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    Admirável Mundo Pop: Por que Capitã Marvel é a super-heroína que o mundo de hoje precisa
    Por Pablo Miyazawa — 10/03/2019 às 19:30
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    E não é pelos motivos que se esperava.

    A estreia de Capitã Marvel vem carregada de polêmica em um grau mais agudo do que o de qualquer outro longa-metragem com o carimbo da Marvel, e também de qualquer filme de super-herói dos últimos anos. Nem mesmo Mulher-Maravilha sofreu tanta patrulha antes de seu lançamento. Pantera Negra, outro filme que tirou o gênero de sua zona de conforto, também foi mais poupado de certa forma.

    Mas não tem sido assim com o filme estrelado por Brie Larson, que vêm recebendo pedradas virtuais em áreas de comentários de sites e ameaças de boicote por grupos "ofendidos" com tanto destaque que a heroína tem recebido. Tudo porque a protagonista Carol Danvers (ou simplesmente "Vers") é a personagem mais poderosa a brilhar no Universo Cinematográfico da Marvel (isso de acordo com o chefão Kevin Feige) e, conforme evidências apontam, será essencial no embate final com Thanos em Vingadores: Ultimato.

    Seria surpreendente se não fosse triste, mas Capitã Marvel ganhou tanto destaque também por ser a primeira personagem principal feminina de um filme da Marvel desde 2008, e apenas a segunda a emprestar o nome ao título de um filme (a outra foi a Vespa de Evangeline Lilly no segundo filme do Homem-Formiga, de 2018).

    Acredite: Capitã Marvel é a primeira protagonista feminina do Universo Cinematográfico Marvel.

    Preciso dizer que essas críticas são infundadas ou, no mínimo, precipitadas. Muitas dessas pessoas nem mesmo pagaram ingresso para ver Capitã Marvel no cinema e já acham que sabem o que vai acontecer em Ultimato. Pelo que entendi, uma preocupação recorrente desses fãs ocorre por conta da curta existência da Capitã Marvel nessa saga: a de que ela teria surgido praticamente do nada para se tornar uma espécie de deus ex machina, um "elemento surpresa" que de repente conseguiria resolver todos os problemas dos Vingadores.

    Não é bem por aí. Pode até ser que a heroína vermelha, azul e dourada enfrente com facilidade algumas questões mais complexas, muito graças aos seus poderes indiscutíveis. Mas acho difícil que ela seja a responsável pelo golpe final em Thanos ou qualquer coisa que vá ocorrer nos minutos finais de Ultimato. Seria uma solução simples demais para uma franquia tão repleta de personagens, detalhes e complexidade, como pudemos experimentar ao longo de quase vinte filmes em mais de uma década. 

    É verdade que o modo como a Marvel trabalhou a chegada tardia da Capitã -- em todo material promocional, nos trailers, no filme em si e até nas cenas pós-crédito -- deu a entender que ela possui um papel essencial para o desfecho da história. Mas alguns fatos apontam que a importância dessa personagem se estende para muito além dos filmes. Explico isso (com spoilers) a seguir.

    Não é por ser a heroína mais poderosa que a Capitã Marvel vai resolver tudo sozinha.


    Que fique claro que a Capitã Marvel é uma personagem com claras motivações políticas, talvez mais do que qualquer outro protagonista dos filmes Marvel. Só que esse aspecto não se dá somente por meio do feminismo, como alguns fãs mal humorados reclamaram por antecipação.

    Se você já assistiu, vai concordar que os aspectos mais “feministas” do filme se encontram nos detalhes: no já citado fato de ser o primeiro longa estrelado por uma super-heroína no universo Marvel (algo que a rival DC já havia superado com Mulher-Maravilha), e na trilha sonora, recheada de músicas cantadas por vozes femininas. Há também cenas que refletem os abusos que as mulheres sofrem no cotidiano (Carol escuta a todo tempo que precisa "controlar as emoções"), além de cenas de flashback que mostram a protagonista ainda menina tentando realizar tarefas normalmente associadas aos homens. Também chamam a atenção as ótimas cenas ao lado da melhor amiga, Maria Rambeau, e sua filha, Monica, carregadas de sororidade e companheirismo, passando com louvor no teste de Bechdel

    O fato é que a mera existência do filme já evoca a ideia da representatividade, e a mensagem fica bem clara durante toda a jornada: Carol Danvers é falível como humana, mas sempre persiste e jamais desiste. Portanto, é naturalmente empoderada e faz por merecer os dons fabulosos que adquire ao longo do filme.

    A química entre Lashana Lynch e Brie Larson garantem os melhores diálogos do filme

     
    Mas há outras bandeiras importantes levantadas pela obra e por sua poderosa heroína. Uma delas é em favor do direito universal a ter uma vida digna, até mesmo quando a questão envolve adversários com motivações incompreensíveis -- aqui, no caso, a raça alienígena Skrull, inimigos históricos dos guerreiros Kree. Capitã Marvel consegue lidar com uma causa real e tão pertinente como a dos refugiados com tato e delicadeza, estimulando a reflexão do público ao mostrar que justificativas plausíveis podem ter origem em todos os lados da moeda.

    O outro ponto importante é a mensagem antibélica que permeia toda a narrativa, e dá a Capitã Marvel ares refrescantes de obra pacifista. Como ficou claro na principal frase do trailer (e que acabou nem sendo proferida no filme), a Capitã Marvel não está disposta a lutar essa guerra, e sim acabar com ela. Estas são a essência e a força-motriz de uma personagem que literalmente possui todo poder possível em mãos, mas prefere não utilizá-lo. Afinal, nenhuma guerra é digna de ser enfrentada se a paz for uma real possibilidade. E é isso que a protagonista tenta demonstrar na base da tentativa e erro em suas atitudes, sejam elas ativas e barulhentas ou discretas e silenciosas. 

    Uma super-heroína que não existe apenas para aniquilar vilões e que prefere o caminho da paz ao da violência irrestrita? Parecia um ideal difícil de ser alcançado, mas Capitã Marvel parece a personagem ideal para realizar essa utopia. É claro que Vingadores: Ultimato precisa confirmar na prática se Carol Danvers tem o que é preciso para liderar a próxima fase Universo Cinematográfico Marvel. Mas pelo menos no universo além dos filmes, ela definitivamente já justificou sua existência. 


    Pablo Miyazawa é colunista do AdoroCinema e consome cultura pop desde que nasceu, há 40 anos, de Star Wars a Atari, de Turma da Mônica a Twin Peaks, de Batman a Pato Donald. Como jornalista, editou produtos de entretenimento como Rolling Stone, IGN Brasil, Herói, EGM e Nintendo World.
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