Notas dos Filmes
Meu AdoroCinema
    Democracia em Vertigem dialoga com a "polarização doentia" da política nacional, afirma a diretora Petra Costa (Exclusivo)
    Por Bruno Carmelo, com a colaboração de Maria Clara Guedes — 21 de jun. de 2019 às 10:00
    facebook Tweet

    Uma conversa sobre o complexo momento do Brasil atual.

    No último dia 19 de junho a Netflix lançou um projeto brasileiro bastante aguardado: Democracia em Vertigem, ambicioso documentário de Petra Costa (Elena) sobre as transformações recentes na política nacional. A cineasta acompanhou as manifestações de junho de 2013, o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a eleição de Jair Bolsonaro na intenção de refletir sobre o estado atual do Brasil.

    Ao mesmo tempo, ela entrelaça a política nacional com a história de sua própria família, que inclui avós empreiteiros, defensores de Bolsonaro, e pais militantes de esquerda. Democracia em Vertigem cria o retrato de um país dividido, enquanto debate a possibilidade de reconciliação.

    O AdoroCinema conversou com Petra Costa sobre o filme:


    Divulgação
    A diretora Petra Costa (ao centro)

    Você efetua um panorama amplo da história. Como decidiu o ponto de partida, e onde interromper a narrativa - até pelo fato de discutir fatos ainda em andamento?

    Petra Costa: Pois é, até cheguei a postar algo sobre isso, onde essa história começa e onde ela termina. Até por isso o título é “Democracia em Vertigem”, não é? A vertigem é essa sensação de perder onde as coisas começam e onde elas terminam, onde você está em relação ao mundo e onde o mundo está em relação a você. De uma forma mais literal, a minha investigação começa em março de 2016 e termina na inauguração do novo presidente. Mas quando eu me lembro da narrativa, eu percebo que essa história começa muito antes, começa com o golpe militar de 1964 ou até na construção de Brasília, ou quem sabe até com a fundação da empresa dos meus avós em 1947. Esta é uma história que vai, pelo aspecto vertiginoso mesmo, abrindo buracos pelo labirinto da história do Brasil. 

    O documentário se concentra em grandes acontecimentos recentes, como o impeachment de Dilma e a prisão de Lula. Qual é o efeito provocado pelo fato de acompanhar uma narrativa cujo desfecho é conhecido? 

    Petra Costa: Para mim e para as outras pessoas que conheço, o Brasil atravessava, independente do seu ponto de vista político, uma onda muito otimista ao longo dos anos 2000. Por isso foi um choque o momento em que o país começa a entrar primeiro em uma estagnação financeira e depois em uma crise e uma recessão muito profundas. Todos os aspectos dessa crise geraram um verdadeiro trauma para muitas pessoas. O filme é uma tentativa de falar sobre esse trauma. Como dizem, e o próprio Freud diz, o trauma é uma cicatriz na psique que gera uma incapacidade de significar as coisas, que perde sua habilidade de criar significados por conta da agressividade com que o evento invade sua psique. Então o primeiro passo para recriar um trauma é recontar, por isso ele é uma tentativa de recontar essa história. 

    Ricardo Stuckert / Divulgação

    Você tem receio que o filme seja instrumentalizado pela polarização política atual? Que seja adorado ou detestado simplesmente por abordar esta temática?

    Petra Costa: De fato, o Brasil está muito polarizado. Mas eu espero que as pessoas possam deixar de lado as paixões e aversões políticas para ouvir um ponto de vista sobre essa história. Você pode concordar com essa leitura ou não, o que é esperado. É a minha perspectiva, eu não tento ser categórica ou falar a verdade, de forma alguma. A história é muito recente, por isso está aberta a todos os seus espectros de interpretações. Mas esse movimento de escuta é o primeiro passo para curar a polarização doentia em que a gente se encontra. O meu maior aprendizado ao fazer esse filme foi me colocar nesse lugar de escuta, e muitas questões que eu tinha foram abaladas neste processo. Espero que, quem sabe, eu possa também estar atenta para isso. 

