tenho em comum com meu espírito animal, a.k.a Chandler Bing (Matthew Perry), é o fato dele não chorar com Bambi.

    Por outro lado, incomodam esses filmes que cutucam cada nervo do espectador com intenção de te fazer chorar. Tipo, os romances trágicos de Nicholas Sparks, que sempre são os mesmos tipos de amores impossíveis, com beijos na chuva/e ou floresta. Já A Culpa É das Estrelas não vi até hoje, pois comecei a lacrimejar apenas com uma cena da igreja, onde menina Shailene Woodley estava fazendo um discurso para um Ansel Elgort muito abatido para o padrão normal de saúde. Percebi que ia dar ruim e troquei de canal, colocando em reality show culinário, pois adoro ver quando fazem um bolo gigante só para acabar caindo no chão. Lembra como falam que não tenho alma? Esse tipo de argumento ajuda a teoria.

    Isso que nem citei Como Eu Era Antes de Você, o maior clickbait de lágrimas dos últimos anos. Strike 1? Sam Claflin lindo e com sotaque britânico. Strike 2? Uma Emilia Clarke atrapalhada, sendo gente como a gente. Strike 3? Toca Ed Sheeran. Duas vezes.

    Antes de julgar o amiguinho que parece ser mais seco que panetone, é bom lembrar que nem todo mundo chora de tristeza. Alguns choram de raiva (tipo eu). Outros choram por nostalgia (tipo minha irmã vendo o live-action de Aladdin). Outros choram de alegria (toda garota vendo Mulher-Maravilha). Algo que afeta muito também é a conexão com o assunto em questão. Por exemplo, tenho mais facilidade em chorar com séries de TV, pois tem mais tempo de vida ali investido.

    Tipo, ver a Lady Gaga se esgoelando no final de Nasce uma Estrela só me faz querer cantar junto desafinadamente. Por outro lado, chorei por quarenta minutos seguidos pelo final de The Originals — que, infelizmente, quase ninguém vê. O diferencial? Eu gostei do romance de Ally e Jackson (Bradley Cooper) por duas horas. Mas estou acompanhando o desenvolvimento de Klaus Mikaelson (Joseph Morgan) desde 2011! E ainda não te perdoei, viu Julie Plec?!

    Sem falar nas séries que parecem fazer parte de uma teoria da conspiração malígna, onde são sócias de empresas de lencinhos de papel e planejam suas tramas pensando apenas em aumentar o número de vendas. A geração atual passa por isso com This Is Us. Ao contrário das pessoas normais, eu demorei 16 episódios para começar a chorar com essa bagaça. Em compensação, não paro mais. É só aquele médico senhorzinho (Gerald McRaney) aparecer na tela que o olho enche de água, automaticamente. Tem uma amiga minha que separa logo uma toalha quando vai dar play no episódio, tamanho o desespero.

    Se esse texto foi apenas uma desculpa para tentar justificar como sou uma pessoa seca demais? Provavelmente. Mas talvez eu só prefira reagir de outras formas ao ver alguma coisa. Fui eu quem puxou os berros durante o terceiro ato de Vingadores: Ultimato na minha sessão de cinema. Eu grito para a tela do computador quando o ship finalmente beija numa série. E também sou aquela pessoa que anda saltitante e dançando pela rua quando começa a tocar "How Will I Know", da Whitney Houston, nos meus fones de ouvido, recebendo olhares julgadores dos estranhos. Já dizia a banda RBD: "Así Soy Yo".

    Moral da história: Cada um tem o direito de chorar (ou não) quando quiser. Mas acho interessante já separar os lencinhos e os chocolates para ver o Mufasa morrendo no live-action de O Rei Leão.

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    Comentários
    • Denis F.
      O que me traz lágrimas são cenas envolvendo famílias, o que a Pixar tem feito continuamente com Frozen (o amor verdadeiro é o fraternal!) e Viva, na cena final com a bisavó. Até mesmo em O Sexto Sentido, quando o menino conta seu segredo para a mãe citando a mensagem da avó. Mas não posso deixar de citar um jogo também - o único que me fez suar pelos olhos no final: Life is Strange. Recomendado para todos os adolescentes, pela significativa mensagem que traz.
    • Dheo
      Acho mais bizarro do que triste, é coisa típica de capa do Meia Hora. HAHAHAHAHA Melhor da resenha, Katlúscia! Sou bem seco na vida real, mas nos filmes choro, exceto dramas baratos.
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