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    "O cinema é a memória de um país", afirma a montadora Cristina Amaral, tema de retrospectiva em São Paulo (Exclusivo)
    Por Bruno Carmelo, com a colaboração de Maria Clara Guedes — 17/05/2019 às 07:50
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    Em maio, o Sesc Pompeia apresenta sete filmes montados por Amaral.

    Divulgação

    No dia 18 de maio, o Sesc Pompeia, em São Paulo, presta homenagem a uma das principais montadoras do audiovisual brasileiro em atividade: Cristina Amaral, que tem mais de 60 filmes no currículo. Ela trabalhou em alguns dos projetos nacionais mais ousados desde 1993, incluindo Serras da Desordem (de Andrea Tonacci), Alma Corsária (de Carlos Reichenbach) e O Homem que Não Dormia (de Edgar Navarro).

    Serão apresentados sete filmes, entre curtas e longas-metragens, de diferentes anos e estilos. Além disso, Amaral estará disponível para debater com o público no dia 19 de maio, com mediação da diretora Joana Collier e da pesquisadora Sheila Schvarzman. Você descobre os filmes, horários e demais informações na página oficial do evento.

    O AdoroCinema aproveitou para conversar com a montadora, em exclusividade:


    Humberto Araújo / Divulgação
    Cristina Amaral recebe homenagem no Festival de Brasília 2018

    De que maneira você enxerga as mudanças no seu processo de edição do princípio até agora?

    Cristina Amaral: Fui assumindo mais responsabilidades com o tempo, e isso muda o jeito de trabalhar com o material. Na verdade, eu não chamo de edição, chamo de montagem. Aqui no Brasil existe uma diferença radical entre uma coisa e outra. Na montagem, você trabalha a estrutura do filme e a edição é muito ligada à edição linear do filme. Já encontrei editores muito bons, que pensavam junto a montagem, mas eles te exigiam que você dissesse o que fazer. Eu sempre peço para ser creditada como montadora nos filmes que faço. 

    Com o tempo, o montador passa a ter mais consciência do trabalho e abraça uma responsabilidade maior. Se eu recebo o material de um diretor jovem, que não sabe muito bem o rumo que vai tomar, o filme se torna um pouco responsabilidade minha também. Tenho um compromisso não apenas com o meu trabalho, mas com o cinema, com o resultado na tela. Considero o ego como algo negativo no processo de trabalho, mas elencar funções em ordem hierárquica também é muito ruim. Então eu parto do princípio que esta é uma responsabilidade conjunta.

    Você considera o montador como coautor do projeto?

    Cristina Amaral: Existe autoria sim, mas dentro do processo do meu trabalho. Eu não disputo a autoria do filme com o diretor, porque são jeitos diferentes de estar no mundo. Ser diretor não consiste apenas em estar na capa jornal ou frequentar os festivais de cinema. É uma responsabilidade de capturar questões do mundo, questões que não são apenas suas. É algo mais árduo e angustiante do que o trabalho de um montador, por exemplo. Para mim, como montadora, o que importa é deixar o filme da melhor maneira possível. O aspecto mais rico do processo é me confrontar com meus limites, me forçar a ir além. Eu já fiquei com vergonha de um prêmio que recebi num festival, porque considerava outros trabalhos de montagem em competição bem melhores. Mas isso é a vida.

    Serras da Desordem, dirigido por Andrea Tonacci

    Percebe tendências de montagem ou de ritmo específicas ao cinema brasileiro contemporâneo?

    Cristina Amaral: Se eu percebo alguma tendência, já começo a desgostar, porque cada filme é único. Quando você segue uma tendência, acaba impondo ao filme uma forma que poderia ser diferente. Eu nem me preocupo em detectar tendências, mas quando percebo alguma linha, ela se encontra na realização, no resultado dos filmes. Existe a imposição de fundos, de patrocínios, de pitching. No entanto, o cinema que me interessa é aquele que foge às imposições, que reage, que é rebelde. Meu olhar se volta para os projetos que se arriscam.

    Este foi o caso do trabalho com Carlos Reichenbach e Andrea Tonacci, certo? Percebe outros diretores jovens que sigam este caminho mais ousado?

