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    Opinião: O que a vitória de Green Book diz sobre o Oscar?
    Por Barbara Demerov — 26 de fev. de 2019 às 21:59
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    Uma mão dá, enquanto a outra tira.

    Após tantas idas e vindas, decisões tomadas e repensadas, críticas e expectativas, a 91ª edição do Oscar aconteceu com a intenção de dar um respiro cheio de novidades em meio a uma celebração que, convenhamos, há tempos já não é tão tradicional. Mesmo mantendo a mesma estrutura cerimonial, inclusive com as breves apresentações dos indicados a Melhor Filme, a festa foi aberta com um show do Queen e a ausência de um apresentador ou apresentadora de fato deixou as coisas mais ágeis. Por isso, talvez o Oscar até esteja tentando inovar em seu formato. Mas na prática – ou seja, nos premiados –, ainda acredito que não.

    Ainda mais se pararmos para pensar no grande vencedor da noite, Green Book - O Guia. Já digo de antemão que este não é o "pior filme" do Oscar, tampouco um filme desnecessário. Dirigida por Peter Farrelly, esta história sobre a amizade entre um músico e um motorista deve ser vista e discutida – especialmente pelo fato de um homem ser negro e o outro, branco. E também pelo fato de que o background é a segregação racial que permeia os EUA até hoje, mesmo que não seja da mesma forma como acontecia nos anos 60. A questão é que, num ano como este – com Pantera Negra e o excelente Infiltrado na Klan concorrendo ao seu lado –, Green Book não deveria ser o filme mais comentado. Mas assim foi, pois seu discurso é o mais fácil de ser disseminado e o mais raso a ser analisado. O final feliz que nos é entregue de fato faz parte da magia do cinema, mas a verdade é que não é disso precisamos agora.

    Spike Lee, diretor de Infiltrado na Klan


    O cinema sempre foi uma ferramenta utilizada e aproveitada para assistirmos o que se aproxima da nossa própria realidade ou o que está muito longe para testemunharmos. O cinema também é uma ferramenta valiosa de expressão, discussão e protesto. Não é difícil concordar com isso quando analisamos alguns vencedores de Melhor Filme no Oscar: 12 Anos de Escravidão, Spotlight, A Lista de Schindler, Moonlight. As obras citadas falam muito sobre o que foi e o que é o nosso mundo, e o fato de terem vencido o maior prêmio na maior celebração da indústria (americana, sabemos bem disso) é, sim, algo de extrema relevância. Querendo ou não, o Oscar conversa com gerações passadas e conversará com futuras – e as futuras, creio eu, também pensarão que Green Book, apesar de ser um bom filme, não era a escolha ideal para ser premiada neste momento. Era a mais acessível, a mais segura.

    É fato que historicamente muitos filmes (até demais, eu diria) não premiados são mais lembrados do que aqueles que receberam a estatueta dourada, mas não deixa de ser lamentável filmes como Roma, Infiltrado na Klan e Pantera Negra levarem prêmios em categorias claramente de "menor visibilidade". Roma ganhou por Melhor Filme Estrangeiro, Fotografia e, felizmente, uma das mais cobiçadas: a de Diretor. Pantera Negra já fez história por estar presente na edição como o primeiro longa-metragem de herói indicado ao prêmio principal em todos estes anos, e ajudou a fomentar mais um recorde: o de maior número de profissionais negros premiados, assim como mulheres – mas só ganhou em 3 categorias (técnicas) das 7 indicações. Infiltrado na Klan, por sua vez, após ganhar por Melhor Roteiro Adaptado abriu a discussão de que a Academia premia roteiros como se fosse um prêmio de consolação; Corra! também recebeu apenas um Oscar, por Roteiro Original.

    Alfonso Cuarón, diretor de Roma


    O Oscar estava tão preocupado em mudar seus moldes de apresentação, em retirar ou recolocar o anúncio dos vencedores de categorias técnicas, em apresentar ou não todas as canções originais indicadas, que acabou esquecendo o principal: a verdadeira mudança só aparece quando algo tangível e efetivo tiver sua chance de brilhar. Premiar Green Book não só em Filme mas também por Roteiro Original não sai muito dos trilhos – como era o esperado que acontecesse –, assim como premiar o Roteiro Adaptado de Infiltrado na Klan logo após reflete bastante esta realidade dúbia da Academia. Ambos os roteiros tratam do racismo, um tema ainda atual e potente, mas com abordagens distintas. Uma dá voz a algo mais intimista e a outra conversa diretamente com quem tem poderes suficientes para tentar mudar o rumo da História.

