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    A dinastia dos diretores mexicanos no Oscar (Análise)
    Por Renato Furtado — 23/02/2019 às 09:28
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    Ou como os Três Amigos - Alfonso Cuarón, Guillermo del Toro e Alejandro Iñarritú - abalaram Hollywood.

    Donato Sardella/Getty Images

    Globo de Ouro, BAFTA, Sindicato dos Diretores dos EUA, sociedades de críticos mundo afora e mais um sem-número de premiações: não importa o nome ou a origem, Alfonso Cuarón venceu o troféu de Melhor Direção em virtualmente todos os eventos competitivos por seu Roma. A unanimidade e a aclamação universal colocam o cineasta como franco favorito a também levar a estatueta do Oscar na categoria — sua provável segunda vitória como realizador na disputa da Academia após Gravidade, em 2014 — na edição de 2019. E se isso realmente acontecer, será o quinto triunfo mexicano em uma década, um cenário inédito para o cinema latino-americano que quebra barreiras mais importantes do que aparentam ser.

    Muito antes de Cuarón, Alejandro González Iñarritu (Birdman, O Regresso) e Guillermo del Toro (A Forma da Água) terem conquistado estatuetas do Oscar por seus trabalhos como realizadores, era praticamente impensável ver outra pessoa que não um estadunidense ou um europeu levando a melhor como diretor — as mulheres, os negros, os asiáticos e pessoas de outras etnias subrepresentadas na mídia como um todo que o digam, mas deixemos este assunto para outra hora. Contudo, quando os Três Amigos, como Cuarón, Iñarritu e del Toro são conhecidos, fizeram a ponte da Cidade do México para Hollywood, nos idos dos anos 2000, logo ficou claro que o trio poderia atingir alturas e patamares até então impossíveis e improváveis.

    Fox
    Anthony Quinn (esq.), nascido Antonio Rudolfo Oaxaca Quinn, ao lado de Marlon Brando em Viva Zapata!.

    Mesmo que, dentre os países latino-americanos, o México sempre tenha sido aquele que marcou maior presença na festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, demorou até que os mexicanos encontrassem suas primeiras chances de verdadeira relevância, na perspectiva do gosto popular, para brilhar na prestigiada cerimônia — artistas do país já haviam sido indicados como diretores de arte anteriormente, casos dos badalados Emile Kuri e Edward Carrere. Foi só na 25ª edição da premiação (1953) que surgiu um triunfo em uma das principais categorias do Oscar: Anthony Quinn como Melhor Ator Coadjuvante por Viva Zapata!, em uma vitória sobre os hollywoodianos Richard Burton e Jack Palance.

    O êxito do eterno Zorba, o Grego — papel que renderia a segunda nomeação de Quinn ao Oscar de Melhor Ator, em 1965 depois de A Fúria da Carne (1958) — o colocou ao lado de José Ferrer, ator de origem portorriquenha, sendo eles os dois únicos latinos até então a levar para casa pelo menos uma estatueta dourada para casa: Quinn dobraria seu feito com a vitória como ator coadjuvante por Sede de Viver, em 1957, enquanto Ferrer angariou seu caneco em 1951, por Cyrano de Bergerac. No lado feminino, Katy Jurado, estrela da era de ouro do cinema mexicano, entre 1940 e 1950, também recebeu uma indicação como atriz coadjuvante no Oscar, por A Lança Partida, em 1954.

    Macario, o clássico mexicano.

    Mas todas estas breves, ainda que importantes conquistas, diziam respeito ao México visto pelo cinema dos Estados Unidos, condição que se alterou quando os dois primeiros títulos latino-americanos, originados na parte mais ao sul do continente norte-americano, foram indicados ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro: estamos falando de Macario (foto acima) e Ánimas Trujano, em 1961 e 62, respectivamente, clássicos da cinematografia mexicana que fizeram com que o México se unisse às costumeiras potências França, Itália, Japão e Suécia nas corridas anuais pela medalha de ouro dos longas de língua não-inglesa. E ambos chegaram lá ultrapassando o melodrama tradicional das produções mexicanas da época.