    Cristina Amaral: Se tem dois realizadores que serviram de caminho para as novas gerações foram estes dois, pela compostura, pela ética, pela estética, pela visão de mundo. Seria injusto dizer que os jovens diretores sofrem influência direta deles, porque realizam um trabalho muito pessoal, mas enxergo certa afinidade, uma parceria com esse cinema. Se tivesse que citar, diria o Adirley Queirós, o Thiago B. Mendonça, o André Novais, e mesmo o Carlos Adriano, que também possui uma trajetória particular. É claro, posso estar me esquecendo de nomes importantes. Mas estes comungam na busca de uma expressão própria, sem pegar modelos. Isso é algo de que gosto muito neles.

    De que maneira Reichenbach e Tonacci trabalhavam a montagem?

    Cristina Amaral: Trabalhar com os dois é uma delícia, cada um ao seu jeito. Eles me davam liberdade, e exigiam que eu exercesse a liberdade - a proposta era essa. O Carlão escrevia roteiros muito bem trabalhados, mas quando chegava na sala de montagem, ele estava aberto às ideias que viriam. Os dois contavam muito com a minha participação, o que considero um luxo, um privilégio. Se eu ficasse esperando eles me falarem o que fazer, eles brigariam comigo, porque a intenção era justamente compor, participar, trazer sugestão, encontrar o caminho do filme juntos.

    Garotas do ABC, dirigido por Carlos Reichenbach

    O processo é o mesmo para ficção ou documentário?

    Cristina Amaral: Sim, a busca é sempre a mesma. Alguns filmes parecem ajeitadinhos na reta final da montagem, mas algo incomoda porque o filme não está dizendo nada. Ele não cutuca, não me provoca, então vou ter que brigar muito para conseguir achar a essência desse filme. O filme é uma experiência única, por isso nunca posso ser movida por certezas, e sim pela mais completa curiosidade, o mais completo desejo.

    Às vezes é engraçado porque alguns diretores falam bastante sobre como gostariam que a montagem fosse. Eu escuto, gosto de conversar e ler o roteiro para ter um pouco de contato com aquela cabeça que gerou o material que eu estou recebendo. Mas é o material que vai me dizer como vou montar, e aí acontecem transformações maravilhosas e emocionantes. Me emociono de ver como o filme se transforma nesse processo. É como botar a bola no chão e começar o jogo de novo. Você foi lá filmar, na montagem você bota a bola no chão e começa tudo de novo. Às vezes uma coisa que a gente escolheu não se resolve bem no processo de montagem, então a gente tem que olhar o material bruto de novo e encontrar uma opção melhor.

    Você tomaria a liberdade de dizer "Isso não está montando, seria preciso filmar mais, ou filmar de novo"?

    Cristina Amaral: Filmar é sempre complicado por questões de orçamento. Raramente o filme tem condição de refilmar alguma coisa. Eu uso essas situações como desafio para buscar um caminho diferente. Na verdade, a única vez que eu tive uma interferência assim foi quando um diretor estreante me mandava o material conforme filmava. Quando vi os primeiros materiais, percebi que se ele continuasse naquele rumo, ia ser muito complicado, o resultado seria empobrecido. Ao mesmo tempo eu percebi outras coisas filmadas por ele constituíam na verdade o ouro do filme. Então eu dei um toque para ele.

    Com o Carlão, em todos os filmes ele exigia que eu fosse uma vez no set, mas eu passava o dia com a equipe e não abria a boca. Ele me perguntava se estava bom, e eu só respondia "Ta ótimo". Talvez eu pense na hora que alguma cena não seja necessária, mas quem sou eu para saber? Eu corro o risco de limitar um processo de trabalho. Quero que ele me traga mais, entendeu? A gente não tem certeza absoluta de nada, você pode pensar que algo não é importante, mas talvez seja aquilo que vai salvar o filme.

    Do mesmo modo, eu não gostaria que viesse um produtor interferir no meu trabalho, ou outro editor, portanto não vou fazer isso com ninguém. Quanto mais liberdade cada etapa do processo tiver, é melhor porque você vai somando, construindo um resultado mais rico. 