    A sensação que fica é a de que, por mais que estejamos prontos para ver "filmes da Netflix" e "filmes de herói" ganhando as estatuetas de maior prestígio, os mais de 7000 votantes ainda estão com um pé no passado, no conservadorismo. 2019 era para ser uma edição mais fincada no novo, no atual, na diversidade. De fato, foi o que aconteceu em algumas categorias: vimos Homem-Aranha no Aranhaverso ganhar por Animação, Olivia Colman surpreender até mesmo Glenn Close e Alfonso Cuarón manter a tradição mexicana já bem estabelecida nestes últimos 5 anos por sua exímia direção. Tivemos apresentações marcantes de Barbra Streisand e Lady Gaga com Bradley Cooper, assim como nos sentimos abraçados na mesma intensidade com que Samuel L. Jackson se dirigiu até o amigo Spike Lee quando este recebeu seu primeiro troféu em toda sua carreira.

    Para o bem ou para o mal, o Oscar 2019 foi tudo aquilo que imaginávamos que ele fosse – seja antes ou depois de tantas promessas. Indicar não é o mesmo que premiar, mas pelo menos meio caminho foi dado. Veremos quanto tempo demorará para que a outra metade seja finalizada e o mundo possa ver um filme da Marvel, da Netflix ou com uma mensagem política contundente feita por quem sempre esteve do lado menos favorecido encerrar a noite ocupando o palco.