    Foram duas as principais influências, mesmo que indiretas, destes indicados, que logo seriam seguidos pelo nosso O Pagador de Promessas e pelo também mexicano Tlayucan na década de 1960. Em primeiro lugar, os movimentos cinematográficos surgidos na França e na Itália, que tiraram a sétima arte dos estúdios para aproximá-la da realidade, particularmente social, do mundo pós-Segunda Guerra Mundial; e, em seguida, uma figura ímpar, de origem espanhola, mas radicada no México entre os anos de 1946 e 1960 após inúmeras perseguições políticas: o diretor e roteirista Luis Buñuel, um dos mestres do cinema, mais conhecido por obras-primas como O Anjo Exterminador, A Bela da TardeViridiana e Os Esquecidos.

    Jack Manning/New York Times
    O lendário realizador Luis Buñuel em Nova Iorque, 1972.

    O realizador, que apesar de ter rodado obras francesas e espanholas nas décadas de 60 e 70, pelas quais foi indicado duas vezes ao Oscar de Melhor Roteiro, escolheu o México como sua casa até seu falecimento. Lá, teve a oportunidade de não só expandir sua própria arte, como também influenciar a produção local. Explorando temáticas mais realistas, ainda que por meio de sua ótica surrealista — Buñuel foi, ao lado do ex-amigo e pintor Salvador Dalí, um dos precursores de tal movimento artístico —, o diretor trouxe as ruas e maior profundidade psicológica para a filmografia mexicana, que até então concentrara-se em melodramas, comédias, musicais e longas noir e de terror. Produções de baixo orçamento, em suma.

    Questionando o poder da Igreja Católica em suas obras, promovendo o protagonismo de figuras femininas no interior de uma cultura machista e sexista e, sobretudo, realizando análises pontuais sobre as desigualdades sociais do México, em seus filmes anti-burgueses, Buñuel ajudou a cimentar a posição mexicana no mapa cinematográfico mundial e também tornou-se um ponto de referência para os cineastas das gerações posteriores. E por mais que os prolongamentos da arte do espanhol sejam mais vísiveis no cinema de cineastas como Pedro Almodóvar e Miguel Gomes, a preocupação com a realidade, o caráter alegórico e a constante mistura entre verdade e fantasia estão presente nos trabalhos dos Três Amigos.

    A Bela da Tarde, de Buñuel, com Catherine Deneuve.

    A participação mexicana no Oscar, e latino-americana como um todo, no entanto, entrou em declínio após estes êxitos iniciais. O México e a América Latina como um todo só retornariam com força total nos idos de 1990, década na qual — não por acaso —, Cuarón, del Toro e Iñarritu começaram a rodar seus longas-metragens. A retomada enfim viria na forma da disputa pela estatueta de Melhor Fotografia, 30 anos após a nomeação original de Gabriel Figueroa pelos aspectos visuais de The Night of the Iguana, com ninguém mais, ninguém menos que o tricampeão Emmanuel Lubezki na corrida pelo prêmio de cinematografia: em 1996 o artista recebeu a primeira de suas 8 indicações ao Oscar por A Princesinha... dirigido por Cuarón.

    Chivo, apelido pelo qual Lubezki é mais conhecido na indústria, tornou-se amigo pessoal do cineasta de Roma ainda na adolescência, quando os dois frequentaram as mesmas classes na escola de cinema da Universidade Autônoma Nacional do México (UNAM), mais importante faculdade do país. Eles iniciaram sua parceria nos idos dos anos 1980, mesma época na qual del Toro, Iñarritu e o diretor de fotografia Rodrigo Prieto (Amores Brutos) — hoje colaborador direto de Martin Scorsese —, também começaram a filmar na capital. Juntos, os artistas forjaram uma amizade e uma relação profissional de apoio mútuo em uma época onde o cinema mexicano havia sido preterido pelo boom das telenovelas.

    Iñarritu, del Toro e Cuarón no Festival de Cannes 2007.

