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    Festival Varilux de Cinema Francês 2019: "É possível ser uma mulher sozinha, mas não é fácil", explicam diretora e atriz de Meu Bebê (Exclusivo)
    Por Bruno Carmelo — 16/06/2019 às 08:28
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    A diretora Lisa Azuelos e a atriz Thaïs Alessandrin falam sobre as relações entre mãe e filha nesta comédia dramática.

    Acostumada às comédias sobre amor e amizade, a diretora Lisa Azuelos decidiu investir no projeto mais pessoal de sua carreira: a sua própria história de vida. Em Meu Bebê, ela retrata as emoções de uma mãe solteira quando a filha adolescente (Thaïs Alessandrin, filha real de Azuelos) é aceita numa faculdade estrangeira e se prepara para sair de casa.

    Para interpretar a si mesma, a cineasta escolheu uma das maiores atrizes francesas da atualidade: Sandrine Kiberlain, cuja habilidade com drama e comédia são bem exploradas na trama. Às vésperas da partida da filha, esta mãe analisa sua independência, sua solidão, as relações profissionais e o contato com os outros filhos, também entrando na idade adulta.

    Azuelos e Alessandrin estiveram no Brasil para apresentar Meu Bebê no Festival Varilux de Cinema Francês, e o AdoroCinema aproveitou para conversar com a dupla:


    Lisa Azuelos, Thaïs Alessandrin e Sandrine Kiberlain

    Meu Bebê pode ser definido como uma autobiografia?

    Lisa Azuelos: Completamente!

    Thaïs Alessandrin: Tudo que está ali aconteceu nas nossas vidas. A ficção, no caso, serve apenas para fornecer um fio condutor à realidade. O roteiro está presente para dar um corpo ao filme, mas todos os eventos lá dentro se passaram mais ou menos dessa maneira nas nossas vidas.

    Lisa Azuelos: Bom, a minha família nunca fez uma perseguição pela cidade para encontrar o meu telefone celular [como acontece à personagem de Sandrine Kiberlain], mas o celular realmente foi perdido e todos se reuniram para encontrar!

    Os diálogos parecem improvisados...

    Thaïs Alessandrin: Foi assim mesmo. Minha mãe gosta muito da improvisação durante a filmagem, ela sempre encoraja esta forma de trabalho com os atores. Muitas vezes, ela dizia apenas: “Agora vai ter um diálogo e vocês vão precisar se despedir”, e o resto ficava conosco. Ela sempre queria ver o que a gente conseguiria apresentar, na hora.

    Como escolheu Sandrine Kiberlain para interpretar você mesma? E os atores que interpretam o irmão e a irmã?

    Lisa Azuelos: Sandrine é a melhor “eu” que eu poderia encontrar! Ela tem muito humor, e ao mesmo tempo, é muito natural e sincera. Ela jamais exagera. Além disso, é uma atriz que consegue olhar para suas experiências pessoais na intenção de extrair o necessário para a personagem. Para os demais atores, fiz testes em trios para perceber quais atores realmente pareceriam irmãos e irmãs quando estivessem juntos. Depois disso, eles se encontraram bastante antes das filmagens, para criar um pequeno grupo. Organizamos jantares com minha família real, incluindo meus filhos e os filhos de Sandrine. Foi como os jantares que costumo fazer em casa: mesmo quando as pessoas não se conhecem, faço questão que se tornem amigos.

    Thaïs Alessandrin: Além disso, Sandrine tem uma filha da mesma idade que eu. Ela passou por uma situação muito semelhante quando a filha prestou o vestibular e depois pensou nas possibilidades de faculdade.

    Diriam que esta família é universal, ou tipicamente francesa?

    Lisa Azuelos: Para mim, esta é uma família tipicamente norte-americana, na verdade. Talvez também seja o caso no Brasil, por ser um país muito grande. Nos Estados Unidos, é comum os filhos saírem de casa e se mudarem para cidades muito distantes para estudarem. Na França, os jovens costumam ficar no país. Mas para os americanos, depois da graduação, a tendência é partir para algum lugar distante.

    É diferente a experiência de dirigir a sua filha, ou ser dirigida pela própria mãe?

    Thaïs Alessandrin: É muito reconfortante! Adoro interpretar, mas também posso ter muito medo do olhar dos outros. Então, saber que terei o olhar da minha mãe, que vai ser sempre muito encorajador, é a situação perfeita, especialmente para uma atriz iniciante como eu. Deste modo, eu me senti muito mais confiante para interpretar. Foi mais um apoio que outra coisa.

