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Nós: Decifrando o filme de Jordan Peele
Por Laysa Zanetti — 27/03/2019 às 20:20
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Os símbolos, significados e interpretações dos muitos elementos do terror protagonizado por Lupita Nyong'o.

Atenção! Contém SPOILERS de Nós, de Jordan Peele.

Quando o próximo filme de Jordan Peele após Corra! é tão arrebatador e convidativo a debates como Nós, o melhor que “nós” temos a fazer é prestar atenção ao que o cineasta está dizendo e mergulhar nas conversas — nas muitas conversas, aliás — que o longa propõe.

Por isso, se você já assistiu ao filme (aliás, quem já viu mais de uma vez?) e está sedento por um debate, aqui é o seu lugar. É claro, estamos cientes de que Nós é um filme que propõe muito mais perguntas do que de fato as responde, e que, justamente por isso, dá espaço a múltiplas interpretações de seus pontos-chave. Portanto, nosso objetivo não é bater o martelo sobre o significado exato de cada elemento ou símbolo, e sim abrir um espaço em que variados pontos de vista são válidos.

Diferente de Corra!, que tem um forte viés voltado para a discussão do racismo, Nós não é uma obra voltada especificamente para o debate sobre cor. Em entrevista ao Digital Spy, Peele já havia explicado: “Obviamente, meu primeiro filme tinha um protagonista negro e acho que era muito sobre raça, mas penso que é uma declaração tão válida quanto fazer um filme de terror com uma família negra no centro, e ser simplesmente isso.

É claro que a discussão sobre o racismo segue presente, ainda que de outras formas — mais velada, irônica —, mas o maior distanciamento entre Corra! e Nós é que o primeiro tem um ponto de vista muito mais certeiro, um objetivo e uma interpretação claras. Nós, por outro lado, não está interessado em respostas simples, o que o coloca no meio do caminho entre o cinema de arte e o terror popular.

Protagonizado por Lupita Nyong’o, Winston DukeElisabeth Moss e Tim Heidecker, Nós acompanha o casal Adelaide (Nyong’o) e Gabe (Duke), que decide levar a família para passar um fim de semana na praia e descansar em uma casa de veraneio. Eles viajam com os filhos e começam a aproveitar o ensolarado local, mas a chegada de um grupo misterioso muda tudo e a família se torna refém de seus próprios duplos.

Quem são as Sombras?

Deliberadamente, o filme deixa sem respostas muitas perguntas em relação aos Tethered, ou Sombras. No trecho final do filme, Red (Nyong’o) explica a origem de seu povo para Adelaide, e embora o público saia ávido por entender profundamente quem são esses vilões, a obra deixa não entrega uma resposta completa.

O que entendemos é que as Sombras são partes esquecidas de um experimento científico, cujo objetivo era controlar a alma humana. Como, exatamente? Não sabemos, mas a possibilidade é de o teste ser parte de algum estudo que mescla ciência e misticismo. As Sombras são apresentadas como cópias das suas “originais” (ou seja, as da superfície), relegadas aos túneis subterrâneos e forçadas a repetirem os atos e as ações dos que estão no mundo superior. As duas versões estariam ligadas pela cópia da alma, mas os pormenores disso ficam no ar.

Mas o que eles representam? A teoria mais direta os coloca como uma reflexão a respeito de olhar para si mesmo, e se responsabilizar pelas consequências dos próprios atos. Em entrevista concedida ao podcast The Big Picture, o Peele refletiu:

“Com Nós, eu só percebi que precisava fazê-lo quando entendi que havia uma parte suprimida da conversa sobre cultura que eu poderia abordar. Essa parte suprimida é a nossa falta de habilidade de apontar o dedo para nós mesmos, para nossas facções. Seja com a família, o país, ou mesmo com nós mesmos enquanto indivíduos, nossa própria responsabilidade. Estamos tão habituados a apontar para fora [...] que precisamos investigar em nós mesmos e descobrir qual é a nossa parte em todo o mal.”