    Esse ambiente colaborativo de sustentação criativa firmou um primeiro auge em 2007, quando Cuarón, del Toro e Iñarritu receberam suas primeiras indicações diretas ao Oscar — os dois primeiros na categoria Melhor Roteiro Original por Filhos da EsperançaO Labirinto do Fauno e o último como diretor e produtor por Babel; eles perderiam, respectivamente, para Pequena Miss Sunshine, Scorsese e Os Infiltrados. A despeito destas derrotas, entretanto, os Três Amigos — ao lado de outros indicados dos anos anteriores como Fernanda Montenegro, Benicio del Toro, Catalina Sandino MorenoSalma Hayek e o diretor Fernando Meirelles — ajudaram a destruir as barreiras que distanciavam os latinos das premiações como o Oscar.

    Até porque, evidentemente, os artistas originários da América Latina e seus descendentes sempre fizeram parte de Hollywood de uma forma ou de outra, sendo a indústria cinematográfica dos Estados Unidos um desdobramento da sociedade como um todo, é claro. Aqui, cabe uma breve digressão histórica, cultural e até mesmo política: durante o século XX, eminentemente, a onda de imigração latino-americana para os EUA expandiu-se a todo vapor, um incremento galopante que gerou uma resposta cada vez mais incisiva: a da hispano ou latinofobia, sentimento este que engloba o medo, a aversão, o ódio e a discriminação, entre outras reações negativas, contra os povos latino-americanos no gigante da América do Norte.

    Gravidade, Birdman e A Forma da Água.

    Citamos este fenômeno social — recentemente potencializado pela eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, político republicano que não esconde sua xenofobia, principalmente em sua já infame tentativa de construir um muro na fronteira com o México para impedir a entrada de mexicanos — porque ele tem uma relação direta com as vitórias de Cuarón, Iñarritu e del Toro. Por mais que sejam merecidos de um ponto de vista técnico, artístico e cinematográfico, os triunfos dos Três Amigos como diretores na premiação da Academia (por Gravidade, Birdman, O Regresso e A Forma da Água, respectivamente) também são uma clara declaração posição política da instituição em meio ao atual estado das coisas.

    Ainda que a Academia siga como uma organização majoritariamente branca e masculina, como descrito anteriormente no início desta análise, a recente inclusão de uma maior diversidade entre as fileiras da instituição vem mudando, mesmo que só até certo ponto, o panorama. São conquistas paulatinas para as minorias que — como aponta o autor Ioan Grillo em seu artigo para o New York Times sobre o sucesso dos Três Amigos no Oscar —, ganham espaço e demonstram, ainda que apenas através das vitórias de Cuarón, del Toro e Iñarritu por enquanto, suas participações em Hollywood são um "lembrete de como a diversidade étnica e cultural pode enriquecer a indústria cinematográfica"; e não só ela, é claro.

    Netflix
    Yalitza Aparicio em Roma

    Se Roma conseguir sagrar-se campeão na disputa mais aberta dos últimos anos, superando Green Book - O Guia, que parece ter uma leve vantagem na corrida, o drama intimista será o primeiro título de língua espanhola a vencer o Oscar de Melhor Filme nos 91 anos da premiação — e a primeira grande vitória da Netflix, que também é um tema para outro momento, obviamente. Além disso, as atrizes Yalitza Aparicio, primeira intérprete de origem indígena a ser nomeada, e Marina de Tavira também competem pelas estatuetas de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente, dentre as outras 7 menções do longa aos canecos da Academia, incluindo Melhor Roteiro, Melhor Fotografia e Melhor Filme Estrangeiro.

    Roma é, enfim, mais uma pedra na construção da dinastia dos diretores mexicanos no Oscar que não só estabeleceram uma hegemonia em termos quantitativos, como também criaram uma plataforma que solidifica a presença latina na sétima arte comercial dos Estados Unidos. É um triunfo ínfimo quando colocado no contexto da quase centenária Academia e do caráter capitalista de Hollywood, mas ainda assim é uma vitória relevante para promover maior diversidade e representatividade em tempos onde as minorias vêm sofrendo reveses duros. E a glória mexicana também é latina que — não podemos nos esquecer, apesar de quase sempre o fazermos —, por tabela, também é nossa.

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    Comentários
    • Vidamell Vida R.
      que trio pesadão
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