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    A Sombra do Pai: "Jorge é meu Frankenstein", diz Gabriela Amaral Almeida sobre o personagem de seu novo filme
    Por Barbara Demerov — 1 de mai. de 2019 às 09:08
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    Novo terror da diretora de O Animal Cordial estreia nesta quinta-feira (02).

    Uma família que, aos poucos, vai observando sua ruína. Uma menina de 9 anos que precisa se portar como adulta enquanto vê a ordem natural das coisas se perder diante de seus olhos, e um pai cada vez mais perdido e distante psicologicamente de sua filha.

    A Sombra do Pai, novo filme de Gabriela Amaral Almeida, utiliza referências de clássicos do terror (como A Noite dos Mortos-Vivos, de George A. Romero) para contar uma história sobre perda, ausência de afeto e a escuridão contida no sistema de trabalho – e ainda inserindo o sobrenatural como pano de fundo.

    Entrevistamos a diretora e o ator Julio Machado (intérprete de Jorge, o pai) sobre o filme. Leia a entrevista abaixo:

    AC: Gabriela, o terror em A Sombra do Pai é muito mais intimista do que em O Animal Cordial. Como você equilibra cada filme de terror seu?

    Gabriela Amaral Almeida: Eu não sei. Eu acho que cada história que, para o artista, cada obra é uma parada dentro de um contexto social, filosófico, contextual que ele está vivendo. Então, se ele tem que fazer um filme por ano, esses filmes serão diferentes. Acho que a pulsão para fazer esses filmes não é algo calculado. Depende de como você está se sentindo e absorve as ansiedades que estão no ar. A Sombra do Pai foi desenvolvido ao longo de oito anos, então é um outro tipo de desenvolvimento - ainda que em pré-filmagem você sempre mexa no roteiro para que ele esteja perto emocionalmente de você; mas não tem um cálculo matemático, não. O que eu procuro é estar sempre sintonizada com a forma como eu estou me sentindo em relação ao mundo, porque a narrativa é só uma ilustração disso. É como se fosse um totem meu, um pedaço do que eu vivi em determinado momento. Talvez, daqui 20 anos, eu olhe para meus filmes e não me reconheça mais.

    AC: Até quando revemos um filme depois de um tempo, a gente também tem uma visão diferente.

    Gabriela: Totalmente! A gente entra por outras portas. O filme, a partir do momento em que ele está no mundo, ele é do mundo. Não falo isso de uma forma cabotina, mas de uma forma honesta. Eu acho que durante este processamento pelo mundo o filme me ensina muita coisa - e é isso que me dá vontade de continuar filmando.

    AC: O filme tem um quê de Cemitério Maldito, A Noite dos Mortos Vivos... A Gabriela é muito fã de terror, mas para você, Julio, como foi trabalhar um personagem tão sombrio? Você se inspirou de alguma forma nos personagens destes clássicos?

    Julio Machado: Eu procuro abordar cada trabalho como uma página em branco, tento chegar o mínimo contaminado possível de referências. Aqui tinha um desafio evidente dele ser um morto-vivo. Não tinha grandes curvas. O principal caminho era encontrar um estado performático, um estado contínuo. Isso de estar no mundo sufocado pelo funcionamento do trabalho, ser autômato.

    AC: E com o medo de perder tudo...

    Julio: Sim, o medo e a resistência em assumir esse medo, em enfrentar essa sombra. Em não largar o osso daquele papel que tem de ser cumprido: de pai, provedor, de homem. Eu encontrei nesse trabalho a possibilidade de me repensar pessoalmente, como cidadão contemporâneo. Foi encantador esse percurso, porque contraditoriamente - apesar da densidade, o fato de ser sombrio - o processo todo foi muito amoroso, com muita delicadeza e humanidade a cada encontro. Foi muito curioso poder viver essa dualidade.

    AC: Como foi trabalhar com a Nina Medeiros (Dalva)? Ela diz muito apenas com o olhar.

    Julio: A Nina nos deu tudo. Existia uma cautela dos adultos ao lidar com ela, afinal ela é uma criança e o clima não era exatamente leve (risos). Mas ela ia nos surpreendendo com sua sagacidade, com a capacidade de distanciamento.

    Gabriela: A noção de que era uma brincadeira...

    Julio: A noção de que era um jogo. Foi um imenso aprendizado observá-la e lidar com ela.

    AC: Há uma cena em que Dalva fala que seu pai 'está igual um zumbi'. Mas o seu comportamento, além de remeter aos mortos-vivos, tem muito de ser negligente na família. Ele quer prover mas ao mesmo está distante. Como foi trabalhar esse personagem complexo?

    Gabriela: Jorge é meu Frankenstein. Gosto de pensar assim. O Jorge tem essa estrutura patriarcal, capitalista e cruel, mas ele não é mau de partida, ele não possui um caráter ostensivamente ruim como acontece com o Inácio, em O Animal Cordial. Jorge não é perverso. Toda a ação negativa dele vem de seu sofrimento.

    A Sombra do Pai estreia nos cinemas em 02 de maio.

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