    Abaixo a Gravidade, dirigido por Edgar Navarro

    Como foram definidos os filmes desta homenagem?

    Cristina Amaral: A gente sugeriu alguns títulos, mas também precisei me preocupar com o tempo de exibição. Primeiro, pensei nos realizadores que viraram parceiras de vida para mim. O Carlão é um amigo com quem eu falava sempre - se a gente não se telefonasse pelo menos uma vez por semana, para falar durante horas, a semana não estaria completa. Com o Andrea nem se fala, era uma convivência 24h por dia, a gente ficava nessa casa trabalhando, conversando. Então esses filmes são uma extensão da minha vida.

    Pensei também no Edgard Navarro, que se tornou um parceiro desde O Homem que Não Dormia, e que também virou um bom amigo, apesar da distância. No caso do Carlos Adriano, selecionei apenas um filme. Ele é um dos poucos diretores que, na minha opinião, deveria montar os próprios filmes porque ele possui processo muito particular. Ele junta pesquisa de imagem com poesia, o que é maravilhoso. Foi um privilégio ter sido a única pessoa que montou um filme dele além dele mesmo. Foi um recorte pessoal mas também teve a ver com o cinema em que eu acredito. Se eu tivesse espaço, colocaria o novo filme do Thiago Mendonça, que acabei de montar. 

    Neste momento complicado para o audiovisual brasileiro, acredita que a saída seja buscar por formas e estéticas mais radicais?

    Cristina Amaral: Primeiro a gente tem que brigar contra esse governo. Não estou entendendo o país. Tudo bem, está todo mundo cansado, desanimado, mas a gente tem que reagir, a gente tem a obrigação de deixar o mundo melhor para as pessoas mais jovens que estão vindo. Eu não sei que caminho que a gente vai fazer porque os golpes estão sendo dados de formas diferentes atualmente, e as reações não podem ser iguais às de antigamente, porque aquelas não resultam mais. 

    Os únicos grupos no Brasil que sabem reagir corretamente e eficientemente são os indígenas e as comunidades de escolas de samba. A gente viu o carnaval do ano passado, com a Paraíso do Tuiuti e o desfile da Mangueira: essas são respostas eficientes. O acampamento indígena em Brasília recentemente foi um exemplo: se a gente quiser prestar atenção, é por aí. Agora, no cinema a gente tem que continuar fazendo filmes em que acreditamos. Tem muita gente fazendo filme a troco de nada, porque acredita que vai dar certo. A gente tem muita responsabilidade com a imagem que está botando na tela. 

    No fundo, precisamos pensar que algumas coisas que demoraram setenta anos para serem construídas agora são jogadas fora com uma canetada. Mas alguns filmes já estão falando sobre isso, pensando essa realidade, como Jovens Infelizes ou um Homem que Grita não É um Urso que Dança e Era uma Vez Brasília. Outro filme incrível, mas que passou batido, foi Em Nome da América.

    Talvez fosse preciso neste momento organizar uma mostra de filmes políticos de verdade, não aqueles ligados a partidos, e retomar essa discussão. Você não precisa ser explícito e panfletário, mas o cinema é a tradução em imagem, é a memória que vai ficar de um instante, de um país, de um mundo. Cada filme que a gente faz é o pedacinho de um mosaico será visto por alguém daqui a cem anos.

    De certa forma, a gente já teve uma mudança na produção dos filmes brasileiros quando se abriu a questão das cotas. Com as cotas nas universidades, você abre acesso a pessoas que chegam com toda a garra do mundo. Elas estudam, elas sabem muito de cinema e têm muito a dizer por causa de sua vivência. Existem filmes muito potentes nesse sentido. Acredito que teremos uma resistência, e esses filmes continuarão. Guerrilha por guerrilha, lutar é o que temos feito até agora. A gente vai encontrar um elemento a mais na guerrilha para continuar fazendo esses filmes, mas não dá para ser panfletário, partidário, maniqueísta. Precisamos construir uma reflexão sobre o momento em que vivemos.

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