    Lisa Azuelos: Tem a cena que faz referência a O Desprezo de Godard, por exemplo. Thaïs aparece nua na cama. Nós conversamos sobre a melhor maneira de filmá-la, e foi ela mesma que me disse: “Se esta é uma homenagem àquele filme, precisamos fazer de verdade, sem roupas, como na cena original”. Então fizemos assim.

    Consideram Meu Bebê um filme feminista?

    Lisa Azuelos: Bom, uma das ideias do filme é mostrar claramente que a vida é possível sem um homem. Mesmo assim, esta personagem é muito solitária. O filme não defende a independência, porque eu não acredito na independência, e sim na interdependência entre as pessoas. Meu Bebê se abre à constatação de que é possível viver tanto com um homem ou uma mulher, ou quem quer que seja. Mesmo assim, cria-se um vazio que pede por um anseio novo: uma mudança, algo diferente. É possível ser uma mulher sozinha, mas o filme insiste no fato de que não é nada fácil viver assim. Pode ser muito triste, porque este não é ideal: o melhor seria ter duas pessoas para criar um filho.

    Criar um filho sozinho tem se tornado uma realidade cada vez mais comum.

    Lisa Azuelos: Com certeza. Em Paris, metade das famílias são monoparentais, e na França inteira, este número representa um terço das famílias. Entre elas, 80% são compostas apenas pela mãe. Este é um tema importante e difícil de abordar. Eu preferi abordar o tema dentro de um meio social que não atravessa graves problemas financeiros, mas quando se tem um filho e precisa cuidar dele sozinho, sem dinheiro e com um pequeno emprego, a situação é bem mais grave – e isso geraria outro filme totalmente diferente.

    Quais são as principais diferenças geracionais que pretendiam mostrar no filme?

    Lisa Azuelos: Nem sempre a ideia foi me concentrar nas diferenças, mas é evidente que os jovens estão muito mais acostumados com a tecnologia do que a minha geração. Além disso, existe uma maneira de se preocupar que é diferente. A minha geração se angustia muito mais diante dos problemas. Os novos adolescentes têm certa indiferença, uma despreocupação que contrasta muito com a nossa maneira de lidar com os problemas.

    Thaïs Alessandrin: Mesmo assim, esta é uma mãe muito aberta, progressista, que aceita conversar tranquilamente sobre sexo e drogas. Mas a minha mãe queria mostrar que esta é uma possibilidade também: é possível ser amigo dos filhos sem brigar com eles o tempo inteiro. De certa maneira, esta foi a maneira dela de nos proteger, ao invés de proibir as coisas. Ela preferia saber sobre as besteiras que fazíamos para estar presente e ajudar no que fosse possível. A sinceridade numa relação entre mãe e filha é muito bem-vinda.

    Lisa Azuelos: Eu nunca gostei da autoridade. Este é um defeito meu: nunca soube impor as coisas de maneira autoritária.

    Thaïs Alessandrin: No entanto, é este aspecto que nos dá vontade de protegê-la. Eu sei que, quando cometo algum erro, ou faço algo errado, não vou levar bronca, mas vou vê-la muito decepcionada e triste comigo. Para mim, isso é impensável, eu detesto decepcioná-la. Esta é outra maneira de se fazer respeitar.

    O filme se concentra bastante na questão das redes sociais.

    Thaïs Alessandrin: A minha geração é muito dependente das redes sociais. Muitos adolescentes passam horas por dia nas redes, enquanto meus pais se dedicavam muito mais à leitura. Para eles, eu tenho impressão de que a comunicação se torna mais simples e visual: muitas mensagens são resumidas a uma foto, uma imagem. Existe menos complexidade nas trocas sociais.

    Lisa Azuelos: O tempo de concentração mudou muito nessa geração. Não há muita paciência, porque eles exigem que seus desejos sejam satisfeitos imediatamente. Esta relação com a vida muda demais em relação à minha geração, quando não se consegue conceber a ideia de um tempo até a concretização dos seus desejos. Na verdade, o filme nasceu desta ideia: eu sabia que a minha filha iria partir, então comecei a filmá-la com o telefone. Eu queria guardar essas imagens para mim. O filme nasceu disso. Era também a oportunidade de inverter as expectativas. As pessoas sempre reclamam que os adolescentes não desgrudam do celular, mas aqui é o contrário: a mãe filma o tempo todo. Assim nós discutimos como o celular se tornou a memória das pessoas. Quando perdemos o aparelho, o que nos resta?

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