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Opinião: O que aprendemos com a polêmica sobre o lançamento de Boy Erased no Brasil?
Por Bruno Carmelo — 09/02/2019 às 09:42
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O filme sobre a "cura gay" foi retirado do calendário de estreias.

Se podemos tirar alguma reflexão da controvérsia envolvendo o lançamento de Boy Erased - Uma Verdade Anulada no Brasil, é a necessidade de interpretar um filme dentro do contexto em que ele se insere. Caso tivesse chegado aos cinemas cerca de um ano atrás, provavelmente teria recebido aprovação moderada, estabelecido um diálogo satisfatório com o público do circuito de arte e sido completamente ignorado pelo público médio ou pela maioria dos cidadãos, que sequer saberia de sua existência.

 

Ironicamente, o filme se torna visível por sua invisibilidade. Ele se transforma em objeto de discussão e motivo de pauta jornalística devido ao fato de não ter sido exibido. Algumas pessoas o repudiam antes de vê-lo (“Se não passou nos cinemas, certamente é ruim”), outras o abraçam como símbolo (“Se foi retirado do calendário de lançamentos, certamente incomodava as pessoas, cutucava algumas feridas, sinal de que é bom”). No entanto, o meio em que os filmes são exibidos – nos cinemas, em VoD, plataformas de streaming etc. – nada diz sobre a qualidade dos mesmos.

 

O AdoroCinema teve a oportunidade de assistir ao drama durante um voo companhia da Iberia. Felizmente, o filme não teve sua versão modificada nem “editada em conteúdo”, o que, sem dúvida, constituiria um ato de censura. O resultado é muito mais discreto do que a polêmica em torno de seu lançamento. Talvez o principal mérito de Boy Erased seja começar com a admissão de Jared (Lucas Hedges) numa terapia de conversão, conhecida popularmente como “cura gay” no Brasil. Não temos uma relação de causalidade precisa (“ele teve contato sexual com outro garoto, logo foi internado”), algo sempre muito ligado à moralidade, apenas uma sequência fortuita de ações. “Um dia, Jared foi internado numa clínica de conversão para homossexuais”, poder ser o começo deste conto.

 

Isso significa que as ações do garoto são consideradas secundárias no filme. Aos olhos do roteiro, nada justifica esta prática, razão pela qual não vale a pena insistir em suas origens. Por mais evidente que seja a aversão à violência psicológica e física sofrida no estabelecimento, o roteiro e a direção evitam o maniqueísmo: os pais de Jared, Nancy (Nicole Kidman) e Marshall (Russell Crowe), amam profundamente o filho, e o submetem a tal experiência por acreditarem ser o melhor para ele. Mesmo o mentor da clínica, Victor Sykes (o diretor Joel Edgerton), manifesta preocupação real em ver a melhora dos garotos – à sua maneira, claro.

 

O tratamento inclui boa dose de culpa religiosa, aversão ao intelectualismo que “deixa as pessoas confusas” e o reforço de uma masculinidade padronizada (homem não cruza as pernas, macho de verdade fica parado com as mãos na cintura etc.). O drama parte habilmente de uma postura passivo-agressiva (o discurso “Nós só queremos o seu bem, queremos que seja feliz”) à agressividade de fato, retratando em detalhes a retórica pseudo terapêutica por trás de uma prática sem qualquer respaldo da psicologia clínica. O projeto é beneficiado por uma atuação contida de Hedges, ator que sempre busca delinear personagens através de gestos mínimos, e de Nicole Kidman, que deixa a voz se tornar mais aguda e nasalada a cada vez que interpreta a típica mulher bela, rica e cômoda dentro do sistema patriarcal.

 

É uma pena que Edgerton se perca na cartilha de bom gosto dos grandes melodramas de Hollywood. O diretor abusa dos dedilhados ao piano e melodias tristes em violino, das câmeras lentas após um momento de tensão, das longas fusões de imagens sugerindo pesar, das escolhas óbvias de canções com letras edificantes ou o ruído de grilos durante discussões silenciosas, para sublinhar o desconforto das partes envolvidas. Esteticamente, o projeto se mostra tão polido quanto impessoal, perdendo-se nas idas e vindas temporais através de uma montagem pouco sutil.

 

Além disso, a observação do processo de “cura gay” por um ponto de vista externo, ao invés do olhar subjetivo de Jared, produz um distanciamento excessivo em relação ao protagonista. Ao término da sessão, sabemos pouco mais sobre ele do que sua orientação sexual. O jovem não tem passatempos, predileções por música ou comida específica, planos traçados para o futuro. Ele é reduzido à posição de “garoto gay”, algo que serve ao discurso de vocação universal e exemplar, porém impede o público de se aprofundar em sua psicologia. Neste sentido, projetos recentes como Me Chame Pelo Seu NomeMoonlight – Sob a Luz do Luar trouxeram construções muito mais sólidas de personagens gays.

 

Boy Erased mereceria ser lançado nos cinemas? Foi retirado injustamente da agenda de estreias brasileira? Este é um falso questionamento. Primeiro, porque a ocupação de filmes no circuito comercial nunca foi questão de mérito: todos devemos concordar que existem diversos filmes ruins pelas salas do país, ainda que discordemos sobre os títulos bons e os ruins. Também devemos conhecer obras que adoramos, mas não foram exibidas em salas. O circuito se acomoda não apenas aos filmes, mas também aos perfis muito distintos das distribuidoras e do mercado em geral. O drama mereceria indicações ao Oscar? Este é outro questionamento infundado, por ignorar o fato de que o Oscar é uma premiação da indústria, para a indústria. Quando se fala em filme bom, o primeiro critério utilizado deveria ser: bom para quê? Para quem?

 

O projeto termina por refletir o momento de medo e fragilidade em que se encontra a população brasileira atualmente. Vivemos tempos políticos e sociais agressivos, polarizados, nos quais ambos os lados se sentem atacados pelo campo alheio. Sentimo-nos na iminência de atos de censura, de decisões sumárias e antidemocráticas, de um ataque às artes, à cultura, às opiniões diferentes da nossa. Em tempo de fake news, opinião se torna fato, suposição se torna verdade. A acusação de que o filme teria sido retirado das salas por homofobia espanta não por sua veracidade, e sim pela plausibilidade.

 

Há cinco anos, por exemplo, uma suposição do gênero seria tida como absurdo completo. Hoje, parece algo que poderia acontecer. Quem diria que os medos de Jared, privado de sua livre sexualidade, de sua voz, de suas histórias (os contos de ficção redigidos pelo garoto são rasgados pelo pastor) dialogariam tão bem com o nosso medo de perder a voz, o direito, a expressão? Boy Erased, retrato crítico das paranoias e da aversão ao desconhecido, se tornou símbolo, adquiriu um valor representativo muito além daquele que seus criadores devem ter imaginado, partindo do pathos dos Estados Unidos marginalizados ao ethos de um Brasil neurótico. Diante deste filme, que muitos ainda não viram, tornamo-nos milhares de Jareds, Nancys, Marshalls e Sykes.

 

Filme visto a bordo de um voo da companhia Iberia, em fevereiro de 2019.

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