Mas a ideia de uma grande parcela da população vivendo em túneis subterrâneos, restrita de oportunidades e relegada ao esquecimento é uma clara referência também à exclusão social. As Sombras representam a opressão sócio-política das classes marginalizadas. Sem apoio e sem condições, essas pessoas esquecidas pelo governo e pelo restante da sociedade não têm como crescer, relegadas ao esgoto e à base da pirâmide. Eles não têm forma alguma de subir porque são ignorados por todos à volta, e por isso se sentem injustiçados e são ávidos por vingança.

O que significa a reviravolta final?

O último giro da faca do roteiro de Jordan Peele vem quando descobrimos que a jovem Adelaide e a jovem Red trocaram de lugar quando as duas se encontraram na Casa dos Espelhos, no início do filme. É exatamente por isso que Red é a única das Sombras que fala durante o filme, sendo a líder da revolta — ela é a única que viu o mundo superior, que tem uma alma “original.” E a Adelaide por quem torcemos durante todo o filme era a versão criada nos experimentos científicos.

A reviravolta transforma a história de Adelaide e Red em uma tragédia. Neste momento, entendemos que o horror de Adelaide, a ansiedade que ela sente quando chega a Santa Cruz, é na verdade uma mulher sentindo toda a culpa dos atos do passado voltando para perseguí-la. Ela sabe que acabou com a vida de alguém e que a sua outra (Red) teria tido uma ótima vida. Mas você a culpa por ter feito a troca, depois de ter visto como ela vivia nos túneis subterrâneos?

A revelação também força o espectador a revisitar os conceitos que construiu a respeito de ambas as personagens, porque é como se Adelaide fosse o “lobo em pele de cordeiro.” Precisamos enxergar que a verdade (e isso se aplica a política e ideologias) é mais complicada do que parece. Qual lado é o bom, qual lado é o ruim?

Além disso, trata-se de um forte discurso contra a ideia de que existe meritocracia. Durante o filme, vimos as Sombras como “versões zumbificadas” das pessoas da superfície, os entendendemos como um grupo que não sabe se comportar em sociedade. Mas tudo isso cai por terra quando a personagem criada no subterrâneo recebe as mesmas oportunidades que os “de cima”. Adelaide desponta e brilha: ela excede na dança, constrói uma família linda, tem uma vida estável com dois filhos e o marido. Para que as parcelas esquecidas da população alcancem bons lugares, é preciso que seja a elas oferecidas as mesmas oportunidades que aos mais ricos.

Quem somos Nós?

A simplicidade do título do filme esconde um jogo de palavras interessante. Quando Red responde que ela e sua família são “americanos”, a brincadeira fica mais clara: Us (título original) pode ser lido tanto como “Nós” quanto como a abreviatura para Estados Unidos (United States). Esta dualidade deixa ainda mais clara a alusão política do filme e os diálogos que trava com a falta de oportunidades e a divisão social que abarca não apenas os Estados Unidos, mas que tem ficado em bastante evidência no país com a forte divisão amplificada pelo governo Trump.

“Estamos em um momento em que temos medo do outro, seja este outro o misterioso invasor que pode nos matar ou tomar nosso emprego, ou a facção que não mora perto de nós e que votou diferente nas eleições. Talvez o mal seja nós. Talvez o monstro para quem estamos olhando tem a nossa própria face”, comentou Peele durante uma sessão de perguntas e respostas no SXSW.

O que Nós está dizendo, com esses símbolos, é que os americanos são os piores próprios inimigos. Ou será que é outra coisa? O próprio diretor e roteirista admite que é muito desafiador sair com uma simples interpretação e definição para o que está acontecendo no filme, e inclusive a própria definição de qual lado é o “bom” ou “ruim” é totalmente questionável.