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    Comentários
    • Orlandilson Cardoso
      O pior é a politização do Oscar, pareceu que plateia aplaudiu Rami Malek mais por ter dito que era filho de imigrantes egípcios do que pelo Oscar que ganhou.
    • Evandro Silva
      A liberdade também deve ser limitada a fim de ser possuída.Edmund Burke
    • Evandro Silva
      O autor deste texto cometeu um equívoco! A indústria de cinema de Hollywood e a academia de artes e ciências cinematográficas, não tem nada de conservadoras!
    • Ivan L.
      Essa critica é ridicula. As pessoas estão deixando de analisar o cinema como arte. Cinema não tem que ser politico. Cinema nao tem que ser correto. Green book é um EXCELENTE filme e merecedor da vitória. Ele não aborda a questão racial americana em profundidade, mas e daí? O tema central do filme não é racismo, é amizade. Que coisa ridícula querer diminuir o filme porque um outro era mais politizado. Ta ficando chato isso. Filme tem que ser bom, e pra ser bom não precisa “lacrar”. Vão pro inferno com isso!
    • Vitor D
      So falou bosta = Pensa diferente de mim.
    • Skine
      O que quis dizer sobre os três que você citou, é que eles viviam em uma época diferente, com sistemas, crenças e modos de vida diferentes, então certas coisas eram culturalmente aceitas ou não havia leis restringindo. Não estou dizendo que estejam certos. E eles fizeram obras que tiveram grande impacto na história e na arte. Green Book não possui relevância alguma, e mesmo que tivesse, na época atual as ações de seus autores devem ser punidas. E só entrei nessa questão pq vc começou com isso de a obra é maior que o artista. E estou criticando os artistas, mas são esses artistas que compõem a Academia e que escolhem os vencedores. E se promovem movimentos e mudanças na indústria, e na hora de votar para dar o maior prestígio dessa indústria, por covardia, fazem totalmente o oposto do que vêem pregando, é de se questionar sim a validade da premiação. Ainda mais agora que começaram a dar desculpas esfarrapadas em nome da instituição.
    • Jc V.
      Pode até ser uma hipocrisia muito grande, concordo. Mas daí temos que reclamar não sobre a entrega do Oscar, e sim reclamar dessas pessoas, não acha? Cada pessoa é responsável individualmente por seus votos, então Oscar enquanto instituição tem pouco a ver com isso (isso me refiro a coerência com os discursos adotados nos protestos). É só isso que estou dizendo, e acho que vc acabou de concordar.Sobre Da Vinci e etc: Quer dizer que por serem suas obras super relevantes eles tem licença pra serem fora-da-lei??? Mandaste mau, convenhamos.Tentei mostrar que embora eles sejam pessoas de outras eras, quem compra, valoriza e admira suas obras até hoje somos nós, pessoas da era do combate a violência sexual... É bem complicado.
    • Carolina Alvarenga
      Essa discussão parece a mesma do Se o professor tem que educar o aluno ...ou são os pais?
    • Carolina Alvarenga
      Eu vou ser sincera na minha opinião acho que eles não premiaram Roma pq nem eles aguentam filmes chatos/parados/arrastados...
    • Carolina Alvarenga
      Eu tenho medo de dizer que gostei de Green Book
    • Skine
      A Academia é formada por profissionais de cinema. Muitos desses profissionais fizeram protestos em premiações, discursos sobre o assunto e inciaram os movimentos Me Too e Time's Up. Por causa desses movimentos, muitos casos de assédio vieram a tona e muitos perderam suas carreiras (merecidamente) com isso. O diretor e o roteirista não vivem na época de Picasso, Da Vinci e Platão e tampouco fizeram uma obra tão relevante quanto a deles. Vivem numa época de combate a assédio sexual na indústria. Aí as mesmas pessoas que levantam essas discussões e esses movimentos, são o prêmio mais importante da indústria pra um assediador e pra um xenófobo intolerante religioso, pq são covardes pra premiar quem realmente merece, é sim uma hipocrisia muito grande.
    • Jc V.
      Concordo quanto a Roma, seria o meu premiado tbm. Sobre premiar um assediador, acho uma posição difícil julgar a obra com relação ao seu criador. Picasso era um escroto machista, Da Vinci era pedófilo, Platão praticamente um fascista, e a grande maioria dos artistas pop de hoje são maus exemplos pra sociedade de alguma forma. Se o cara comete um crime e é comprovado, cadeia nele. Até pq retirar um Oscar nem de longe seria punição suficiente pra um assediador.A grande questão é que Eles (a Acadêmia), na sua expressão, não promove nada. Quem promove protestos (justos) ou demissões por tweets antigos são os artistas, a mídia, o povo, etc. A Academia não se envolve em nada disso, por isso não vejo contradição.Nem de longe estou defendendo a escolha de Green Book nem as diretrizes da Academia, só estou dizendo que precisamos de um argumento mais forte do que premiar o filme A ou B exclusivamente em razão do que eu ou você julgamos socialmente mais pertinente. É um argumento muito fraco.
    • Skine
      Roma é o melhor filme considerando os quesitos que falou, e também o mais relevante politicamente nesses tempos de preconceitos contra indígenas e latinos e com a discussão acerca construção do muro na fronteira do México. Também é o primeiro grande filme da Netflix, que investiu numa produção que com suas características (preto e branco, língua não-inglesa) jamais teria grande distribuição e fez um grande lançamento simultâneo entre streaming e cinema, e fazendo uma campanha aberta pra premiação, o que concretiza uma mudança no cinema. Mas a Academia não tem coragem de premia-lo, assim como por outros motivos não tem coragem de premiar A Favorita (e só isso já levanta muitas questões sobre a premiação). Então que premiassem Infiltrado na Klan, que é um filme muito mais ousado e relevante que Green Book. Fazer protesto em premiação, criar movimentos contra assédio como Me Too e Time's Up, adianta de quê se no final premiam diretor assediador?! E roteirista xenófobo e intolerante religioso? Eles acabam com a carreira de alguns por causa de assédio ou tweets antigos polêmicos e pra outros que fizeram o mesmo dão o prêmio mais importante da indústria? E Green Book não é o melhor filme e não tem relevância nenhuma pra o cinema, então bateram nas questões raciais. Mas o filme é todo produzido por brancos onde um branco salva o dia, e a própria família do cantor retratado condenou o filme. Mahershala Ali e Viggo Mortensein podem até merecer por suas perfomances individuais, mas premiar Green Book.Isso não foi apenas mais um caso de injustiça ou de premiar um fiilme esquecível. É forte retrato de hipocrisia e covardia.
    • Jc V.
      Até certo ponto concordo plenamente com vc, o contexto político é super importante. Apenas acho que não deve ser O mais importante.Fotografia, criatividade estilística, até maquiagem. Um filme é feito de muitos outros fatores que apenas o seu viés moralque, repito, não deixa de ser importante.É como uma avaliação do carnaval: Não adianta ter o melhor samba-enredo se as outras categorias pontuarem mal. No final, a gente soma todas as categorias com o mesmo peso.Pecado é o Oscar nunca ter reconhecido Stanley Kubrick e outras injustiças absurdas. O caso Green Book não é nada de extravagante.
    • Guilherme
      Não, não entendeu.
    • Skine
      No meu comentário mal apresentei minha opinião, eu trouxe fatos.
    • Skine
      É pra premiar o melhor filme e não o filme mais popular. Quando um filme popular é bom, é indicado, como foi o caso de Pantera Negra. Mas a maioria dos filmes populares pouco ousam justamente para agradar um maior público. É bom porque filmes que geralmente não teriam visibilidade ganham reconhecimento. E não são fracassos de bilheteria, porque a maioria dos filmes não tem um orçamento gigante de blockbusters. Então muitos filmes indicados ao Oscar não batem recorde de bilheteria, mas tem uma arrecadação que consegue se pagar e gerar lucro considerável, porque geralmente não são orçamentos gigantescos.
    • Davis Holmes
      Esse Infiltrado na Klan tanto é bobagem, que o verdadeiro Ron Stallworth, no qual foi inspirado o filme, nem tinha cabelo black power nem barba. Imagina se deixariam naquela época.
    • Magda
      Vamos ver quando ele fará debilheteria kkkk
    • Davis Holmes
      Isso foi a sua opinião, discordo totalmente, então fiquemos com a da Academia.
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