    Acredita que a sua família, retratada no filme, represente bem esta polarização nacional?

    Petra Costa: Sim, com certeza. Tivemos um grupo de WhatsApp muito quente. E através da minha família eu pude entender muito dessa divisão, dessa rachadura que não existia antes ou, pelo menos, estava adormecida e que retificou com toda força nos últimos anos. 

    De que maneira a percepção do filme é modificada pelos acontecimentos em andamento, como escândalos de corrupção e vazamento de conversas envolvendo juízes?

    Petra Costa: Eu acho interessantes os mundos paralelos entre os vazamentos e o conteúdo que já está no filme. No filme, o advogado do Lula na ONU, Geoffrey Robertson, pontuou de modo muito esclarecedor para mim na época como é difícil ter um julgamento imparcial quando o juiz age como procurador. E também, extrapolando isso, acredito que um julgamento imparcial é fundamental para um processo saudável. Então, são acusações muito sérias que vêm ao ar agora e que precisam ser apuradas para qualquer cidadão brasileiro poder voltar a confiar no judiciário. 

    Divulgação

    Como enxerga o papel da mídia majoritária nestes desdobramentos políticos?

    Petra Costa: Olha, eu comecei a fazer esse filme porque eu mesma tinha dificuldade de entender a crise pela qual o país estava passando. Era uma crise de tantos níveis que as headlines não davam conta da complexidade dos assuntos. E à medida que fui entrando, pude perceber que coisas que pareciam ser a realidade, como o fato de que a Dilma ia estar sendo destituída por corrupção, não era tanto no caso. Então documentários são muito importantes no sentido de pode investigar de uma forma mais longa uma crise política tão complexa. É um privilégio poder ter o método documentário para poder entrar mais a fundo nessas questões. 

    Como vê o papel da Netflix na produção e distribuição de projetos como Democracia em Vertigem?

    Petra Costa: A Netflix está mudando drasticamente o mercado de documentários no mundo, de uma forma muito positiva. Em que outro momento um documentário brasileiro poderia ser visto em 190 países ao mesmo tempo? É algo revolucionário, e eu me sinto muito privilegiada, especialmente, porque o tema da crise da democracia dialoga com pessoas da Ásia e da Indonésia, da Austrália até a Áustria e ao Uruguai. Acredito que não poderia ter uma plataforma melhor para esse filme.

