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    Admirável Mundo Pop: Patrulhar nem sempre é preciso
    Por Pablo Miyazawa — 17/03/2019 às 20:00
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    A volta de James Gunn ao comando de Guardiões da Galáxia traz mais uma reflexão: será que toda caça às bruxas é justificável?

    Os ânimos na internet ficaram exaltados na última sexta-feira com a volta de James Gunn ao comando de Guardiões da Galáxia 3.

    Você deve se lembrar que, em julho do ano passado, durante a Comic-Con de San Diego, o diretor foi afastado da franquia sem direito a perdão. Tudo porque vieram a tona alguns tweets muito antigos escritos por ele, mensagens que mostravam Gunn compartilhando de ideias bastante ruins sobre temas delicados como estupro, Aids e pedofilia.

    A Disney considerou as opiniões "indefensáveis e inconsistentes em relação aos valores do estúdio", o que causou o desligamento imediato do cineasta. Não vale a pena nem divulgar aqui as tais mensagens: tratam-se de comentários (brincadeiras?) muito fracos e de mau gosto. Gunn pediu tantas desculpas que ficou até chato, mas não adiantou.



    Essa história ficou mais conturbada porque a opinião pública não chegou a um consenso. É claro, será que alguma vez na história da humanidade já existiu algum tipo de consenso? De um lado, houve gente que fez campanha raivosa nas redes sociais demandando punições severas a Gunn. Do outro lado, o elenco de Guardiões da Galáxia se mobilizou, os fãs fizeram de tudo e até a Marvel pediu encarecidamente para a Disney mudar de ideia. Mas não houve jeito, mesmo quando ficou claro que toda a confusão -- não apenas o ressurgimento das mensagens, como a repercussão delas na mídia -- tinha forte conotação política. Sim, assim como no Brasil, a polarização atual nos Estados Unidos vai muito além de barulhentos bate-bocas entre deputados.

    James Gunn merecia ser afastado da franquia que o deixou famoso por causa de coisas que escreveu uma década atrás? Provavelmente, sim... se as regras se aplicarem igualmente a todos os profissionais de Hollywood que cometeram atos criminosos ou exibiram comportamentos questionáveis. Sabemos que existe um direcionamento da indústria nesse sentido (Harvey WeinsteinBryan SingerKevin SpaceyLouis C.K. e muitos outros que o digam). E ainda que não se possa generalizar e que cada caso deva ser analisado individualmente, certas decisões parecem menos óbvias do que outras -- a demissão de Gunn é uma dessas.

    James Gunn tem um passado de humorista provocador de que poucos se lembram.

    Analisando friamente o caso de James Gunn: ele escreveu bobagens, pediu desculpas, mostrou arrependimento, jurou que mudou. Em um primeiro momento, nada adiantou e ele foi demitido assim mesmo. Tempos mais tarde, acabou perdoado. O que mudou para a Disney de lá para cá? Os valores do estúdio se modificaram? Fico pensando se esse tipo de atitude redentora daria certo com os outros cidadãos citados no parágrafo anterior...

    Do lado da Disney, tudo indica que a empresa sentiu a pressão e tomou uma decisão precipitada quando afastou Gunn logo de cara. Será que dava para ser diferente? Talvez fosse difícil para a maior empresa do entretenimento ficar em cima do muro com tanto barulho inconveniente rolando sobre sua cabeça. A "Casa do Mickey" precisou tomar uma decisão rápida e foi lá e o fez. Conforme muito bem definiu meu colega Renato Furtado neste AdoroCinema, "para navegar as águas turvas do século XXI e chegar do outro lado com danos mínimos, indivíduos e empresas precisam de respostas incisivas e inequívocas: quem fica em cima do muro ou sinaliza incongruências é engolido".

    Da mesma forma que pessoas podem mudar, decisões de empresas também podem mudar. Se James Gunn assumiu remorso por ter dito coisas indignas no passado, então qual é o problema de uma grande corporação modificar uma resolução meses depois? Inclusive, após a revelação de que foi recontratado, Gunn rapidamente agradeceu a todo mundo que pôde. Quem não faria o mesmo?


    Foram oito meses desse assunto na mídia e nas redes sociais, até que tudo inesperadamente voltou ao mesmo lugar onde começou. Foi um processo chato e desgastante para todas as partes envolvidas -- James Gunn, a Marvel, a Disney, os atores e atrizes de Guardiões da Galáxia, a imprensa sedenta por desdobramentos e, por último mas não menos importante, para os muitos fãs dessa franquia, que nada tinham a ver com isso. Tanto barulho... pra quê mesmo?

    Estamos muito sensíveis e reativos, isso não há dúvidas. Não estamos só indignados com tudo o que é dito, mas nos sentimos obrigados a emitir opiniões sobre tudo, o tempo todo. A verdade é que ninguém precisa dar tanta opinião. E ninguém precisa saber de tanta opinião.