“É um filme sobre trauma”, explicou ao Fandango. “E trauma geracional, e sobre essa ideia de que aquilo que acontece em nossa ancestralidade ou o que acontece com a geração anterior nos afeta e abala. É sobre como aquilo que enterramos e tentamos não enfrentar afeta o mundo que está à nossa volta.”

Jeremias 11:11

Para a numerologia e a filosofia, a sequência “11:11” carrega seus próprios misticismos. É visto por uns como um aviso, por outros como um sinal de mau agouro de que algo terrível está para acontecer. Em alguns casos, é associado à teoria da sincronicidade, de Carl Jung:

A teoria acredita em acontecimentos que coincidem não por “relação causal”, e sim por significado. Ou seja, não existem reais coincidências, e sim eventos que se sincronizam por algum motivo, algum padrão. Para entender justamente esses “padrões”, Jung se uniu ao físico Wolfgang Pauli, dando início às pesquisas interdisciplinares em Física e Psicologia. Lembrou da união entre ciência e misticismo dos experimentos que deram origem às Sombras? Pois é.

Mas a passagem bíblica citada no filme também faz algumas alusões perturbadoras. “Portanto assim diz o Senhor: Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei.” Desta forma, o “mal” é trazido pelas Sombras tomando uma forma e assumindo uma revolução, mas a segunda parte do verso — sobre não ouvir — pode também ser relacionada à falta de vozes. As Sombras não conseguem exatamente falar, apenas Red tem a habilidade. E, ainda assim, com dificuldade.

O Subterrâneo

De onde surgiram os macacões vermelhos, as luvas e as tesouras? Nós não se debruça sobre tais questões — detalhes que não obrigatoriamente precisam ser explicados. Mas Jordan Peele explicou o significado, pelo menos, das tesouras:

“Há uma dualidade das tesouras — um inteiro feito de duas partes, que mora neste território entre o mundano e o absolutamente aterrador”, disse em entrevista à EW.

Já os coelhos, um símbolo bastante claro de animais usados em experimentos científicos, constróem uma forte analogia com a internet. Sendo o mundo subterrâneo uma referência à rede mundial de computadores, os animais (fortemente reprodutores) simbolizam a viralização de conteúdos/ideias, sendo que as Sombras são versões “anônimas” dos internautas. Os infinitos túneis e labirintos do mundo subterrâneo, por sua vez, simbolizam diferentes recantos da internet, e o todo representa o caráter nocivo das redes.

Mas os bichinhos ainda escondem um possível easter-egg: na primeira cena de Corra!, o personagem de Lakeith Stanfield é capturado, ao som justamente da música "Run Rabbit Run", de Flanagan and Allen. Temos aqui um pequeno segredo do "universo Jordan Peele."

Hands Across America

O Hands Across America foi uma campanha publicitária beneficente. No dia 25 de maio de 1986, 6,5 milhões de pessoas nos Estados Unidos seguraram as mãos em uma cadeia humana por quinze minutos ao longo de um caminho contínuo, em um símbolo de uma nação unida lutando por um futuro melhor. Cada pessoa deveria doar US$ 10, e o dinheiro arrecadado foi revertido para fundos de campanhas contra fome. No fim, mais de metade dos US$ 34 milhões arrecadados foi gasta nos custos operacionais. Ou seja, tudo não passou de grande gesto que não significou nada, não consertou o que queria.

Para Jordan Peele, o Hands Across America “foi uma demonstração que compacta a dualidade da América em um símbolo perfeito. Esta esperança — se segurarmos as mãos, podemos curar a fome e o desabrigo — foi bem intencionada. Mas foi uma solução ou uma forma de não lidar com as questões?”

Mas como isso se relaciona com o filme e com o objetivo das Sombras? Acaba sendo um desfecho irônico: eles matam seus opressores, mas se unem em um símbolo vazio, em uma esperança (provavelmente frustrada) de que o gesto fará com que todos entendam os objetivos do grupo.

O que você acha? Deixe nos comentários sua interpretação do filme!

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