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Festival de Berlim 2019: Balanço de uma edição que tentou equilibrar cinema radical e cinema comercial
Por Bruno Carmelo — 18/02/2019 às 15:00
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Que forma de cinema é valorizada pela Berlinale?

Quando foi anunciado que 2019 seria a última edição de Dieter Kosslick como diretor artístico do Festival de Berlim, após 18 anos no cargo, o mercado de cinema pensava de que modo isso afetaria as escolhas de curadoria para seu último ano.

Afinal, Kosslick foi muito criticado por incluir algumas produções comerciais demais - ele admitiu sequer ter assistido a algumas delas antes de selecioná-las -, na intenção de trazer mais estrelas ao tapete vermelho. Esse foi o caso do fraco Damsel, apresentado em 2018, com o propósito não muito dissimulado de ter Robert PattinsonMia Wasikowska desfilando pela Berlinale.

Öndög

Este ano apontava para novos caminhos. Rompendo com a tradição, nenhum filme norte-americano foi incluído na disputa pelo Urso de Ouro, enquanto a competição abraçou produções da Mongólia (Öndög) e Macedônia (God Exists, Her Name is Petrunya). Esta seria uma edição mais "alternativa", aberta a cinemas experimentais e ousados?

Não exatamente. É de praxe em festivais desse porte encontrar uma maioria de produções consideradas boas, ao lado de um pequeno número de filmes ruins e outros poucos filmes excelentes, logo apontados como francos favoritos de cada edição.

So Long, My Son

A 69ª Berlinale foi diferente. Havia muitas produções de altíssimo nível: tanto So Long, My Son quanto A Tale of Three Sisters, Ghost Town AnthologyÖndögSynonyms seriam ótimas escolhas para os prêmios principais. A vitória deste último - uma comédia, para a surpresa geral - representou uma escolha ousada de Juliette Binoche e os demais membros do júri. 

Ao mesmo tempo, as produções muito fracas também foram numerosas. Mesmo sem representantes de Hollywood na briga por prêmios, diversos títulos representavam o cinema industrial: Out Stealing HorsesMr. Jones e o fraquíssimo The Kindness of Strangers ilustram o ideal de um cinema escapista e padronizado, enquanto Elisa y Marcela representou a Netflix em Berlim - junto de The Boy Who Harnessed the Wind, fora de competição -, ambos de formato pouco questionador. 

The Ground Beneath My Feet

Os filmes considerados medianos, aqueles que constituem a base da produção de festivais (Piranhas, The Ground Beneath My Feet, System Crasher), pareceram perdidos entre o abismo que separava duas concepções de cinema. O júri claramente optou por filmes mais questionadores (I Was at Home, But) e politizados (By the Grace of God), mas caso preferissem, teriam opções suficientes para recompensar apenas o grande cinema de mercado.

Isso desperta uma impressão curiosa sobre o Festival de Berlim. Mesmo que a diversidade de formas seja saudável e necessária, é preciso que o festival aponte, por sua curadoria, o tipo de cinema que valoriza, e que pretende destacar para as gerações futuras. Afinal, um prêmio entregue a um filme bom valoriza tanto o filme quanto o festival que o recompensou - a atribuição de status ocorre nos dois sentidos.

Divino Amor

Kosslick deixa a Berlinale em certa crise de identidade sobre o cinema que pretende defender. Resta saber o que Carlo Chatrian, novo diretor artístico e ex-programador de Locarno, trará a um dos mais prestigiosos festivais de cinema do mundo. Com Kosslick, Berlim terá aprendido a buscar a paridade de gêneros cada vez mais rígida na programação, além de valorizar o cinema politizado, LGBT, africano e sul-americano.

O Brasil, aliás, teve mais uma vez 12 representantes distribuídos entre diversas mostras, repetindo o recorde de 2018. A safra brasileira está forte e variada, partindo de documentários agradáveis e politizados como ChãoEstou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar até os dramas consistentes, que apontam os talentos da nova geração, incluindo os diretores Armando Praça, de Greta, Helvécio Marins Jr., de Querência, e Gabriel Mascaro, de Divino Amor. Enquanto isso, Marighella chegou para demonstrar ao mundo a polarização política do nosso país.

Greta

Entre as coproduções, O Brasil colaborou em belíssimos trabalhos como La Arrancada e Breve Historia del Planeta Verde, dois dos melhores filmes que vimos na Berlinale este ano. O Brasil termina a 69ª edição com uma amostra robusta e diversificada de filmes, que dialogam diretamente o caos contemporâneo das políticas de fomento à cultura.

Quem buscou formas mais radicais de cinema encontrou filmes realmente experimentais na Mostra Forum (Vanishing Days, Demons) ou mesmo na Geração, voltada à temática jovem. As seções paralelas, ironicamente, tornam-se muito mais livres para apostar em linguagens ousadas, enquanto a Mostra Competitiva se vê na obrigação de corresponder à expectativa de produções mais polidas e "profissionais", digamos, em oposição ao saudável amadorismo dos diretores jovens presentes nas mostras paralelas.

Para a 70ª edição, espera-se que Berlim mantenha acima de tudo o olhar aberto aos cinemas do mundo. Os brasileiros, em especial, torcem para que Chatrian demonstre o mesmo apreço pela nossa produção, o que tem feito da Berlinale o festival internacional que melhor acolhe o filmes brasileiros.


Críticas

Acid 
Anos 90
Breve Historia del Planeta Verde 
Buoyancy
By the Grace of God
Chão
Dafne
Demons
Divino Amor
Elisa y Marcela
Espero tua (Re)volta
Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar
Farewell to the Night
Ghost Town Anthology
God Exists, Her Name is Petrunya
Greta
Gully Boy
Hellhole
I Was At Home, But
La Arrancada
Light Of My Life
Marighella
Monos
Mr. Jones
MS Slavic 7
Öndög
Out Stealing Horses
Piranhas
Querência 
Retrospekt
A Rosa Azul de Novalis
So Long, My Son
Synonyms
System Crasher
A Tale of Three Sisters
The Boy Who Harnessed the Wind
The Golden Glove
The Ground Beneath My Feet
The Operative
The Souvenir
The Stone Speakers
Tremors
Vanishing Days
Varda by Agnès
Vice
Who You Think I Am

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