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Admirável Mundo Pop: As cinebiografias precisam mostrar as verdades, mesmo que elas nos incomodem
Por Pablo Miyazawa — 05/06/2019 às 12:00
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Rocketman provou que é possível criar espetáculos baseados em fatos reais que não agridem a inteligência do público. O que esperar depois disso?

Rocketman estreou nos cinemas do mundo na semana passada. Se você não assistiu, vá ver agora. Não é preciso gostar de musicais ou ser fã de Elton John para apreciar um filme que foi feito para ser divertido e espetacular na medida certa. 

Sem pensar muito, dá para interpretar este filme como uma versão mais audaciosa e criativa de Bohemian Rhapsody, o tão premiado quanto polêmico longa sobre a trajetória de Freddie Mercury e da banda Queen. Ambos carregam tantas semelhanças que uma comparação direta é inevitável. Meu veredicto simplificado é o seguinte: o filme de Elton é muito melhor e mais honesto do que o de Freddie, e não é apenas porque um foi lançado após o outro e aprendeu com os erros do primeiro.

Sobre os problemas de Bohemian Rhapsody, eu escrevi nesta coluna há alguns meses. Por ser um filme que se presta a ser quase um documentário histórico, há permissões em excesso que divulgam uma versão maquiada da verdade e acaba prestando um desserviço ao grande público. Escrevi: "O filme escolhe uma versão da realidade que convém aos envolvidos, que pode ser interpretada como superficial, tendenciosa e até um tanto moralista, e é isso que o público experimenta durante mais de duas horas."

Bohemian Rhapsody Trailer Legendado


É exatamente o oposto do que Rocketman se propôs a fazer. Elton John deu carta branca e estimulou que o roteiro de Lee Hall fosse o mais honesto possível sobre os temas mais espinhosos de sua vida. Houve pouca economia no combo "sexo gay, consumo de drogas e depressão", ainda que esses elementos sejam mostrados de maneira leve, quase lúdica. Além disso, houve a brilhante habilidade do diretor Dexter Fletcher em fazer as letras das canções guiarem a narrativa como números musicais. Essa escolha não só proporcionou um clima constante de sonho e fábula, como livrou o filme das amarras cronológicas e enciclopédicas que são as linhas condutoras das cinebiografias típicas. Dessa forma, Taron Egerton ficou mais solto para criar sua versão de Elton sem precisar imitar milimetricamente os trejeitos do original.

Por outro lado, Bohemian Rhapsody tentou ser um tipo de filme fiel aos fatos, como um documentário "Behind the Music" turbinado por Hollywood, e por isso foi mesmo, foi duramente criticado quando distorceu a realidade em benefício da narrativa (e para satisfazer os interesses dos membros da banda). O fato de Freddie Mercury não estar vivo certamente favoreceu a existência desse filtro editorial, além de também contrinbuir para que a interpretação de Rami Malek fosse mais caricata, por vezes quase beirando a paródia -- o que não o impediu de ser amplamente premiado por isso. 

Dificilmente Rocketman vai se sair melhor nas bilheterias e nas premiações do que Bohemian e seus US$ 900 milhões de faturamento mundial e quatro estatuetas do Oscar. E conforme questionou este crítico, será que isso acontecerá porque o primeiro é um filme mais abertamente gay do que o outro? Ou a cinebiografia do Queen foi um grande sucesso porque apresentou um produto mais suave e família, que mexe com menos feridas do que a história de Elton John? O tempo vai dizer -- e as premiações do ano que vem também. 

 

Mas descontados os troféus, o dinheiro e as críticas, qual desses dois filmes trata melhor os fãs de cada artista? Esta é uma discussão infinita porque envolve qualidade e opinião, fatores não exatos e dificlmente discutíveis. Mas é uma conversa necessária, porque tudo indica que veremos cada vez mais filmes baseados em personalidades reais e recentes, muitas que ainda estão entre nós. É diferente de assistirmos às histórias de figuras clássicas de eras passadas como Cleópatra, Mozart, Hitler ou Lincoln. As imagens que temos dessas pessoas já estão atreladas aos ícones eternizados nos livros há décadas, séculos. É diferente quando vemos na tela um ator ou atriz interpretando uma celebridade pop que estamos acostumados a acompanhar -- justamente os casos de Freddie Mercury e Elton John.

Estou pensando nisso e refletindo sobre os possíveis filmes sobre celebridades da música que eu gostaria de ver. Entre os mortos, os nomes que vem à mente são Elvis Presley, David Bowie, Prince, Michael Jackson, John Lennon e Aretha Franklin; entre os vivos, Madonna, Ozzy Osbourne, Bob Dylan, Paul McCartney, Mick Jagger & Keith Richards. Eu adoraria ir ao cinema para ver cinebiografias incríveis sobre essas pessoas incríveis. Mas será que posso ter altas expectavivas a respeito da verdade dos fatos? Rocketman nos provou que isso é possível. Mas será que os artistas ou os responsáveis por seus legados vão querer nos proporcionar isso?

Daqui em diante, esta será a eterna questão inconveniente a respeito dos filmes sobre as vidas de celebridades: o quanto a fidelidade é um elemento crucial para avaliamos a qualidade do produto? A dura verdade é que não temos como saber se um fato visto nas telas realmente se deu daquele jeito na vida real. Porque se algo está no filme, deveríamos presumir que foi assim que aconteceu na realidade, certo? Ou será que não? No fundo, será que isso importa tanto?

Para mim importa. E para você?


Pablo Miyazawa é colunista do AdoroCinema, apresentador do programa Mitos do Pop e consome entretenimento desde que nasceu, há 40 anos, de Star Wars a Atari, de Turma da Mônica a Twin Peaks, de Batman a Pato Donald. Como jornalista, editou Rolling Stone, IGN Brasil, Herói, EGM e Nintendo World.


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