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    Olhar de Cinema 2019: Diretora Letícia Simões fala sobre a universalidade familiar contida no documentário Casa (Entrevista Exclusiva)
    Por Barbara Demerov — 12/06/2019 às 09:21
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    Filme participa da Mostra Competitiva do festival em Curitiba.

    Casa, de Letícia Simões, é um dos filmes presentes na Mostra Competitiva de Longas do 8º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba. Com grande enfoque na relação da diretora com sua mãe e avó, o documentário conta com inúmeras imagens de arquivo da família e cenas que refletem a realidade de muitas pessoas que convivem com diferentes pensamentos e percepções de vida. 

    O AdoroCinema conversou com Simões durante o festival. Confira a entrevista completa abaixo:

    AC: Há uma linha tênue em documentários tão pessoais - ou eles tocam o público geral ou não. No caso de Casa, existe essa comunicação. Por que você acha que sua história toca outras pessoas?

    Letícia: Tenho pensado nisso todos os dias. Para mim é algo muito complexo saber que eu só estou entendendo e processando tudo só agora. Esse era meu maior medo: se o filme residiria num lugar do hermetismo, não do incompreensível mas do fechado ao seu próprio universo, ou se ele dialogaria com as pessoas. E a resposta que estou tendo é que dialoga. As pessoas vêm contar suas próprias histórias e eu acho que talvez a chave esteja aí, num lugar de universalidade das relações. Mesmo que as configurações não sejam as mesmas, homens têm vindo falar comigo e eu tenho achado curioso demais. No fim, questões como morte, vida e amor são os grandes temas no sentido de percorrerem a vida de todo mundo. O filme passeia por esses temas que estão sempre presentes.

    AC: O filme tem como foco apenas as mulheres da família, mas você conta a história de seu pai e avô em alguns recortes. Você havia pensado em deixar as mulheres em primeiro plano desde início?

    Letícia: Não, foi uma decisão durante a montagem. No projeto inicial, eles tinham quase o mesmo peso, pois a ideia era fazer uma investigação dessas ancestralidades da minha família. Do pai do meu pai, da minha mãe e etc... Todos eles tinham o mesmo peso no argumento que eu estava investigando. À medida que eu fui caminhando no processo de descobrir o filme, foi ficando claro que ele era sobre a relação entre essas três mulheres. Na mesa de montagem tivemos muitas discussões sobre a presença dos homens ou não. Algumas pessoas diziam: "Tira esses homens, eles não têm nada a ver com a história!". Mas hoje, de fato eu consigo observar que há um deslocamento estranho onde eles estão inseridos.

    AC: Realmente, o foco é muito entre você, sua mãe e sua vó - especialmente no elo entre você e sua mãe Heliana. Mas, de certa forma, não é que não seja necessária a presença dos homens de sua família, até para conhecer mais sobre sua história de modo geral.

    Letícia: Exato. Eu e o Dudu [montador do filme] teremos de lidar com isso a vida inteira, com essa inserção deles. Era algo meio assim: "Nós temos que falar sobre isso, eles têm que entrar no filme". Mas eu acho que era realmente necessária a presença deles, até porque se eles não estivessem em Casa, a presença da ausência seria muito mais forte. Se eu não explicitasse os homens, ficariam muitas perguntas expostas - incluindo o fato de minha mãe ter guardado tantas fotos e arquivos após a separação dela e meu pai.

    AC: Sua mãe chegou a assistir ao filme?

    Letícia: Ela não quer ver porque ela tem um problema com auto imagem.

    AC: Mas ela quis fazê-lo, ao mesmo tempo...

    Letícia: Exatamente, dentro de todas as contradições dos seres humanos! Ela ficou muito feliz com o projeto. Ela até olha para a câmera nas cenas, realmente faz uma performance. Tinha uma questão de impacto ético que eu tinha com ela, e quando o filme começou a se formar enquanto corte, eu comecei a ficar muito preocupada porque gostaria de saber se ela se sentia confortável ou não; mas como ela nunca quis ver, eu fiz meio que uma "radionovela" e contava à ela todas as cenas. Eu cheguei a perguntar se ela estava ok com isso tudo e aí recebi uma resposta que, de certa forma, foi meu parâmetro: "Eu não posso me envergonhar da minha história. Se eu entrasse neste lugar de me envergonhar por eu ser bipolar, ter crises e falar coisas que estão fora do meu controle pessoal, eu então me envergonharia de ser quem eu sou - e eu não posso fazer isso".

    AC: Ao revisitar a história de sua mãe e avó, o que mais te impactou?

    Letícia: Foram duas coisas: foi o processo de conhecer a história de ambas porque isso me fez vê-las de uma forma diferente até então, com uma possibilidade de mergulhar naquelas histórias. A outra questão foi a abertura dos arquivos da minha mãe. Eu nunca nem soube que aquilo existia... Na minha cabeça as pessoas não guardavam fotografias de si, porque a minha mãe não tem porta-retratos em casa. Eu não sabia como era o rosto de minha avó nem de minha mãe. E no momento em que ela decidiu abrir os arquivos no final do filme, foi emocionante porque eu lidei com a minha própria história também. Até mesmo o fato de ver o quão somos parecidas fisicamente foi algo muito marcante. Passei a me compreender dentro deste pertencimento à elas, que antes era muito difuso para mim.

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