    facebook Tweet
    Links relacionados
    Pela web
    Comentários
    • Gabriel P
      Não concordo mas aceito seu direito de publicar. Tanto a matéria tendenciosa quanto um documentário unilateral. Ainda não vi, mas acredito que deve ser tecnicamente perfeito, visto ao currículo dos envolvidos, mas me desculpem, o viés de esquerda só visa uma coisa, enganar o resto do mundo sobre o que realmente está acontecendo no Brasil hoje e o real papel do Lula, Lulismo e etc, nesse rolo todo. Quando a diretora fala sobre um juiz, um suposto vazamento e já corre para julgamento imparcial, bla bla bla... Já mostra que está mal intencionada, ou, como toda esquerda, entende as coisas de forma parcial e etc. Quando um juiz federal, 4 desembargadores, 11 juizes do supremo, julgam e colocam preso por corrupção, lavagem de dinheiro, com indícios claros, provas, confissões e etc, não da pra relativizar falar, veja bem, amigo do amigo e etc. O pior cego é o que não quer ver. Não estou aqui para defender candidato eleito ou etc, são todos farinha do mesmo saco. Mas lançar filme internacionalmente pra relativizar a história recente do Brasil e de certa forma, enganar o mundo, aí já não dá pra concordar. Mostra mesmo a organização e idiotização sempre promovida pelo lado que mais polariza e separara e mata de fome no mundo.
    • Andries Viljoen
      'Guia Politicamente Incorreto dos Presidentes' mostra o lado sombrio de quem comandou o BrasilAs livrarias tem o livro “Guia Politicamente Incorreto dos Presidentes da República” (Leya), de Paulo Schmidt, com informações para lá de constrangedoras de todas as pessoas que assumiram o cargo mais importante do país.O tom pessimista e bem-humorado toma conta de toda a narrativa:“A intenção é ser diferente dos livros tradicionais, contando fatos que não são transmitidos na escola. Estudávamos que o presidente decretou tal lei, mas pouco aprendemos sobre os mandatários, o que fizeram e quem eram”, afirma Paulo Schmidt, que também procurou falar sobre as primeiras-damas.O que mais impressionou o escritor foi o imenso poder concentrado nas mãos dos presidentes, que puderam tomar decisões muito marcantes para o país sem uma grande fiscalização por parte dos outros poderes.“Fiquei impressionado ao perceber como nossos presidentes se pareciam com imperadores romanos e podiam determinar o destino do país com uma canetada. A história é bem antidemocrática”, diz.Psicopata?Entre as principais surpresas do autor, está as descobertas sobre Arthur Bernardes, que governou o país de 1922 a 1926. “Esse homem tinha traços de psicopata. Foi um dos políticos mais detestados. Chegou a criar um campo de concentração no Amapá para onde mandava as pessoas que faziam oposição ao governo dele. Na boca pequena, chamavam esse lugar de Inferno Verde”, relata Schmidt.Outra descoberta foi que Nilo Peçanha e Campos Sales eram mulatos e tinham de esconder suas origens por meio de retoques em fotografias e quadros.“Os presidentes não são monarcas, embora se comportem como tal. São funcionários públicos”Outra surpresa foi sobre Delfim Moreira, mineiro de Santa Rita do Sapucaí que foi presidente entre 1918 e 1919. “Tivemos um presidente clinicamente louco, sem condição de ser presidente”, conta.“Existe uma anedota de que o Ruy Barbosa foi visitá-lo e o presidente ficava abrindo e fechando a porta, espiando o visitante. Então, Ruy teria dito: que estranho é o Brasil, onde até um louco pode ser presidente e eu não posso”, completa o autor, citando Barbosa, que foi candidato à presidência contra o militar Hermes da Fonseca, no início da República.
    • Andries Viljoen
      Pessoal, admito que tenho mais tendências de conservador, ainda sim tentarei fazer uma avaliação isenta:Petra Costa foi bem clara quanto seu posicionamento político desde o início do documentário, e por tal motivo, não achei o que foi apresentado tendencioso, mas sim um registro muito bem feito dos acontecimentos políticos dos últimos anos sob uma ótica de esquerda.Não podemos ser parciais ao ponto de desqualificar este excelente documentário, que levou anos para ser construído, por conta de aspirações ideológicas que possuímos. Apesar de minhas divergências em relação a alguns pontos apresentados pela cineasta no documentário, não desqualifico em nada o belo resultado final. Seja você de direita, ou de esquerda, avalie o documentário pelo conteúdo apresentado, que é muito rico, e não por suas próprias paixões ou interpretações do que vem acontecendo em nosso cenário político nos últimos anos! Todos temos o direito de divergir, isso é a democracia! Respeite o contraditório!Um conselho sensato, educado e respeitoso?Toda vez que você for falar sobre política ou assistir algum conteúdo sobre política, use sempre a RACIONALIDADE, a frieza e a sensatez. Não devemos nunca tratar política com paixão ideológica ou partidária. Você não só pode, como deve ser partidário ou ter uma opinião, desde que você seja sempre racional. Se o indivíduo não percebe isso, ou é ignorante/ingênuo ou é cego... Sobre o documentário, faço a ressalva de que não ponho a mão no fogo por político nenhum.NOTA: Não sou nenhum exemplo de perfeição, agora penso que uma enorme injustiça avaliarem mal este documentário apenas por discordarem ideologicamente com o conteúdo. Muita gente avaliou sem ao menos ter assistido!
    • Claudio Dabul
      Ou seja... Adoro Cinema vai entrar na onda de politicagem polarizada de outros sites mascarado em uma matéria política em um documentário tendencioso.
    Mostrar comentários
    Back to Top