    Esta é a minha opinião sobre o assunto. Não que alguém tenha perguntado...


    Pablo Miyazawa é colunista do AdoroCinema e consome cultura pop há quatro décadas, de Star Wars a Atari, de Turma da Mônica a Twin Peaks, de Batman a Pato Donald. Como jornalista, editou produtos de entretenimento como Rolling Stone, IGN Brasil, Herói, EGM e Nintendo World.

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    Comentários
    • Dheo
      Isso, pra mim, só mostra que a Disney e as empresas midiática em geral, não ligam nada pra compromissos morais e éticos. O que importa é o business, faz parte. Exatamente como penso tbm.
    • Pablo Miyazawa
      Concordo com você, funciona com dois pesos e duas medidas, não importa de que lado se está. ABraços!
    • Pablo Miyazawa
      Muito obrigado pelo carinho! Continue por aqui! Abraços!
    • Editor Esquerdista
      Realmente estamos muito reativos e sensíveis, e o que piora mais o fato é que estamos seletivamente reativos e sensíveis. No final das contas não importa o que se fala ou se faz, mas sim quem fala e faz.
    • Jc V.
      Eu é que agradeço, pelo texto.
    • Hoffmann dos Anjos R.
      Amo ler sua coluna, sua opinião me faz refletir muito!!! Mil bjos!
    • Peter
      Sempre termino achando que aqueles que estão mais dispostos a perdoar são mais sinceros (ou, talvez, mais ingênuos...não sei...) do que aqueles que afirmam se arrepender.É certo que todos podemos errar e aprender com os erros cometidos.Não sei se o Gunn se arrependeu logo após ter escrito os comentários ou somente agora, depois de toda a repercussão...Acho o arrependimento mais imediato um pouco mais sincero.Abraços!
    • Pablo Miyazawa
      É aquela história: todo mundo merece perdão, não? Menos quem não se arrepende. Um abraço e obrigado pela leitura!
    • Pablo Miyazawa
      Perfeita leitura dos fatos, é uma ótima maneira de enxergar. Abraços e obrigado pela leitura!
    • Peter
      Então, tudo depende de pedir desculpas e deixar o tempo passar.Ele escreveu esses comentários e piadas há muito tempo, mas no momento em que foram escritas, foram escritas num tempo presente.Assim, escreva vc também algo questionável.Se alguém vier reclamar, diga que é mimimi, se vc quiser, peça desculpas ou simplesmente deixe o tempo passar...Aquilo que vc escrever hoje, por mais questionável que seja, daqui a alguns anos, vai ser apenas algo escrito no passado, como iguais aos ...tweets muito antigos... que o Gunn escreveu.
    • Jc V.
      Como todo novela longa, é preciso analisar a cronologia dos fatos. E nesse caso, o timming explica tudo.A Warner, que tem muita dificuldade de firmar um universo DC nos cinemas por conta da resistência dos fãs féis à Marvel contratou Gunn numa (sábia) tentativa de comprar o apoio da massa que se mostrou descontente com a demissão dele. Uma estratégia de guerra tão velha como o arco e flecha.A Disney assistiu tudo atenta, viu o projeto de da Warner ganhar corpo e até Dave Bautista se bandeava pra rival. Nesse meio tempo veio Aquaman com seu Bilhão em bilheteria e mostrou que embora rastejante a DC ainda não morreu. Enquanto isso, a produção de Guardiões 3 estava atrasando cada vez mais...O mais curioso, pra mim é a relação que isso tem com a estréia de Capitã Marvel. Eis o interessante, e por isso digo que o timming é tudo nesse caso: Por conta de uma campanha de divulgação radical o filme da Capitã sofreu bastante com hates, mas mesmo assim vai muito bem nas bilheterias. Isso mostrou aos executivos que a Disney está relativamente acima da opinião pública. Isso deu confiança pra eles tomarem a decisão comercial mais obviamente segura - recontratar Gunn, botar àgua no chopp da Warner e enfrentar esse desgaste com tranquilidade, pois são intocáveis. Oq toda essa história mostra, Sr. Miazawa, é que a Disney nunca mudou de opinião. A opinião dela sempre foi vamos proteger os nossos interesses, a todo custo. Quando o vento soprou pra leste, desviaram pra leste. Quando soprou pro oeste, voltaram pro rumo antigo. Isso não é opinião, é complacência.Certamente, pela falta de explicações e anúncio discreto da readmissão da Gunn, não foi uma decisão baseada num perdão moral, numa redenção. Isso, pra mim, só mostra que a Disney e as empresas midiática em geral, não ligam nada pra compromissos morais e éticos. O que importa é o business, faz parte.Fico feliz q Gunn foi recontratado, a demissão foi precipitada. Mas ele deve se redimir diante o povo de alguma outra forma, pois fez algo mto estúpido. Só que agora vemos que a Disney nunca ligou pra isso, era só teatro.
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